A escola preparatória, o liceu, a escola industrial e comercial estavam no Compão, no chamado bairro académico. Para quem vinha do interior, o Compão, era, de facto, uma modernidade. Um dos meus primos (talvez nos seus 3 anos) levou-me a conhecer o mar, quase fugi, fiquei muito assustado, era tempo de calemas. A imagem do mar que conhecia através dos livros pareceu muito diferente da realidade. Esse foi o Lobito que conheci. Os passeios pelo Vinte e Oito, pela Caponte e pelo Liro, bem como as brincadeiras no Ferrovia, marcaram aquelas férias, como os meus primos eram filhos de um ferroviário, tinham direito a usufruir de tudo que o parque ferroviário oferecia. Terminadas as férias, voltei para o Cubal, de onde tinha vindo. Mas ficou gravado na minha memória a beleza da cidade. Voltaria ao Lobito já depois de Novembro de 1975, para continuar os estudos, numa altura que o país já estava mergulhado nas trapalhadas, que nos conduziram até aqui! O Lobito, particularmente os bairros Compão, Caponte e Liro, encontram-se actualmente numa situação desoladora. No presente texto pretendo partilhar as minhas preocupações relativamente à forma como as cidades são geridas em Angola, razão da degradação das infra-estruturas das cidades que se agudiza a cada dia.
As cidades de Benguela e do Lobito encontram-se num estado de degradação das suas ruas, que é simplesmente deplorável, vergonhoso. Quem conheceu essas duas cidades, confirma que se encontram no ponto mais baixo de degradação da sua história. Haverá quem vai justificar o estado de degradação com a guerra que assolou o país. A minha opinião é diferente, a guerra, certamente contribuiu para fluxo de pessoas que tiveram de abandonar o meio rural e a deslocar-se para as cidades a procura da segurança que não encontravam nas aldeias. Mas, creio que o factor preponderante que contribui para a degradação das vilas e cidades, é o modo de administração das localidades, que é super centralizado. Na generalidade, as pessoas que administram os municípios, as comunas, vêm de outros locais e são apontados pela administração central, com base na lealdade política. Esses administradores, não devem obediência ou satisfação directa às populações que servem, tão pouco conhecem a génese dos problemas que atormentam as populações que governam. Não têm ligação histórica aos problemas, se os conhecem, é por contos e ouvir dizer. É diferente de quem os viveu!
Igualmente, a problemática da propriedade, partindo do princípio de que tudo deve ter um dono, que cuida do que é seu. Porque nele está o valor intrínseco. Como sabemos, através de exemplos de outros países, as cidades são administradas com as receitas provenientes dos impostos do património imobiliário, é a principal fonte de receitas de uma cidade. No caso angolano, uma parte do património imobiliário tinha sido confiscado por abandono dos seus donos, passando para a esfera do Estado. Como se vê, o Estado não soube cuidar adequadamente o seu património, de tal sorte, que parte deste património ficou degradado, ou passou para esfera privada de uma forma dúbia, ou ainda continua na esfera do Estado, mas sem capacidade, de, por exemplo, honrar com as suas obrigações fiscais. Vemos em todas as cidades de Angola a degradação dos edifícios propriedade do Estado, ou em mãos de particulares, mas que não dispõe de regulamento para a manutenção de espaços comuns (Lei dos Condóminos). Como consequência assistimos à degradação do património imobiliário.
A cidade do Lobito tem uma configuração especial, tem Mangais (dizem ser canais de respiração do mar), que também são bacias de drenagem e retenção de águas fluviais. Muitos desses mangais foram entulhados, tendo-se interrompido os canais de drenagem de águas fluviais. As águas fluviais estagnadas nas avenidas contribuíram para a degradação das mesmas. O Bairro Académico, hoje não tem nenhuma rua com asfalto. As ruas são quase todas de terra batida. Confesso, dói-me o coração passar por aquelas ruas, quando adolescente e jovem passei por elas com os jardins dos quintais a florescer. O Compão, hoje, assemelha-se a um Kimbo, ou aldeia desorganizada. Pois a aldeia onde nasci, tinha avenidas, eram terra batida, mas alinhadas e limpas, sem buracos.
Há aspectos da gestão das cidades que nada têm a ver com a falta de dinheiro. O problema reside mesmo na falta de iniciativa e de capacidade para gerir operações. As cidades são operações complexas, dependendo, claramente, da dimensão das mesmas. Por isso, as pessoas a frente desses órgãos devem ter competências de gestão adequadas, para administrar operações complexas. Uma cidade como Benguela, Catumbela, ou Lobito, requerem operações dinâmicas e eficientes, pois são aglomerados que já envolvem muitas vidas, quer se trate do campo, da educação, da saúde, da protecção civil, do policiamento, da limpeza, da manutenção de estradas ou ainda do fornecimento de águas e electricidade, implica uma grande capacidade de coordenação. Não me parece existir, competências por parte dos que gerem as operações para a coordenação efectiva das cidades, agravado com o facto de que a população local não tem influência na decisão de quem é colocado a frente dessas operações, tão pouco dos projectos que são desenvolvidos nas suas localidades.
Falando da cidade do Lobito, o mote dessa reflexão, há aspectos que vale apenas dizer, porque não fazem sentido! Começo pela rotunda do Bairro da Luz, da rua que liga a Academia do Exército. As águas vazadas por um edifício, foram as que contribuíram para degradar o asfalto. Foi feito uma intervenção e a rotunda foi reconstruída em betão armado. A verdade é que as águas, a causa da degradação precedente da rotunda, continuam a vazar e a derramar-se pela rotunda, contribuindo para a sua paulatina degradação, será que os gestores da cidade não têm passado pela rotunda do Bairro da Luz (não há outra entrada na cidade do Lobito)? Igualmente, a lama proveniente da vala que inundou o Bairro da Luz, invadiu a rotunda, que estava tão bem amanhada, o ano passado, este ano, a brita que fora colocada para enfeitar a rotunda, quase desapareceu. Algumas paredes, que fazem parte do designer da rotunda, já foram vandalizadas e não parece haver preocupação em restaurar ou tirar a lama. Não creio custar muito dinheiro fazer aquele trabalho ou intervir no edifício que está a vazar as águas para a via pública.
O Compão, tem vindo a beneficiar de uma intervenção de relevo desde Abril de 2022. A Avenida Brasil (a rua que vem da Administração Municipal do Lobito, na Restinga ao Flamingo), foi completamente restaurada, passou a ser a rua preferida por motoqueiros e viaturas. Estão a trabalhar numa vala que vai escoar as águas fluviais, pois sem este arranjo, nada valerá a recuperação das ruas do Compão. Entretanto, me parece que a intervenção está a levar muito tempo. O bairro clama por uma imagem diferente!
A par das debilidades administrativas, estou em crer que tem de se repensar a administração das cidades, porquanto, o actual modelo deu provas de não ser funcional. Está completamente reprovado, é o que nos trouxe até à situação da degradação das cidades que assistimos. Tenho viajado pelo país, do Norte ao Sul, do Litoral ao Leste. Não vejo diferenças assinaláveis entre uma idade e outra. As cidades estão quase todos com problemas de gestão dos resíduos sólidos, manutenção das estradas no perímetro urbano, das escolas, hospitais e postos de saúde. Geralmente, constrói-se, mas depois as infra-estruturas degradam-se, porque não são mantidas.

A praia do Compão, que o meu priminho me fez conhecer em 1974, era um local de diversão da juventude, era do primeiro nível, mergulhei e diverti-me naquele lugar por muitos anos. Hoje, porém, é quase impossível por lá passar, porque pessoas decidiram fixarem-se no local, defecam na praia, dando um cheiro nauseabundo, que nem para uma simples caminhada dá. Os pescadores decidiram estancar as suas chatas e redes na praia, no local urbano, que devia ser inaceitável. Dissuadir esses indivíduos que fixam os seus casebres à beira praia ou orientar os pescadores a retirarem as suas chatas naquele local e afastá-los mais para o Sul (Praia Bebé), custa dinheiro? Creio que não! Como queremos promover o turismo nestas condições? Como se pode falar de Lobito como Sala de Visitas? Assim como se encontra a praia do Compão, pode-se receber visitas? Creio que é consensual, que o actual modelo de gestão das cidades está errado e não funciona, é preciso que seja erradicado, nem se deve falar de reforma, porque não tem nada que se possa aproveitar dele, tem de ser erradicado, em substituição que venha a gestão autárquica, cujos gestores são eleitos pelo povo. Que seja dada primazia a propriedade privada do património imobiliário, fiscalize-se a gestão dos condomínios, para que exemplos de cidades moribundas como o Lobito não se multipliquem por Angola fora. Lobito quem te viu, quem te vê, de sala de visita só resta o nome!

*Economista