Esta semana foi, no mínimo, frenética em acontecimentos que tão depressa apontavam para a escalada na guerra entre a coligação israelo-americana e o Irão como produziam o aroma da paz, com destaque para o "Projecto Liberdade" que Donald Trump lançou na segunda-feira e surpreendentemente extinguiu dois dias depos, ontem, na quarta-feira, 06.

Com o "Projecto Liberdade", os americanos pretendiam assegurar, através da presença de navios de guerra, a passagem segura das embarcações comerciais pelo Estreito de Ormuz.

Donald Trump suspendeu sem prazo esta iniciativa depois de o Irão ter atacado vários navios que ensaiaram a passagem do Golfo Pérsico para o Oceano Índico, e abriu uma nova passagem para um acordo de paz, com uma aproximação às exigências de Teerão.

E a folha com 14 pontos que os EUA fizeram chegar a Teerão através dos mediadores paquistaneses, que é uma réplica á proposta iraniana anterior, pode muito bem conter a fórmula para, pelo menos, iniciar conversações sólidas e sem... surpresas.

Ao contrário do que tem sido a regra, devido às exigências maximalistas norte-americanas, desta feita Teerão fez saber que o documento "está a ser revisto" e uma resposta chegara a Washington pela porta-giratória paquistanesa nas próximas horas.

Todavia, como é evidente desde o primeiro momento, Israel, que, como lembrou o secretário de Estado norte-americano Marco Rubio, foi quem obrigou os EUA a entrar nesta guerra lançando o ataque inicial contra o Irão, não está interessado na paz.

E a forma como, depois de Donald Trump ter dito publicamente que tinha "proibido" o primeiro-ministro Benjamin Netanyhau de voltar a atacar o Irão", os israelitas estão a tentar fazer descarrilar o processo negocial é com a destruição do cessar-fogo no Líbano.

E esse método tem tudo para ser bem sucedido porque uma das condições "sine qua non" para o Irão tirar em definitivo o dedo do gatilho é que a paz no Golfo Pérsico seja extensível para o Líbano e para a Palestina.

Ora, no Líbano, onde Trump impôs a Telavive um cessar-fogo com o Governo de Beirute, está presente há décadas o movimento de resistência à ocupação israelita Hezbollah, que integra o "eixo de resistência" apoiado pelo Irão assente em laços também religiosos.

Sendo o Hezbollah de formação xiita, o ramo muçulmano maioritário no Irão, dificilmente Teerão deixará cair este aliado de sempre, o que é bem sabido em Telavive e, segundo vários analistas, essa é a razão pela qual Israel atacou a capital libanesa para abater um importante chefe daquele movimento.

O alvo de Israel neste ataque em Beirute, que pode fazer desmoronar o cessar-fogo em definitivo, visto que as forças israelitas não deixaram de destruir o sul libanês mesmo após a sus aassinatura, foi Malek Balou, comandante da Força Radwan, criado para ser a unidade avançada do Hezbollah em territórios palestinianos controlados por Telavive.

Mas se assassinar Malek Balou foi a justificação, o objectivo esse era, e é, claramente , fazer desmoronar o processo de paz em que Donald Trump e as autoridades iranianas parecem estar efectivamente a querer que tenha sucesso.

A razão é conhecida e comummente aceite: Benjamin Netanyhau sabe que só a continuação deste conflito o mantém longe dos tribunais onde está a ser julgado por crimes graves de corrupção, mas não só.

Também é porque o seu Governo depende de dois pequenos partidos radicais de extrema-direita, liderados pelos seus ministros das Finanças, Bezalel Smotrich, e da Segurança Nacional, Itamar Bem Gvir, que já o ameaçaram que o abandonam se aceitar a paz com o Irão e com o Hezbollah.

Todavia, vários analistas, como Douglas MacGregor, antigo coronel veterano das guerras no Médio Oriente e ex-Conselheiro da primeira Administração Trump, entendem que Netanyhau está entre a espada e a parede porque se o Presidente dos EUA assim decidir, não há nada que possa fazer para descarrilar a locomotiva da paz entre Teerão e Washington.

Uma das possibilidades para o optimismo, que é visível também nos mercados energéticos, onde o barril está já claramente abaixo dos 100 USD e a descer continuamente desde a manhã de quarta-feira, é que Trump tenha decidido aceitar o calendários negocial iraniano.

Ou seja, como chegou a explicar o ministro dos Negócios Estrangeiros, Abbas Araghchi, o programa nuclear iraniano terá outro enquadramento e calendário, sendo que o Irão se compromete, como sempre fez, a não perseguir a obtenção de uma arma nuclear, sendo o foco negocial colocado agora no trânsito comercial no Estreito de Ormuz.

Devido ao impacto económico global desta "rolha" iraniana que mantém milhares de navios, petroleiros, metaneiros, porta-contentores ou graneleiros, dentro e fora do Golfo Pérsico, que também afecta os EUA, a abertura do Estreito de Ormuz parece estar a ganhar lugar no topo das prioridades de Donald Trump.

Isso acontece claramente por razões de política interna em que o Partido Republicano de Trump corre o risco de perder as maiorias nas duas câmaras do Congresso, Senado e Representantes, por causa das repercussões económicas do estrangulamento em Ormuz.

E se tal vier a suceder, o Donald Trump ficará de imediato, como a oposição Democrata já anunciou, sujeito a um processo de destituição (impeachment) e, pior, o recurso à 25ª Emenda, que contém mecanismos que permitem, embora complexos, afastar o Presidente em caso de comprovados problemas mentais ou perda cognitiva séria.

Além disso, sem a protecção das maiorias republicanas no Congresso, o "Caso Ficheiros Epstein", o maior escândalo de pedofilia internacional de sempre, onde o seu nome é citado milhares de vezes, regressará de imediato à ribalta com novas formas de pressão para libertar os seus conteúdos que podem incriminar centenas de figuras proeminentes da política e dos negócios em todo o mundo.

Para já, Trump anunciou na sua rede social Truth Social que "estão a decorrer boas conversas com líderes iranianos que querem muito um acordo" com os EUA, sendo que, por norma, o Irão desmente de imediato este tipo de declarações e, desta vez, isso não está a acontecer.

Pelo contrário, o porta-voz do ministro dos Negócios Estrangeiros, Esmaeil Baghaei, citado pela Al Jazeera, disse que a proposta norte-americana para acabar com a guerra está a ser analisada e que a resposta de Teerão chegará à Casa Branca através dos mediadores paquistaneses.

Outro sinal de que o Irão está a olhar para este documento americano como uma oportunidade efectiva de paz é que anunciou já esta quinta-feira, 07, que os portos do Irão estão disponíveis para ajudar as tripulações dos navios "encalhados" no Golfo Pérsico, com cuidados médicos, alimentos e água potável.

A informação foi enviada através dos canais formais de comunicação marítima pela Organização Marítima e dos Portos do Irão aos capitães das embarcações fundeadas no Golfo devido ao começo da guerra lançada pela coligação israelo-americana contra o Irão a 28 de Fevereiro último.

Sobre o conteúdo específico da proposta norte-americana e a resposta iraniana, embora estejam a correr tanto nos media tradicionais como nas redes sociais, algumas versões, trata-se de mera especulação e só maias adiante neste processo será possível perceber as cedências de um e do outro lado.

Todavia, convém ter presente que Donald Trump voltou a usar a Truth Social para informar que "se o Irão não aceitar um acordo, será atacado com mais força que nunca".