De imediato, o Kremlin repetiu a formulação com que tem anulado as propostas de Volodymyr Zelensky para uma conversa directa e sem intermediários com o Presidente da Rússia, afirmando que o Presidente ucraniano se pode deslocar "com toda a segurança garantida" à capital russa.

Só que, desta feita, a proposta de Kiev surge emoldurada numa carta aberta a Vladimir Putin, divulgada pela Presidência ucraniana ao final do dia de quinta-feira, 04, com as repercussões maiores a acontecerem já na manhã desta sexta-feira, 05.

Altura em que o chefe do Kremlin chegou a São Petersburgo para o anual Fórum Económico Internacional (SPIEF), também conhecido por "Davos Russo", e, como sempre, convidou todos os media internacionais para uma conversa ilimitada onde todas as perguntas são possíveis.

Só que a maioria dos jornalistas estrangeiros tinham redobrado interesse em saber como Vladimir Putin está a lidar com os "sucessos" das forças ucranianas na guerra com a Rússia, como, de resto, está espelhado na generalidade dos media ocidentais, tendo como pano de fundo as espessas colunas de fumo dos ataques recentes à própria cidade de São Petersburgo.

As dezenas de drones ucranianos que incendiaram os tanques de combustível do porto da cidade natal de Putin, bem como os estaleiros da Marinha de Guerra russa, chegaram a ameaçar a sua presença no SPIEF, mas isso seria uma vitória gigantesca para Zelensky que o chefe do Kremlin não lhe poderia "oferecer".

E Putin foi mesmo ao SPIEF, sentou-se com centenas de jornalistas, podcasters e bloggers internacionais para lhes dizer que "sim", os drones ucranianos trespassaram as defesas antiaéreas russas e a resposta é que estas vão ser reforçadas para que não volte a suceder.

Mas esta resposta de Putin não é mais que uma forma de desviar momentaneamente este tema para a lateral das coisas importantes a acontecer no âmbito da guerra na Ucrânia, porque é já um facto comummente dado como certo entre a generalidade dos analistas mais equidistantes ou mais próximos de Moscovo que após o Fórum de São Petersburgo, se assistirá a uma avassaladora escalada no conflito.

Isso mesmo está pendente e só foi travado, no entendimento de vários analistas, como Larry Wilkerson, coronel na reforma e antigo conselheiro do secretário da Defesa da Administração Bush, Collin Powell, devido ao SPIEF, que é uma das mostras mais importantes do Kremlin sobre a "nova e vigorosa" realidade económica russa fora dos links ao Ocidente.

Também Jacques Baud, antigo coronel da intelligentsia suíça e da NATO, aponta para esse desfecho como inevitável, face ao que sucedeu, usando o mesmo argumento que Wilkerson, a 22 de Maio, em Starobelsk, Lugansk, quando uma vaga de drones ucranianos matou 21 jovens estudantes numa escola civil e feriu perto de 40, gerando uma revolta e uma exigência abrangendo os 11 fusos horários da Federação de "vingança pesada".

Sabendo que essa "vingança" russa, inevitável até para desmontar a campanha mediática novamente em curso no Ocidente sobre uma alegada, e não desmontada por Moscovo com factos, recuperação da iniciativa militar de Kiev, está para chegar, Volodymyr Zelensky apressou-se a falar de novo em negociações directas com os russos.

Mas desta feita, inovando face às ocasiões anteriores onde, igualmente para amaciar uma reacção russa mais amarga, falou em negociações face a face com Putin, desta feita enviou-lhe uma carta aberta.

Na qual, para além de lhe propor um tête-à-tête, Zelensky escreve, naquilo que parece uma ousada afirmação de duvidoso efeito, sobre o seu conhecimento de que "os russos estão cansados da guerra, da falta de combustíveis e da inflação" ao que acrescenta ... "e dos ataques dos drones ucranianos".

Na missiva, que Kiev também fez chegar a outros países, incluindo os EUA, Zelensky diz a Putin que se ele está à espera de que os americanos lhe resolvam o impasse na guerra e entrem de novo com o seu peso na mediação, é melhor esquecer, porque Donald Trump está demasiado embrenhado noutros conflitos (Irão) e é "errado apenas esperar até que a guerra na Europa volte a ser o foco da sua atenção".

Porém, a carta, como já notaram vários analistas, começa mal se a ideia é mesmo amaciar Putin de modo a levá-lo a aceitar um encontro em pessoa, porque logo nas primeiras linhas diz que ambos os lados estão a perder muita gente na guerra, mesmo que o rácio seja de 5 ou 6 mortos russos por cada baixa ucraniana.

Ora, precisamente é esse um dos pontos em que os russos insistem que Kiev está à beira de poder manter o esforço de guerra porque as suas baixas são muito superiores ás da Rússia, dando como exemplo que nas trocas de corpos de soldados caídos em combate, a norma tem sido que por cada mil devolvidos por Moscovo, os ucranianos entregam "apenas" 20 a 30 cadáveres de militares russos.

O local proposto por Zelensky para um encontro com Putin é a Suíça ou a Turquia, ou mesmo países árabes, como os Emiratos, com quem ambos os países têm boas relações, acrescentando na carta que Putin não deve temer iniciar a caminhada da paz: a resposta do Presidente russo foi curta e coerente com o registo passado: "Ele que venha a Moscovo quando quiser!".

Curiosamente, Volodymyr Zelensky, naquilo que parece ser uma forma de escrever para ser lido mais entre os seus aliados ocidentais que uma real proposta de chegar à paz com a Rússia, além de falar do rácio de baixas inclinado largamente para o lado russo, de ter atacado São Petersburgo ainda há menos de 48 horas, com estrondo mediático raro, ameaça Putin: se não aceitar negociar, a Ucrânia vai continuar a lutar e a posição do russo no Kremlin fica em risco.

Mas no Fórum de São Petersburgo, perante centenas de jornalistas, Putin aproveitou para relembrar a posição russa sobre esta questão das negociações, que é, em síntese, não negociar com Kiev, porque não é Kiev quem decide o caminho da guerra, nem sequer os seus aliados europeus, que não dispõem de meios financeiros e militares que permitam aos ucranianos prolongar o esforço de guerra.

Com quem Moscovo quer negociar, sublinhando, todavia, estar desde sempre aberto a um compromsiso diplomático, é com os Estados Unidos e com Donald Trump, porque Putin sabe, ou está convencido disso, que é Washington que alimenta a "artéria vital" dos ucranianos tanto em armamento, mesmo que através de terceiros, e em intelligentsia militar, sem os quais a guerra acabaria em semanas ou escassos meses.

E, por isso, numa lateral reacção à carta ousada de Zelensky, Putin também o desqualifica como negociador ao apontar para o acordo que tem com Trump assumido no encontro de ambos no Alasca, em 2025, que ficou conhecido como o "Entendimento de Anchorage".

Nesse entendimento, pelo que foi perceptível nos meses seguintes, ficou estabelecido que os americanos deixariam paulatinamente de apoiar Kiev, encostando Zelensky às cordas de forma a empurra-lo para assinar a proposta de acordo formulada em Moscovo.

Proposta essa que passa, em síntese, por Kiev ceder os territórios anexados em 2022 pelos russos - Lugansk, Donetsk, Kherson e Zaporizhia - e Crimeia, em 2014, integralmente, ficar consolidado constitucionalmente o seu estatuto de neutralidade e abdicar de entrar na NATO, além de a língua e a cultura russas serem respeitadas na Ucrânia que sobrar desta guerra.

Em Washington, Donald Trump, questionado sobre esta missiva de Zelensky a Putin, congratulou-se com a possibilidade, notou que "ambos os lados têm de assumir compromissos", mas acrescentou que "ainda há muito para fazer nesse capítulo".