"Estou a vir" é uma expressão temporal que, segundo a lógica universal, significa que o emissor está a caminho. Já saiu. Está em movimento. Em breve chegará.

Em Angola, porém, a expressão adquiriu dois significados completamente novos. "Estou a vir" pode querer dizer que a pessoa ainda não saiu, mas está a pensar em sair. Mas pode também significar que uma pessoa está a sair agora de um sítio para voltar ao mesmo sítio mais tarde. Na realidade, pode ser um vou sair, mas já volto. Ambas não têm a clareza temporal necessária para esclarecer quem recebe a informação.

É a Teoria da Relatividade angolana aplicada ao tempo. A beleza da expressão está na sua elasticidade. "Estou a vir" pode significar cinco minutos ou cinco horas. Pode significar hoje ou amanhã. Pode significar esta semana ou a próxima. É uma promessa vaga, um compromisso flexível, uma declaração de intenções sem qualquer vínculo temporal. É o "sim" que não é sim, o "não" que não é não. É o talvez com minúsculas.

A ironia atinge o seu auge quando recebemos uma chamada da pessoa que está a vir e que, afinal, ainda está em casa. Ou quando encontramos o tal "estou a vir" numa esquina, tranquilamente a saborear uma fresquinha enquanto o relógio marca uma hora depois do combinado. Há também o "estou a vir, estou no elevador", mas que nunca chega. E por vezes nesse edifício o elevador já parou no tempo faz tempo.

O fenómeno tem implicações sérias. Quantos encontros não foram desmarcados porque a outra pessoa, cansada de esperar, desistiu? Quantos compromissos não se perderam no limbo do "estou a vir"? Quantas reuniões não começaram com meia hora de atraso institucionalizado?

Talvez haja uma sabedoria profunda escondida nesta expressão. Talvez os angolanos tenham compreendido algo que o Ocidente insiste em ignorar: o tempo é uma construção social, os relógios são instrumentos de opressão, e a pontualidade é uma invenção dos alemães para nos fazer sofrer. Se assim for, o "estou a vir" é um acto de resistência cultural, uma afirmação de que a vida não se mede em minutos, mas em momentos.

E com essa expressão ganhamos três coisas de uma vez só: educamos o próximo, acalmamos o clima e não prometemos hora nenhuma. Não é o presente, não é o passado. É um futuro indefinido de quem espera. É o gerúndio da esperança.