O relato bíblico do Êxodo conta que o faraó recusava libertar o povo hebreu, e foi precisamente essa resistência que o Egipto levou para o relvado desde o apito inicial. A mensagem ficou clara: a Argentina não teria uma travessia tranquila.
Com uma estratégia asfixiante para impedir que a bola chegasse a Lionel Messi, os "Faraós" apresentaram uma organização rigorosa e uma disciplina táctica estudada ao detalhe. Nem Mohamed Salah, nem Emam Ashour foram os protagonistas da missão de sufocar o campeão do mundo. O escolhido para essa tarefa improvável já tinha dado sinais diante da Austrália, surpreendendo muitos adeptos que desconheciam a técnica, a criatividade e a capacidade de desequilíbrio que revelava em cada toque - tratava-se de Haissem Hassan.
Engane-se quem pensou que seria apenas um episódio isolado. O seleccionador Hossam Hassan voltou a depositar confiança nele diante do maior teste, a Argentina, nos oitavos-de-final, no jogo mais importante das suas vidas. Sem Omar Marmoush, do Manchester City, em campo, o técnico preferiu lançar um futebolista que actua no Oviedo, da segunda divisão espanhola. A aposta revelou-se certeira: não apareceu antídoto para o atleta de 24 anos, nascido em Paris e filho de pai egípcio e mãe tunisina. Cada recepção de Haissem Hassan transformava-se num sinal de alerta para a defesa argentina. Sempre que tinha a bola nos pés, deixava no ar a sensação de que algo imprevisível poderia acontecer.
Aos 15 minutos, a surpresa surgiu como um clarão antes da tempestade: Yasser Ibrahim apareceu na área contrária e, como se tivesse uma mola nos pés, antecipou-se a Lisandro Martínez e respondeu ao cruzamento perfeito de Marwan Attia. Estava feito o 1-0, para explosão das bancadas e de um país que pela primeira vez sonhava que era possível atingir os quartos-de-final.
Depois de Nicolás Tagliafico ter sido derrubado na grande área egípcia, aos 21 minutos o suspense instalou-se. As câmaras procuraram todas captar o momento em que Lionel Messi teve nos pés o empate através da marca dos 11 metros. Contudo, o 10 da "Albiceleste", que já tinha falhado outro penálti no torneio, não conseguiu superar o guardião do Al Ahly, Mostafa Shobeir, que ganhou confiança e transmitiu ânimo aos companheiros com a defesa.
Passados dez minutos, o jogador do Inter Miami cobrou um livre com selo de golo de fora da área, mas a bola encontrou o poste. Ainda antes do intervalo, numa jogada de entendimento entre Nicolás Tagliafico e Julián Álvarez, o avançado do Atlético Madrid viu o guarda-redes dos "Faraós" negar-lhe o golo com uma intervenção de elevado grau de dificuldade, exigindo reflexos rápidos.
Na segunda parte, a postura defensiva do lado africano deu lugar a uma disposição mais orientada para o contra-ataque, como um escorpião no deserto que aguarda pacientemente o momento exacto para desferir o golpe. Num lance construído por Haissem Hassan, que serpenteou entre a marcação argentina antes de servir Mohamed Salah, o avançado do Liverpool descobriu Mostafa Ziko solto para fazer o 2-0 e mergulhar o campeão do mundo numa apatia inesperada. Porém, a intervenção do VAR anulou o lance por falta de Marwan Attia sobre Nicolás Tagliafico no início da jogada.
Todavia, o plano tão meticulosamente preparado viria, de facto, a concretizar-se. Tudo nasceu de uma transição rápida defesa-ataque, com Haissem Hassan a deixar Enzo Fernández para trás antes de cruzar rasteiro para Ziko, que apareceu de rompante na área e rematou para o fundo das redes de Emiliano Martínez. Aos 67 minutos, estava consumado o 2-0: o Egipto aproximava-se de uma vitória histórica e a queda do vencedor do Mundial 2022 no Qatar afigurava-se cada vez mais inevitável.
Aos 74 minutos, Haissem Hassan teve de ser substituído devido a queixas musculares. Foi um pormenor que pode ter passado despercebido a muitos observadores, mas acabou por revelar-se crucial. Sem o principal desequilibrador egípcio em campo, a Argentina encontrou finalmente espaço para iniciar a travessia.
Nessa altura, os adeptos do conjunto sul-americano agarravam-se cada vez mais ao misticismo que tantas vezes acompanha a selecção: às memórias de Diego Armando Maradona, à figura de Jorge Bergoglio, in memoriam, e ao célebre "Elijo creer". Para quem tem Lionel Messi em campo, o impossível continua a parecer possível. Mesmo numa noite abaixo do seu padrão habitual, bastou um instante para a genialidade encontrar a eternidade. Afinal, o predestinado capaz de guiar a "Albiceleste" através do Mar Vermelho continua a ser ele.
O menino de Rosário, cuja carreira conheceu quedas que o levaram a afastar-se e a regressar à "Albiceleste", voltou a assumir o papel de guia. Como Moisés, conduziu o seu povo rumo à terra prometida, mas com uma diferença: ao contrário do profeta bíblico, entrou nela ao lado dos seus, no Qatar. Em apenas 13 minutos, Messi alterou completamente o destino da partida. Primeiro ofereceu o golo a Cristian Romero, com um cruzamento perfeito para a cabeça do defesa do Tottenham reduzir a desvantagem aos 79 minutos. Depois, assinou um vólei fulminante que nem a trave, nem Mostafa Shobeir, em noite inspirada, conseguiram travar aos 83 minutos.
Contudo, a travessia não dependeu só do 10. Lionel Scaloni, que aos 66 minutos lançou Lautaro Martínez no lugar de Rodrigo De Paul, acabou por colher os frutos do risco. A alteração revelou-se decisiva no momento em que a Argentina precisava de encontrar uma nova força para completar a travessia.
O médio cabeceou com a força de quem rompe as últimas correntes do êxodo prematuro e enterrou o sonho faraónico numa reviravolta épica. Rapidamente, o verniz estalou e as inevitáveis polémicas que acompanham as grandes campanhas argentinas, desde 1978, passando por 1986, até 2022, não faltaram à festa. É caso para dizer que o coração dos herdeiros de Kempes e Maradona continua a bater. Resta saber até onde.


































































































