Ao longo da manhã de segunda-feira, 16, a praia foi ocupada por famílias, grupos de amigos e crianças. Toalhas estendidas, grelhadores improvisados, conversas e brincadeiras. O feriado permitiu recuperar tempo perdido, estender o olhar sobre a paisagem familiar e redescobrir o encanto do mar.
O mar, a partir do meio-dia, apresentava-se num estado de maré enchente, com ondulações mais altas e séries regulares. As águas agitavam-se com o marulhar contínuo das ondas que vinham morrer na praia, lambendo areia para a frente e para trás. A espuma na crista a dissolver-se em pequenas bolhas brancas.
Sobre a imensidão azul, formavam-se porções de espuma branca, dispersas e móveis, que terminavam na explosão de águas sobre as rochas da Ilha. O fenómeno tornou o mar interessante para quem gosta de surf, embora a prática não seja comum na Ilha. Para os surfistas habituais, as praias de Cabo Ledo permanecem o ponto de referência, com ondas constantes e zonas organizadas para a modalidade, mas na Ilha, naquele dia, a ondulação ofereceu condições técnicas favoráveis para a prática do desporto.
O acesso à Ilha intensificou-se a partir do final da manhã. A ponte registou fluxo acima do normal e a circulação nas vias de entrada ficou lenta. O tráfego, concentrado num curto período, tornou a viagem mais demorada do que o esperado. Já na Ilha, estacionar foi outro desafio. Os lugares disponíveis esgotaram-se rapidamente e muitos condutores deram voltas sucessivas à procura de espaço. A situação foi agravada por uma operação pontual do regulador de trânsito, que fiscalizava paragens irregulares e reorganizava o fluxo nas áreas mais congestionadas.
Sentado numa cadeira de praia, sob o chapéu de sol, era difícil não perceber que ali diante dos olhos não estava apenas uma praia urbana, mas um pedaço pleno do Oceano Atlântico. A massa de água salgada separa e liga continentes, estendendo-se entre a Europa e África a leste e as Américas a oeste. Aquele mar, com a sua força e amplitude, lembra que a Ilha é apenas um fragmento de um sistema muito maior.
O Atlântico regula climas, transporta correntes como as do Golfo do México, sustenta ecossistemas vastos e influencia actividades económicas. As suas marés obedecem à gravidade lunar, lembrando que até à vastidão segue padrões previsíveis. Historicamente, foi rota de navegadores, mercadores, missionários e, tragicamente, de milhões de africanos escravizados. Separou famílias, criou diásporas, misturou culturas. Para Angola, é horizonte e memória, promessa e cicatriz.
Angola possui cerca de 1.600 quilómetros de costa atlântica, do enclave de Cabinda ao sul, no Cunene. É uma extensão estratégica, vital para a economia e a sociedade. Sustenta pesca artesanal e industrial, e liga o país às rotas comerciais internacionais. A Ilha de Luanda é apenas um recorte desse litoral, mas tornou-se o trecho mais conhecido e frequentado da capital. É ali que a cidade encontra o oceano de forma directa, naquele espaço que a música popular consagrou como "eterno pombal do amor", na voz de Carlos Burity.
O que se vê na Ilha de Luanda é apenas uma amostra da riqueza atlântica que Angola possui. Ondas a rebentar, espuma a estalar sobre as pedras, marulhar constante, água de cor intensa - tudo evidencia a força e o impacto do oceano sobre o litoral e sobre a vida dos luandenses. A experiência quotidiana reduz a consciência do que está diante dos nossos olhos, mas a Ilha oferece um contacto directo e imediato com o Atlântico, lembrando aos que frequentam a praia que o oceano é mais do que um cenário; é território com valor histórico e estratégico.
No feriado, o Atlântico mostrou-se em força plena. Lembrava que estamos diante de uma riqueza natural, cultural e económica de dimensão continental, à porta da cidade.
*Mestre em Linguística pela Universidade Agostinho Neto

