Não se tratou de uma simples frase protocolar, muito menos de uma vulgar oferta de recordações aos visitantes. Naquele momento, o Presidente não estava apenas a apresentar um dado estatístico. Estava a falar de uma das páginas mais gloriosas da história desportiva do País, construída ao longo de várias gerações por atletas, treinadores, dirigentes, árbitros e adeptos.

A camisola oferecida representava, por isso, muito mais do que um equipamento desportivo. Carregava a memória de 12 títulos africanos, a nossa identidade basquetebolística e o orgulho de um povo que encontrou na bola-ao-cesto uma das suas mais fortes formas de afirmação no continente.

A presença de LeBron James em Angola trouxe-nos novamente à memória o conceito de "dunk diplomacy", ou diplomacia através do smash, sobre o qual escrevi nesta coluna em Outubro de 2024. Naquela ocasião, recordei a presença, em Angola, no início dos anos 80, de uma equipa de jogadores universitários norte-americanos, liderada pelo icónico treinador Lou Carnesecca.

A expedição percorreu Luanda e outras províncias, num período em que as relações diplomáticas entre Angola e os Estados Unidos da América eram inexistentes e os dois países se encontravam em campos políticos opostos no contexto da Guerra Fria.

Mais de quatro décadas depois, a visita de LeBron James pode ser entendida como uma nova manifestação desta diplomacia através do basquetebol. Naturalmente, o mundo mudou, as relações entre Angola e os Estados Unidos evoluíram e o contexto político é completamente diferente.

Mas a bola continua a possuir a extraordinária capacidade de aproximar povos, derrubar barreiras e criar pontes onde, muitas vezes, a diplomacia tradicional encontra dificuldades.

LeBron James não é apenas um dos maiores jogadores da história da NBA. É uma das personalidades mais influentes do desporto e da cultura mundial. A sua imagem ultrapassou há muito as quatro linhas de um campo de basquetebol. Representa marcas internacionais, participa em projectos empresariais, intervém no debate público norte-americano e desenvolve iniciativas sociais e educativas dirigidas às crianças e aos jovens.

A sua própria história explica parte desta influência. Nascido em Akron, no Estado do Ohio, e criado pela mãe em condições difíceis, encontrou no basquetebol um caminho para ultrapassar as limitações que o cercavam. O menino que viveu momentos de instabilidade familiar transformou-se em campeão da NBA, campeão olímpico, recordista e numa figura mundialmente reconhecida.

Porém, para nós, o momento mais marcante da sua presença em Angola não aconteceu na Baía de Luanda, quando LeBron interagiu com cerca de 30 crianças durante uma actividade de basquetebol.
As crianças olharam para ele com aquela mistura de espanto, alegria e incredulidade própria de quem vê sair da televisão uma figura que parecia pertencer a um mundo distante. De repente, LeBron James estava ali, diante delas, sorrindo, conversando e partilhando a bola.

Naqueles breves minutos, a distância entre Luanda e a NBA tornou-se muito mais curta.
É difícil saber o que passou pela cabeça de cada uma das crianças. Mas podemos imaginar que, em cada olhar, nasceu ou se fortaleceu um sonho. O sonho de jogar basquetebol, de vestir a camisola da Selecção Nacional, de representar Angola numa grande competição ou, quem sabe, de chegar um dia à própria NBA.
Não sabemos se entre aquelas 30 crianças estava um futuro campeão africano, um internacional angolano ou o primeiro atleta formado no nosso País a afirmar-se verdadeiramente na maior liga de basquetebol do mundo.

O que sabemos é que todas regressaram a casa com uma história que contarão provavelmente durante o resto das suas vidas: "Eu estive com LeBron James em Angola."
É este o poder do exemplo. Para uma criança, a proximidade com uma figura daquela dimensão pode transformar uma possibilidade abstracta numa ambição concreta. Aquilo que antes parecia impossível passa, pelo menos, a ser imaginável.

A visita confirmou igualmente que o basquetebol é uma verdadeira imagem de marca de Angola. É um activo de dimensão desportiva, histórica e cultural que deve ser tratado como parte integrante da estratégia de projecção internacional do País.

Quando falamos de soft power, falamos precisamente da capacidade de um Estado conquistar prestígio, respeito e influência por intermédio da sua cultura, dos seus valores, do desporto, da música, da hospitalidade e dos símbolos positivos que apresenta ao mundo.
Durante a visita, as imagens de LeBron James em Luanda circularam pelas televisões, pelos jornais e pelas redes sociais internacionais.

Mais de 40 anos depois da primeira "dunk diplomacy", o basquetebol voltou a aproximar Angola e os Estados Unidos.
Entre nós ficará a imagem de um gigante do basquetebol inclinado para ouvir uma criança angolana.
E talvez, daqui a alguns anos, uma daquelas crianças possa dizer que o seu próprio sonho começou num domingo, na Baía de Luanda, quando LeBron James visitou Angola.
*Presidente do Clube Escola Desportiva Formigas do Cazenga