E o Irão não deverá fazer-se presente em Islamabad porque, explicou o seu ministro dos Negócios Estrangeiros, Abbas Araghchi, embora sem garantir nada em concreto, o Presidente norte-americano "não desiste das suas exigências maximalistas" que, a serem aceites, significaria a humilhação de Teerão.

Isto, apesar de Donald Trump ter dito que a delegação americana, chefiada pelo seu vice-Presidente JD Vance, leva na bagagem uma proposta "justa e razoável" que não deu a conhecer, ao mesmo tempo que repunha na linha da frente das suas ameaças "a destruição de todas as centrais eléctricas e todas as pontes do Irão", naquilo que é visto como a continuação da estratégia da negociação pela força, apesar de ser evidente que, para já, não tem resultado.

"Acabou-se o senhor simpático", escrevia igualmente Donald Trump na sua rede social Truth Social, referindo-se a si próprio, num momento em que grande parte dos analistas começa a alinhar na ideia de que os EUA estão apenas num intervalo da guerra para refazer os arsenais de munições, reforçar os meios militares e enviar mais soldados para as suas bases na região.

É que a horas do fim do cessar-fogo de duas semanas, que termina no final do dia desta segunda-feira, a marinha de guerra norte-americana atacou, com fogo real, e depois tomou de assalto por forças especiais em helicópteros, um navio civil iraniano de transporte de bens, que Washington acusa de ter tentado furar o bloqueio naval dos EUA ao Irão.

Já antes o Irão vinha acusando os EUA de estarem a "matar" o cessar-fogo com o bloqueio naval que ergueram na passada segunda-feira, 13, como forma de pressionar Teerão a aceitar as suas condições para um acordo de paz sólido e duradouro.

O grande problema é que as tais "condições maximalistas" que o Irão acusa os EUA de estarem a querer aplicar sofrem alterações a um ritmo diário, por vezes em apenas algumas horas, como se percebe pelas repetidas alterações anunciadas por Donald Trump na sua rede social.

As últimas exigências eram que o Irão entregasse os cerca de 400 quilos de urânio enriquecido a 60% - 90% é o limite mínimo para fabrico de ogivas nucleares -, de forma a garantir que Teerão não persegue o objectivo de acrescentar armas nucleares ao seu arsenal, e abrisse o Estreito der Ormuz incondicionalmente.

Essas as condições maximalistas americanas actuais, conhecidas pelo menos, depois de deixarem cair a questão da mudança de regime, a redução da capacidade balística e hipersónica dos seus sistemas de misseis, e abandonar os seus aliados regionais, desde logo o Hezbollah, no Líbano, e os Houthis, no Iémen.

Ora, a resposta iraniana é que a questão nuclear é irrevogável, visto que os objectivo são meramente civis e estão dentro dos seus direitos soberanos e de acordo com os tratados internacionais, e no que toca à abertura do Estreito de Ormuz, isso até foi feito na semana passada sob a condição de os EUA levantarem o seu bloqueio naval.

O que não aconteceu e Teerão repôs as restrições à navegação na passagem entre o Golfo Pérsico e o Oceano Índico por onde passam 20% do crude e do gás mundiais, além de compostos vitais para a produção de fertilizantes em todo o mundo e hélio, essencial para a indústria 2.0 de chips.

Os analistas, como Chas Freeman, antigo embaixador norte-americano na Arábia Saudita e na China e ainda ex-conselheiro do secretário da Defesa dos EUA, ou ainda Larry Johnson, ex-analista da CIA, notam que este ataque ao navio comercial iraniano pela armada norte-americana é um indicador de que em Washington o foco já está no recomeço da guerra.

O mesmo parece pensar-se em Teerão, depois de Donald Trump ter repetido a ameaça de levar a destruição a todas as pontes e fontes de produção de energia eléctrica do Irão se Teerão não ceder rapidamente ás suas exigências, ao mesmo tempo que, recorda o major-general Agostinho Costa, reforça com afinco os meios militares em equipamento e humanos na região do Médio Oriente.

Com efeito, uma das razões que mais induzem a ideia de que os EUA e Israel estão num intervalo para reforçar os seus arsenais, depois de seis semanas em que esgotaram a quase totalidade dos misseis de ataque, como Tomahawk, lançados a partir de navios, e JASSM (ar-terra) e ainda os interceptores Patriot THAAD, vitais para protecção dos aliados dos EUA na região, Israel e os países árabes do Golfo Pérsico, contra a capacidade balística e de drones iraniana.

O antigo analista da CIA, Larry Johnson, aponta como evidência para a retoma da guerra em breve a coincidência do fim do prazo do cessar-fogo que termina esta noite de segunda-feira, 20 para terça, 21, hora de Luanda, com a ponte aérea envolvendo dezenas de aviões militares de carga dos EUA para o Médio Oriente, incluindo os gigantes Lockheed C-5M Super Galaxy, o maior de todos, e os C-17 Globemaster III, que podem levar, ao mesmo tempo, até dois blindados pesados ou seis helicópteros, e ainda duas centenas de militares de forças especiais.

A questão que se coloca é para que serve esta ponte aérea ininterrupta há largas semanas, a que se juntam os dois grupos de combate de porta-aviões, o USS H-Bush e o USS Abraham Lincoln, com dezenas de navios de guerra de superfície e submarinos, além dos corpos expedicionários de marines provenientes do Indo-Pacífico e a famosa 82ª Brigada Aerotransportada, além de unidades da Força Delta, Seals e Rangers, perfazendo, so em forças especiais, cerca de 15 mil soldados.

A resposta, segundo vários analistas é que "o mais provável", como a isso se referiu Agostinho Costa em declarações ao Novo Jornal, seja estar-se na antecâmara de uma invasão terrestre do Irão, que se deverá seguir a uma nova intensa campanha de bombardeamentos aéreos pela coligação israelo-americana, o que, na opinião de vários especialistas militares, "pode ser a maior catástrofe militar dos EUA desde o Vietname", na década de 1970.

Isto, porque o Irão é um país quatro vezes maior que o Iraque, com 93 milhões de habitantes, com sucessivos sistemas montanhosos inexpugnáveis para forças invasoras há milénios, e a preparar-se para uma guerra com as características das actuais há décadas, que possui uma capacidade diversa de sistemas de misseis única no mundo, quase intacta, apesar dos bombardeamentos das últimas semanas.

Além disso, se esse cenário se vier a verificar, como parece cada vez mais plausível, o Irão vai retaliar sobre Israel e os países do Golfo Pérsico, devastando a sua capacidade industrial petrolífera e de LNG, fechando integralmente não apenas o Estreito de Ormuz, mas também o de Bab al-Mandab, que liga o Mar Vermelho/Canal do Suez/Mar Mediterrâneo ao Oceano Índico, por onde passa 15% do comércio global mundial.

O efeito de tal cenário na economia mundial seria devastador, o que se começa já a notar nos mercados bolsistas energéticos, com o petróleo e o gás a voltarem a disparar - no caso do crude a subida do barril é esta manhã de mais de 6% - e entre os alimentos, especialmente os que resultam da agricultura, a inflação começa a ganhar dimensão galopante devido à escassez de fertilizantes que se adivinha.

A nova ronda negocial prevista por Trump, mas sem qualquer confirmação iraniana, para a capital Paquistanesa, é a derradeira oportunidade para evitar uma catástrofe global, e uma tragédia regional no Médio Oriente.

Nas próximas horas saber-se-á se vai ou não ter lugar. O recomeço da guerra é a alternativa.