Quando Donald Trump disse que os Estados Unidos iriam governar a Venezuela e gerir o país de forma a retirar proveito das gigantescas reservas de petróleo ali existentes, para levar o desenvolvimento ao "grande povo venezuelano", ninguém pensou que esse objectivo ainda estivesse em dúvida.

Só quando, horas depois, e, curiosamente, logo a seguir às declarações de Trump, na sua casa de férias de Mar-a-Lago, na Florida, a vice-Presidente da Venezuela, Delcy Rodriguez, veio dizer que o poder estava onde sempre esteve, nas mãos do regime chavista, é que as dúvidas ganharam corpo.

Uma curiosidade que também só foi observada horas depois do ataque foi o anúncio do sequestro de Maduro, para ser julgado num tribunal de Nova Iorque, ter sido feito na sua casa de férias de Mar-a-Lago, na Florida, quando estas questões de Estado deveriam merecer honras de Sala Oval na Casa Branca, em Washington.

E nem sequer 24 horas depois de se saber que Maduro já estava a ser levado pela Força Delta, uma das unidades especiais do Exército dos EUA, para Nova Iorque, se percebe com clareza como é que os norte-americanos vão governar a Venezuela, porque na altura o Presidente Trump não o disse, apesar da insistência dos jornalistas.

O que se sabe com nitidez cristalina é que Trump não quer nem Corina Machado, a quem "ofereceu" o Prémio Nobel da Paz com uma pressão inédita sobre o Comité Nobel norueguês, nem Edmundo Gonzalez, que o ocidente, EUA e Europa Ocidental, dizem que ganhou as eleições do ano passado. (Ver links em baixo)

O que deixa o poder que Trump diz ter em Caracas nas mãos de Marco Rubio, o seu secretário de Estado, e visto como o grande mentor deste plano, que deverá indicar uma espécie de comissão mista para gerir o país de 30 milhões de habitantes, ligeiramente mais pequeno que Angola mas maior que França e Alemanha juntas.

Parece haver apenas um problema. Em Caracas ninguém está de mãos em baixo à espera dos norte-americanos para Governar o país... pelo contrário, Delcy Rodriguez já disse, de Constituição na mão, que o poder não caiu, o único Presidente é Maduro, de quem exigiu a imediata libertação, prometendo aos invasores que ali não vão mandar nem agora nem nunca.

Alguns analistas admitem que a intelligentsia dos EUA, nomeadamente a CIA, terão criado um grupo de aliados no seio do regime de Nicolas Maduro, que deverá agora emergir, com apoio militar alargado, para tomar o poder em Caracas para depois convidar formalmente Washington a ajudar a gerir o petróleo e os minerais do país.

Se essa for a solução, o trunfo que Trump tem na manga, ele ainda não chegou à mesa onde este jogo estranho e perigoso está a ser jogado.

Pelo contrário, há analistas que admitem outra possibilidade. Marco Rubio, que há largos anos tem Caracas e o regime chavista na mira, decidiu não perder tempo, por estar a chegar ao fim a "validade" da presença da poderosa Armada dos EUA no Mar das caraíbas, liderada pelo maior porta-aviões do mundo, o Gerald R. Ford.

E, para o ataque ser lançado, Rubio terá convencido o Presidente Trump de que o plano era sólido e o apoio interno em Caracas estava garantido, obtendo assim a autorização presidencial, contando que o ataque levasse ao colapso com estrondo do poder chavista venezuelano, dando assim por cumprido o objectivo maior... uma mudança de regime.

Esse quadro ainda não está fora da exposição, mas parece estar cada vez mais distante da realidade, embora pouco se saiba do que está a acontecer nos corredores do poder em Caracas, onde já foram feitas as contas às vítimas do ataque dos EUA: mais de 40 mortos, entre militares e civis. Nenhum do lado norte-americano.

O que se sabe com exactidão é que...

Presidente da Venezuela levado para prisão em Nova Iorque

O Presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, está a passar a primeira noite sob custódia numa prisão federal em Brooklyn, Nova Iorque, após ter sido capturado há menos de 24 horas pelos Estados Unidos, em Caracas.

Maduro, segundo o relato de vários media, incluindo este da Lusa, aterrou na Base Aérea da Guarda Nacional de Stewart, um aeroporto militar localizado no norte do estado de Nova Iorque.

O chefe de Estado venezuelano desceu do avião militar Boeing 757 que o transportou para Nova Iorque, no meio de uma ampla operação de segurança.

Dezenas de agentes de agências como a polícia federal de investigação, o FBI, e a Administração de Repressão de Drogas dos EUA (DEA, na sigla em inglês) esperavam a chegada de Maduro, sob uma temperatura de 2º graus Celsius negativos.

O Presidente da Venezuela foi depois escoltado para uma instalação federal ligada à DEA, onde foi identificado, e finalmente transferido para o Centro de Detenção Metropolitano.

A Presidência dos Estados Unidos divulgou imagens da detenção e transferência, mostrando Maduro a caminhar por um corredor com uma passadeira azul com a inscrição "DEA NYD" - Administração de Repressão de Drogas do Distrito de Nova Iorque.

Num vídeo, Maduro parece desejar a alguém "Boa noite, Feliz Ano Novo".

O líder venezuelano já tinha sido formalmente acusado em 2020 pelo Ministério Público para o Distrito Sul de Nova Iorque, que no sábado apresentaram novas acusações junto do mesmo tribunal.

Maduro está acusado de narcoterrorismo, conspiração para importar cocaína para os Estados Unidos e crimes relacionados com armas automáticas.

O próximo passo no caso judicial deverá ocorrer nos próximos dias, perante um juiz federal em Manhattan.

Os Estados Unidos lançaram no sábado "um ataque em grande escala contra a Venezuela", que capturou o Presidente venezuelano e a mulher, Cilia Flores, e anunciaram que vão governar o país até se concluir uma transição de poder.

O anúncio foi feito pelo Presidente norte-americano, Donald Trump, horas depois do ataque contra Caracas.

Mas o Supremo Tribunal de Justiça da Venezuela (TSJ, na sigla em castelhano) decidiu que a vice-presidente executiva Delcy Rodríguez deverá assumir a presidência interina.

O Supremo Tribunal de Justiça da Venezuela (TSJ, na sigla em castelhano) decidiu que a vice-presidente executiva Delcy Rodríguez deverá assumir a presidência interina, após a captura do líder Nicolás Maduro pelos Estados Unidos.

Rodríguez torna-se a primeira mulher na história do país a chefiar o executivo, "de forma a garantir a continuidade administrativa e a defesa integral da nação", declarou a presidente do TSJ, Tania D'Amelio.

O comunicado não especifica quando Rodríguez deverá tomar posse.

A tomada de posse do novo parlamento, em funções até 2031 e dominada pelo regime leal a Maduro, estava marcada para segunda-feira.

A comunidade internacional tem-se dividido entre a condenação aos Estados Unidos e saudações pela queda de Maduro.

O secretário-geral da ONU, António Guterres, expressou "profunda preocupação" com a recente "escalada de tensão na Venezuela", alertando que a ação militar dos EUA poderá ter "implicações preocupantes" para a região.

China pede aos Estados Unidos a "libertação imediata" do Presidente da Venezuela

Em comunicado, citado pela Lusa, o Ministério dos Negócios Estrangeiros da China classificou a operação como uma "flagrante violação do direito internacional".

A China pediu este domingo aos Estados Unidos a libertação imediata do Presidente da Venezuela que foi detido em Nova Iorque, depois de ter sido capturado numa operação militar norte-americana levada a cabo no sábado.

"A China pede aos Estados Unidos que garantam a segurança pessoal do presidente Nicolás Maduro e da sua mulher, que os libertem imediatamente e que cessem os seus esforços para derrubar o Governo venezuelano", afirmou a diplomacia de Pequim.

O ataque foi condenado com veemência em quase todos os países fora da Europa Ocidental, com especial relevância para, além da China, Rússia e Irão, países com parcerias estratégicas com caracas, e Índia...

Na Europa Ocidental, o tom das reacções foi de claro alinhamento com Washington com ténues referências ao Direito Internacional que foi ali beliscado.