Em comunicado enviado às redacções, o partido do "Galo Negro" afirma lamentar "profundamente" que os Chefes de Estado e de Governo da Comunidade de Desenvolvimento da África Austral (SADC) "se tenham deixado manipular pelo Executivo angolano, movido há muito por interesses não confessados".

No mesmo comunicado, a União Nacional para a Independência Total de Angola (UNITA) acusa o Executivo e o MPLA de "permanecerem virados para uma governação para o exterior, prenhe de show-offs", avançando "saber o bastante dessa História" para poder afirmar que "a motivação dos líderes angolanos que promoveram, no seio da SADC, a consagração da data de 23 de Março, não se enquadra nas aspirações de liberdade e unidade dos africanos, porque deturpa factos importantes que, a seu tempo, a revelação da verdadeira História cuidará de corrigir".

Segundo o partido do "Galo Negro", "a deturpação de factos para falsear a História, tem sido um apanágio do partido-Estado".

"Foi assim durante a luta anticolonial, no período de transição para a independência, foi assim em relação ao holocausto angolano que se seguiu ao 27 de maio de 1977 e tem sido também assim durante a governação corrupta de Angola que empobreceu os angolanos nos últimos 40 anos", pode ler-se no comunicado.

"A UNITA repudia veementemente a atitude do partido-Estado de Angola de deturpar os efeitos determinantes da grande batalha ocorrida nas margens do rio Lomba na mudança do curso da História política da região, e de escolher, em seu lugar, o momento do impasse militar, no local do recuo, a margem direita do rio Cuíto, para simbolizar a libertação da África Austral", lê-se na declaração subscrita pelo partido fundado por Jonas Savimbi.

De acordo com os argumentos apresentados pela UNITA no mesmo documento, "a História está aí para registar que a batalha do Cuíto Cuanavale não representou o fim da guerra em Angola nem significou a libertação da África Austral".

"Angola, a Zâmbia, o Botswana, Moçambique, o Malawi, a Tanzânia, a Swazilândia, o Zimbabwe e a própria África do Sul já eram independentes antes dessa batalha. O processo negocial angolano teve de passar por novas batalhas militares, como foi a última campanha para a tomada da Jamba em 1990 igualmente fracassada e também por processos negociais anteriores a Bicesse como foram os fracassados Acordos de Gbadolite, em que se pretendia o exílio do Dr. Savimbi", acrescenta.

"Por tudo isso", diz a UNITA, "é uma mentira grosseira atribuir a libertação da África Austral à batalha do Cuito Cuanavale que apenas existiu devido ao fracasso da tentativa de tomada da Jamba".

"A África Austral precisa, acima de tudo, de ser libertada da fome, pobreza e exclusão a que está submetida a grande maioria dos seus povos. Precisa de ser libertada especialmente do fenómeno da delapidação dos seus recursos e do flagelo da corrupção, promovidos e protegidos por alguns dos seus governos que, paradoxalmente, se intitulam de 'libertadores da África Austral'", refere o partido no mesmo documento, referindo que o Governo e o MPLA "preferem despender milhões de dólares com a organização de competições internacionais enquanto o povo morre de fome, com satélites que não funcionam quando a saúde adoece, com 'marketing' de vitórias e heróis inexistentes enquanto prossegue o roubo e a impunidade".

Na edição de 19 de Março, o director do Jornal de Angola, Victor Silva, escreve sobre as críticas da UNITA à institucionalização do 23 de Março como um feriado evocativo do fim do "apartheid" na África Austral, reprovando a contestação do maior partido da oposição em Angola.

"A UNITA, numa atitude a todos os títulos reprovável, contestou de forma veemente esta proposta, assumindo as dores de parto de uns poucos que ainda vão defendendo a situação prevalecente na África Austral no fim dos anos 80 do século passado", escreveu Victor Silva, que afirma, no mesmo texto, que "para chegarmos ao Estado democrático que vivemos, que sem ser o mais perfeito é o melhor que temos, foi absolutamente necessário que todas as forças políticas fizessem cedências a todos os níveis, fundamentalmente no plano ideológico".

"A batalha do Cuíto Cuanavale não representou uma derrota da UNITA, foi sim o fim de um modelo político desajustado dos tempos que então se viviam, e a vitória de uma África que se sentia aviltada pela perpetuação de um regime onde a maioria da população estava subjugada aos ditames de uma minoria branca possidente da estrutura económica de um país, que era e é só o mais desenvolvido do continente africano", regista ainda Victor Silva.

O director do Jornal de Angola afirma que "a batalha do Cuíto Cuanavale não foi vencida pelo MPLA, foi ganha pelo que aconteceu depois: a independência da Namíbia, a libertação de Nelson Mandela, o consequente epílogo do fim do apartheid e a institucionalização da democracia plena na África do Sul e o início da formalização da democracia parlamentar em Angola".

Segundo Victor Silva, "a história não corre contra ninguém, por isso a UNITA deve acabar de vez com os fantasmas de um passado que terá motivos para se orgulhar e outros para lamentar, como todos os outros intervenientes no processo de consolidação da paz e da democracia na África Austral", aconselhando o partido do "Galo Negro" "a ser um partido de futuro, e afirmar-se como força imprescindível para a edificação do Estado democrático de Angola".