Depois de saírem das capitais russa e ucraniana, Steve Witkoff e Jared Kushner, pouco adiantaram sobre o resultado deste périplo que os levou de novo a Moscovo e pela primeira vez a Kiev, e é através destas reacções paralelas que se começa a perceber o "mapa" dos norte-americanos com o "X" da paz para o leste europeu.
E se se tiver em conta o que disse o experiente chefe da diplomacia russa, então é possível perceber que a Casa Branca se inclina claramente para tirar o tapete a Volodymyr Zelensky como caminho para acabar com este conflito que já se aproxima do seu 5º ano de duração.
É que, entretanto, outro sinal surgiu nesse sentido, que foi a demissão do Procurador-Geral da Ucrânia, Ruslan Kravchenko, um peso-pesado do círculo mais próximo dos aliados de Volodymyr Zelensky, depois de ter sido apanhado num novo escândalo de corrupção.
Todavia, não é a demissão de Kravchenko que mais relevância tem neste contexto, é o facto de ter sido exposto pelo Gabinete Anti-Corrupção (NABU), criado e organizado pelos norte-americanos com apoio da União Europeia, e que já noutras circunstâncias apareceu neste alinhamento.
Um exemplo que ajuda a consolidar essa ideia aconteceu em Novembro de 2025, quando Andrii Yermak, o chefe de gabinete de Volodymyr Zelensky, e o seu mais próximo e antigo aliado, foi exposto igualmente num escândalo de corrupção pelo NABU e pelo SAPO, a unidade especializada anti-corrupção da Procuradoria-Geral ucraniana igualmente criada, financiada e formatada pelos EUA e europeus ao abrigo de acordos bilaterais de apoio militar e financeiro a Kiev.
Neste caso, o agora demitido PGR ucraniano está acusado de ter usufruído de mais de 1 milhão USD de um esquema que envolve uma empresa de "call centers" onde os media do país notam que estão em questão largas dezenas de milhões de dólares.
Se esta coincidência temporal entre o novo escândalo de corrupção no círculo mais restrito de Zelensky é uma "ferramenta" para o pressionar a olhar duas vezes para a proposta de Donald Trump, ver-se-á nos capítulos seguintes, mas é isso que parece.
E parece ainda mais quando o ministro dos Negócios Estrangeiros russo vem dizer que os aliados europeus de Kiev tiveram "um susto de morte" quando foram informados dos planos da Casa Branca para abrir caminho entre as pedras para a paz no leste europeu.
Sergei Lavrov já tinha dito antes do périplo da dupla Witkoff/Kushner que os europeus iriam procurar de novo dinamitar esse mesmo plano de Trump, como fizeram, de resto, em Agosto de 2024, quando o Presidente dos EUA recebeu Vladimir Putin em Anchorage, no Alasca.
Se nessa ocasião, os líderes europeus, desde o Presidente francês, Emmanuel Macron, ao britânico Keir Starmer, passando pelos alemães Friedrich Merz (chanceler) e Ursula von der Leyen, presidente da Comissão Europeia, foram a Washington convencer Trump a não dar lastro a Putin, com relativo sucesso na altura, desta feita, foram os conselheiros para a segurança desses mesmos líderes que foram a Kiev ter com Witkoff e Kushner, com o mesmo objectivo mas, ao que tudo indica, sem o mesmo sucesso.
É que, precisamente, Lavrov acusa os países europeus da NATO de estarem focados em procurar impedir que Donald Trump regresse às ideias que apresentou ao homólogo russo no Alasca, investindo tudo na sabotagem dessa nova possibilidade aberta pela Casa Branca.
"A Europa (ocidental) entende que se os norte-americanos, de repente, regressarem às suas propostas originais de Anchorage, isso é um susto de morte", querendo com isso Lavrov dizer que Trump e Putin podem estar de novo num patamar negocial sobre a guerra na Ucrânia onde a União Europeia não tem lugar à mesa.
Sergei Lavrov não escondeu, numa entrevista aos media russos, que se esse cenário se revelar como o real nos próximos dias ou semanas, isso é uma boa notícia e que só dessa forma poderá acontecer uma nova e verdadeira hipótese de paz, visto que os europeus não a pretendem porque isso fere de morte o objectivo estratégico de fragilizar a Rússia.
E depois de novo uma mensagem que para os russos tem sido usual nestas circunstâncias: "A Rússia pretende e procura prioritariamente resolver este assunto pela via negocial, mas se não for possível, resolverá tudo no campo de batalha".
Quanto ao conteúdo efectivo da proposta de Trump levada a Kiev e a Moscovo por Steve Witkoff er Jared Kushner, o que dela se sabe é apenas através da especulação jornalística alinhada nos factos conhecidos através das breves declarações de um lado e do outro, sendo que nem em Moscovo nem em Kiev se optou pelo optimismo público.
Pelo contrário, oficialmente Lavrov repetiu que se esta nova iniciativa de Trump não resultar, o campo de batalha ditará as regras, e em Kiev, o próprio Zelensky afirmou que "a guerra vai continuar pelo menos nos próximos meses".
Mas, em síntese, erguida a partir do que foi publicado nos media norte-americanos e russos sobre este périplo, é possível perceber um optimismo controlado, feito de necessidades e não de vontades.
É que em Kiev, Zelensky, além do novo escândalo de corrupção no seu círculo mais próximo de poder, tem falta mísseis interceptores, deixando os céus do país á mercê das armas russas, drones e mísseis, com o Inverno a aproximar-se, e a linha da frente a ruir face aos avanços russos, pode muito bem começar a pensar que é melhor negociar.
E em Moscovo, a economia pode igualmente ditar ordens que o "coração" do Kremlin terá dificuldade em cumprir mas pode começar a pensar que é melhor isso que uma lenta mas inexorável perda de tracção no tecido industrial e empresarial da Federação, levando Putin a limar algumas arestas mais afiadas das suas exigências face aos ucranianos.
Outra ponta de optimismo resulta da ideia de que a dupla de enviados de Donald Trump, ao fim de ano e meio de tentativas fracassadas, conhecendo bem o campo minado que é o diálogo com Kiev e com Moscovo, não embarcariam neste périplo sem propostas que tanto Putin como Zelensky terão de analisar friamente, pelo menos.










