Embora incidam sobre matérias distintas, as duas notícias convergem numa questão essencial: a fiabilidade da informação estatística com que Angola procura conhecer e interpretar a sua realidade económica. Se, por um lado, as divergências entre o INE e o Ministério da Indústria levantam dúvidas sobre a consistência dos dados relativos à produção industrial, por outro, o reconhecimento da necessidade de melhorar a medição das estatísticas agrárias evidencia os desafios metodológicos que persistem na produção de informação rigorosa.
Os números que sustentam decisões públicas, orientam investimentos e alimentam o debate económico devem ser produzidos com rigor. E é justo destacar o esforço do INE na prossecução dos seus objectivos e na obtenção de resultados que merecem reconhecimento.
A estatística é a ciência que recolhe, organiza, analisa e interpreta dados para compreender fenómenos e apoiar decisões. Está presente na economia, na medicina, na educação, na política, no desporto e até na vida familiar. Quando um hospital calcula a taxa de mortalidade, uma escola avalia os resultados dos alunos ou um banco acompanha a evolução dos seus parceiros, está a recorrer à estatística para transformar observações dispersas em informação útil.
Na política e no jornalismo, a estatística pode ajudar a distinguir a percepção da realidade. Uma sondagem procura estimar as preferências de uma população a partir de uma amostra; os indicadores económicos permitem acompanhar a inflação, o desemprego ou o crescimento; e os dados demográficos ajudam a compreender as transformações de uma sociedade. Mas os números não falam sozinhos. A escolha da amostra, o período analisado, os critérios de recolha e a forma de apresentar os resultados podem alterar profundamente a interpretação. Um número pode estar correcto e, ainda assim, conduzir a uma conclusão enganadora.
Há também uma dimensão filosófica na estatística. As médias descrevem tendências, mas nem sempre revelam a experiência de cada indivíduo. Se uma empresa apresentar um salário médio elevado, isso não significa que todos os trabalhadores recebam bem; se um país registar crescimento económico, isso não garante que a riqueza esteja distribuída de forma equilibrada. A estatística ajuda-nos a reconhecer padrões, mas exige pensamento crítico para compreender o que os dados mostram, e aquilo que deixam por mostrar.
Etimologicamente, a palavra estatística deriva do alemão "Statistik", termo difundido no século XVIII e inicialmente associado ao estudo descritivo dos assuntos do Estado. A sua raiz remonta ao italiano "statista" e ao latim "status", "estado", "condição" ou "situação". A ligação histórica ao Estado explica por que razão os primeiros levantamentos estatísticos se concentravam na população, nos recursos, nos impostos e na organização dos territórios. Com o tempo, a disciplina ultrapassou largamente essa função administrativa e tornou-se um instrumento fundamental para interpretar quase todos os domínios da realidade.
No fundo, o desafio de Angola é garantir que estas traduzam, com fidelidade, a realidade que pretendem medir. A qualidade da informação estatística é, por isso, essencial para compreender melhor a realidade do país.
*Mestre em Linguística pela Universidade Agostinho Neto