Independentemente da justa condenação que deve e tem de ser feita aos movimentos que mobilizam os protestos contra os imigrantes, não se duvida de que as autoridades da África do Sul assumirão as políticas publicas que se justificam.
A questão do racismo e da xenofobia, estando longe de ter surgido nos nossos dias, tem, hoje, novas abordagens , influenciadas pelo declínio dos ideários de causas e em análises que não vão à raiz dos problemas, navegando pela espuma dos dias.
Exemplo disso é o "Wokismo" com orientações que contrariam os factos que observamos, afirmando, por exemplo, que os "raciados", ou seja, os cidadãos não brancos jamais poderão ser racistas, logo também não são xenófobos.
Os combatentes africanos em África e, em particular, neste caso, os sul africanos, sabem bem que a luta contra o apartheid foi contra um regime desumano e despótico, desenvolvido em defesa da liberdade, tal como o sabem os que lutaram contra o colonialismo e, no caso, os angolanos.
Na autobiografia "Longo caminho para a liberdade", Mandela fala-nos de muitos homens e mulheres sul-africanos de diferentes origens e raças lutando pelas mesmas causas, o derrube de um regime inaceitável, fazendo-o de forma solidária, sem ceder nos princípios da luta em que desde jovem se envolvera.
É dele a seguinte frase final do livro: "Voltei várias vezes a lembrar às pessoas que a luta de libertação não era uma luta contra qualquer grupo ou cor , mas uma luta contra um sistema de repressão."
Por outro lado, no campo de concentração do Tarrafal, os angolanos António Jacinto e Luandino Vieira estiveram longos anos presos pelas autoridades coloniais, encontrando-se Agostinho Neto pelas mesmas razões encarcerado em Lisboa, os três por sustentarem o mesmo ideal, da Independência de Angola.
Quer isto dizer, tal como a História nos ensina, que temos de procurar as causas da xenofobia que ocorrem nos movimentos de protesto na África do Sul noutras razões que não a cor da pele, tanto mais que a esmagadora maioria das vítimas são africanos da mesma raça e até origem genealógica comum, a bantu .
Acresce que no essencial são dois os movimentos ," March and March" e " Operação Dudula" que, sob palavras de ordem agressivas, do tipo " Arranjar a Administração Interna e expulsar todos os imigrantes ilegais" retornaram às ruas da África do Sul em diferentes regiões, tendo como promotores principais um homem num caso e uma mulher noutro.
Como é sabido a situação que se vive tem subjacente fluxos migratórios muito expressivos com incidência em países com maior desenvolvimento com é a África do Sul que o torna apelativo para quem procura melhorar o nível de vida.
A pandemia da Covid 19, ao agravar as condições de vida em muitas regiões, com o encerramento de empresas, o aumento do desemprego e as desigualdades acelerou os processos migratórios.
Nos países da EU por exemplo esta situação fez crescer movimentos e partidos populistas que também exploram, através da condenação da imigração, dita ilegal, a adopção de políticas publicas adversas à imigração.
As razões pelas quais se movem esses movimentos têm a ver com a exploração de sentimentos epidérmicos dos cidadãos, levados a ajuizar que os empregos dos nacionais são afectados gravemente porque os imigrantes os substituem.
Quando o desemprego aumenta significativamente, como na África do Sul a condição para a exploração desses sentimentos epidérmicos aumenta mais quando se não adoptam a tempo políticas publicas pedagógicas por um lado e de integração económica e financeira por outro.
A xenofobia e o racismo têm sempre na sua base causas económicas e a análise deste tema daria pano para muitas mangas.
O importante, como tudo na vida impõe que se percebam as causas e se adeguem políticas publicas preventivas.
Apor tudo isto e a propósito do racismo e da xenofobia é útil revisitar Mandela.
