Essa ideia, certamente não ancorada no contexto exclusivamente brasileiro, encontra uma ressonância particularmente forte em Angola, um país jovem, com enorme potencial humano e cultural, mas que ainda enfrenta o desafio de transformar esse potencial em oportunidades concretas de trabalho, rendimento e mobilidade social.

Num cenário em que a diversificação económica se tornou imperativa, é necessário olhar para sectores tradicionalmente subvalorizados e reposicioná-los como pilares estratégicos, e é precisamente nesse ponto que o desporto surge como uma alternativa robusta, moderna e altamente inclusiva.

Durante décadas, o desporto em Angola foi visto sobretudo como espaço de recreação ou como palco de afirmação de talentos de elite, muitas vezes desligado de uma visão económica estruturada.

No entanto, no mundo contemporâneo, o desporto é uma indústria multifacetada que mobiliza cadeias de valor complexas, envolvendo formação, gestão, marketing, saúde, media, organização de eventos, produção de conteúdos e inovação tecnológica.

Cada uma dessas dimensões representa oportunidades reais de emprego, tanto directos como indirectos, com capacidade de absorver jovens em diferentes níveis de qualificação. Ignorar esse potencial é desperdiçar uma ferramenta poderosa de transformação económica e social.

A principal lição que se pode extrair do discurso da Dilma Rousseff é a centralidade da educação como motor do emprego e da valorização salarial. Essa ligação é absolutamente incontornável.

Não existe indústria desportiva sólida sem capital humano qualificado. Não basta criar clubes ou organizar competições; é necessário formar treinadores, gestores, técnicos de saúde, especialistas em comunicação e tantos outros profissionais que dão sustentação ao ecossistema desportivo.

Em Angola, essa realidade impõe a necessidade de uma articulação efectiva entre universidades, Estado, administrações municipais, escolas e clubes desportivos, criando um sistema integrado onde o talento é identificado, desenvolvido e transformado em valor económico e social.

As universidades devem assumir um papel central na criação de cursos especializados e na produção de conhecimento aplicado ao desporto, enquanto o Estado deve estabelecer políticas públicas claras, incentivos e enquadramento legal que estimulem o investimento e a profissionalização do sector.

As administrações municipais, por sua vez, têm a responsabilidade de dinamizar o desporto de base, identificando talentos e apoiando estruturas locais, enquanto as escolas devem funcionar como o primeiro espaço de massificação da prática desportiva e de formação de valores.

No centro de tudo isso estão os clubes, especialmente os comunitários, que, quando bem estruturados, deixam de ser apenas equipas para se tornarem verdadeiros polos de desenvolvimento humano, inclusão social e geração de emprego.

Num país onde a juventude constitui a maioria da população e onde o desemprego jovem representa um dos maiores desafios, o desporto oferece uma resposta estratégica com múltiplos impactos. Ele não apenas cria oportunidades de trabalho, como também desenvolve competências fundamentais como disciplina, resiliência, liderança e trabalho em equipa, que são transferíveis para outros sectores da economia.

No entanto, é importante sublinhar que esse potencial não se concretiza de forma espontânea. Exige visão, planeamento e investimento consistente. Exige, sobretudo, que o desporto seja encarado não como um custo ou um luxo, mas como um activo económico e social de elevado retorno.

Para isso, é fundamental elevar o desporto ao estatuto de prioridade estratégica, investir seriamente na formação e criar pontes institucionais que garantam a articulação entre os diferentes actores do sistema. Só assim será possível transformar o entusiasmo natural da juventude angolana pelo desporto numa verdadeira indústria capaz de gerar rendimento, promover inclusão e impulsionar o desenvolvimento.

O desafio está lançado e a resposta dependerá da capacidade colectiva de transformar potencial em acção.

O futuro da economia angolana pode, em grande medida, começar nos campos, nas quadras e nos projectos comunitários que hoje moldam silenciosamente a próxima geração.

*Jurista e Presidente do Clube Escola Desportiva Formigas do Cazenga