E é por isso que Esmaeil Baghaei, o porta-voz do Ministério dos Negócios Estrangeiros iraniano, numa conferência de imprensa que pode ter sido das mais mediáticas em muito tempo, com directos em quase todas as grandes televisões internacionais, disse claramente que em Teerão "ninguém confia na palavra" de Donald Trump.

E disse ainda que apesar de existirem negociações concretas através de mediadores, o Paquistão e países árabes do Golfo Pérsico, Catar e a Arábia saudita, e alguns avanços tenham acontecido, para o Irão qualquer acordo tem de ser consolidado através de muito mais que uma mera publicação de Donald Trump numa rede social.

E as palavras de Esmaeil Baghaei não podiam ter maior respaldo nos factos conhecidos, desde logo que o Irão contraria de forma abrasiva a ideia passada por Donald Trump de que a questão do programa nuclear está quase resolvida e que o Estreito de Ormuz vai ser reaberto de forma incondicional.

Para Teerão, ainda segundo Baghaei, entre os tópicos que estão na lista dos entendimentos alcançados não está garantido qualquer acordo, até porque o Irão não aceita encerrar já o dossier nuclear, proponto dois meses para esse efeito, e não abdica de manter uma supervisão do Estreito de Ormuz a par de Omã, país que está do outro lado deste estratégico canal.

Por outro lado, naquilo que é igualmente uma declaração assente em factos, o diplomata iraniano nota que todos os sinais apontam para uma renovada tentativa de Israel minar estas conversações, porque foi o próprio primeiro-ministro israelita que o confirmou.

E Benjamin Netanyhau fê-lo ao anunciar neste Domingo, 24, que manteve uma conversa telefónica com Donald Trump onde este lhe garantiu que Telavive vai manter as mãos livres para usar a opção militar no Líbano, pais que tem a sua região sul sob ocupação israelita.

O que é uma barreira à paz, visto que o Irão não abdica de ter no documento que vier a ser assinado garantias de que a guerra termina em todas as frentes, e a frente do sul do Líbano e norte de Israel, onde Terlavive combate o Hezbollah, é das mais flamejantes, além de Gaza.

A razão pela qual Teerão exige mais que a palavra de Trump ou qualquer publicação sua na Truth Social, é porque em Junho de 2025, a coligação isarelo-americana atacou o Irão a meio de negociações avançadas, a 24 horas de uma nova ronda negocial, e o mesmo sucedeu desta vez, a 28 de fevereiro deste ano, quando a mesma coligação voltou a atacar Teerão quando decorriam negociações intensas mediadas por Omã.

E o mesmo se teme que possa suceder em Teerão, não apenas porque Benjamin Netanyhau já disse claramente que está contra um acordo de paz entre EUA e Irão, mas porque vários analistas admitem que a entrada em cena de sauditas e cataris como mediadores tem como objectivo garantir que a guerra não regressa durante a vigência do El Hajj.

O Hajj, que este ano dura de 25 a 30 de maio, é um dos momentos mais importantes no calendário das festividades do Islão, com a peregrinação anual a Meca, na Arábia Saudita, o local mais sagrado para esta confissão religiosa, durante a qual milhões de pessoas vão ao local onde nasceu o profeta Mohammed.

Isto, porque o calendário dos eventos sagrados do Islão não tenha habitualmente qualquer impacto no calendário das decisões militares dos EUA, até porque o mais recente ataque, de 28 de fevereiro, coincidiu como Ramadão, sendo por isso que sauditas e cataris estarão directamente envolvidos para evitar que tal volte a suceder.

Apesar destas legítimas desconfianças do Irão, Marco Rubio, secretário de Estado, chefe da diplomacia norte-americana e conselheiro para a Segurança Nacional de Donald Trump, veio dizer que os avanços na direcção da paz "são bastante sólidos".

Isto, ao mesmo tempo que o Presidente norte-americano, na sua famosa inconstância, depois de dois dias a falar de um iminente acordo, que não era a coisa mais esperada, embora depois tenha sido corroborado por Teerão, ter vindo agora meter água na fervura do optimismo dizendo que não está com pressa para chegar a um acordo.

O que fez acompanhar com uma ameaçadora imagem de um míssil acoplado a um avião de guerra, com a frase "obrigado pela atenção prestada a esta matéria", escrita no seu dorso, que habitualmente usa para terminar as suas publicações mais abrasivas na Truth Social.

Todavia, a Casa Branca tem outro míssil que não precisa de aparecer em fotografias ou ter inscrições ameaçadoras, porque, ainda assim, é a maior ameaça às intenções políticas de Donald Trump para este ano que é "sobreviver" às eleições intercalares de Novembro, onde, segundo as sondagens, está em risco de perder as maiorias nas duas câmaras do Congresso, o Senado e dos Representantes.

É que se um acordo não for assinado, por ser boicotado por Israel, ou porque o Irão não cede às exigências maximalistas norte-americanas, o Estreito de Ormuz manter-se-á fechado e isso pode ser uma "sentença de morte" para as aspirações eleitorais do Partido Republicano face ao impacto na economia dos EUA.

A inflação e o aumento gigantesco no preço directo dos combustíveis para os eleitores norte-americanos no posto de abastecimento é uma "tragédia" para quem Governa a Casa Branca e precisa dos seus votos, mas é-o ainda mais quando se aproxima a época estival de férias de Verão, quando metade do país viaja longas distâncias nos seus carros de grande cilindrada e grandes consumos de gasolina.

E como vai Trump e a sua equipa mais próxima resolver este imbróglio é, claramente, uma das maiores interrogações na mente da generalidade dos analistas que observam a política internacional e a norte-americana em particular.

E não é só porque Esmaeil Baghaei já disse claramente que "o Irão não tem quaisquer garantias de que os EUA cumpram qualquer acordo" que venha a ser assinado, que Teerão "não se intimida com ameaças", é também porque Donald Trump, mesmo que diga que não tem pressa em ver um documento assinado, está fortemente pressionado nesse sentido,

E a razão é simples: se perder as eleições e a maioria nas duas câmaras do Congresso, nada o poderá defender de um processo de destituição bem sucedido (impeachment) como a oposição Democrata já disse que fará no dia seguinte a esse cenário.

Para o efeito, o Partido Democrata conta com duas opções... usar a forma ilegal como Trump lançou esta guerra contra o Irão sem informar o Congresso ou pela via do escândalo de pedofilia internacional encerrado nos "Ficheiros Epstein" que o próprio prometeu divulgar e acabou por não fazê-lo tendo em conta que o seu nome é dos mais citados nas suas dezenas de milhares de páginas.