A existência física de uma obra não garante, portanto, a permanência da sua memória. Quando uma grande obra pública é inaugurada, a informação que chega à sociedade é normalmente centrada no investimento, no financiamento, nos prazos de execução ou no impacto económico-social esperado. São informações importantes, mas existe uma outra dimensão que raramente ocupa o mesmo espaço: a dimensão arquitectónica e documental da obra. Quem concebeu? Quem assumiu a responsabilidade pela autoria?

Que arquitectos e equipas técnicas participaram? Qual foi a relação entre o projecto e o lugar? Que decisões determinaram a implantação? Que soluções arquitectónicas foram adoptadas? Que alterações ocorreram entre o projecto e a construção? Que documentação foi produzida? Onde está essa documentação e em que condições poderá ser consultada publicamente? E, sobretudo, que participação tiveram os profissionais e instituições angolanas nesse processo?

Estas perguntas não devem ser encaradas como meramente académicas. Imagine-se uma estação ferroviária construída hoje (num importante corredor logístico), daqui a cinquenta anos, poderá ser estudada como documento de uma determinada fase da construção de Angola. Para isso, não bastará saber a data de inauguração ou a sua capacidade de transporte. Será necessário conhecer o projecto, os seus autores, as equipas envolvidas, as opções arquitectónicas, as circunstâncias da sua construção e as transformações que sofreu.

O mesmo se aplica a um hospital (numa rede de cuidados continuados). O edifício será simultaneamente uma infra-estrutura de saúde, um objecto arquitectónico, um documento de política pública e um testemunho de uma determinada concepção de sociedade. Sem documentação, perderemos progressivamente a capacidade de interpretar essas diferentes dimensões. Num porto ou num aeroporto, a escala é ainda maior. Não estamos apenas perante edifícios ou equipamentos isolados, mas perante infra-estruturas que reconfiguram territórios, fluxos, paisagens e relações económicas e até formas de vida. A sua memória não pode ser reduzida ao momento da inauguração. Daqui a várias décadas, será legítimo perguntar: quem projectou as grandes obras que hoje definem partes importantes de Angola? E será possível responder?

Esta pergunta conduz-nos a outra, particularmente sensível: qual é o lugar dos arquitectos angolanos na produção das nossas grandes obras do século XXI?
Nem todas as grandes obras públicas terão necessariamente a mesma composição de equipas, os mesmos processos de contratação ou o mesmo grau de participação nacional. Algumas poderão resultar de equipas exclusivamente angolanas; outras poderão envolver empresas e profissionais também estrangeiros; outras ainda poderão ter estruturas de colaboração exclusivamente internacionais. O desafio não está na diversidade. O problema é não conseguirmos construir documentalmente essas relações. A questão da autoria não deve ser reduzida ao nome que aparece numa assinatura. É necessário compreender quem produziu conhecimento arquitectónico em cada obra, em que condições, através de que estruturas profissionais e com que grau de participação nacional. Uma obra construída em Angola deve deixar conhecimento disponível sobre a sua própria concepção. Esta é também uma questão de soberania de conhecimento.

É aqui que a diferença entre construir arquitectura e produzir conhecimento sobre arquitectura se torna fundamental. E é precisamente nesta segunda dimensão que encontramos a maior fragilidade da nossa cultura arquitectónica.

Há ainda uma questão que não podemos evitar: qual é, afinal, a função dos historiadores angolanos, em particular os de arquitectura? Existem investigadores e professores dedicados à história da arquitectura angolana. Existem trabalhos académicos, dissertações, teses, artigos e investigações relevantes. A questão não é, portanto, a inexistência de conhecimento ou de pessoas capazes de o produzir. O problema está na forma como esse conhecimento se transforma - ou não - em património documental nacional. A história da arquitectura deve incluir a identificação das obras, a contextualização histórica, a investigação da autoria, a organização das fontes, a produção de inventários e a construção de instrumentos que permitam que esse conhecimento seja continuamente utilizado e ampliado. Quando essa função permanece essencialmente académica ou fragmentada, podem ser produzidos trabalhos de grande valor sem que se consolide uma estrutura permanente de conhecimento.

E aqui encontramos outra questão particularmente sensível: a relação entre a investigação sobre a arquitectura angolana e os sistemas internacionais de conhecimento. A internacionalização da investigação é necessária. Angola não deve estar isolada das redes internacionais de investigação, das universidades, dos arquivos, dos centros de estudos e das plataformas de conhecimento. A circulação internacional de investigadores e fontes pode enriquecer profundamente a compreensão da nossa arquitectura.

A pergunta que devemos fazer é simples: o que é que de facto gera para Angola?
Se uma investigação utiliza um arquivo Angolano, esse processo deveria, sempre que possível, deixar também no País instrumentos que reforcem a sua própria capacidade documental: cópias organizadas, inventários, metadados, referências, instrumentos de pesquisa, bases documentais, formação de investigadores ou outros resultados que possam ser reutilizados. Caso contrário, corremos o risco de criar uma situação paradoxal: Angola fornece as fontes, outros sistemas produzem conhecimento sobre essas fontes e Angola continua sem uma estrutura suficientemente robusta para organizar, conservar e disponibilizar a sua própria memória arquitectónica.
Não se trata de fechar os arquivos nem de impedir a cooperação internacional. Pelo contrário. Trata-se de construir relações mais equilibradas. Uma parceria científica não deveria ser avaliada exclusivamente pelo número de publicações produzidas, pelas instituições envolvidas ou pela projecção internacional alcançada. Deveria ser avaliada também por aquilo que deixa instalado no território de origem: arquivos organizados, investigadores formados, inventários, metodologias, competências e novas capacidades institucionais.

É uma questão de soberania documental.
Esta questão pode ser colocada também relativamente às representações arquitectónicas de Angola no exterior. O que acontece, por exemplo, aos projectos dos pavilhões construídos para as Exposições Universais em que Angola participa há mais de trinta anos? Depois de encerrada a exposição, onde ficam publicamente acessíveis os projectos, desenhos, maquetas, fotografias, processos de concepção e demais documentação produzida? Que parte desse património (em alguns casos premiado) permanece publicamente acessível em Angola? Que benefício concreto - científico, cultural, profissional ou institucional - fica no País depois de terminada a representação? Um pavilhão nacional pode ser uma arquitectura efémera, mas o conhecimento produzido para o conceber e construir não deveria ser. Se uma arquitectura é criada para representar Angola no mundo, deveria também haver em Angola memória suficiente dessa representação.

Cada fragmento contém uma parte da história, mas fragmentos isolados não constituem ainda conhecimento. Para que se transformem em conhecimento é necessário identificar, contextualizar, relacionar, verificar, preservar e tornar inteligíveis essas fontes. É esse processo que permite passar da memória individual para a memória colectiva e, posteriormente, da memória colectiva para o conhecimento histórico.
É precisamente neste ponto que se insere o Projecto 50 Anos de Arquitectura Angolana. Não se trata de reivindicar propriedade sobre a memória da arquitectura angolana. Trata-se de criar condições para que essa memória possa ser colectivamente produzida, criticamente analisada e transmitida. Esta abertura será particularmente importante para as obras que estamos a construir agora. A documentação de uma obra pública - e não apenas de uma obra pública - deveria acompanhar a própria obra e fazer parte da sua história desde o início. Construir é produzir território. Documentar é produzir memória. Organizar essa memória é produzir conhecimento. E produzir conhecimento é também um acto de soberania.
Em suma, o que não nos falta são agentes e fontes documentais. O que nos falta, de facto. é ter interesse em transformar essa disponibilidade potencial numa capacidade permanente de produção de conhecimento. Talvez assim a arquitectura angolana possa deixar de ser apenas aquilo que as próximas gerações encontrarão construído e passar a ser aquilo que serão capazes de investigar, interpretar e, sobretudo, reconhecer, com orgulho, como seu..

* Arquitecto e Investigador Phd em arquitectura