A guerra da Rússia contra a Ucrânia trouxe não apenas cidades destruídas, vidas perdidas e milhões de pessoas obrigadas a abandonar as suas casas. Representa também a tragédia de milhares de famílias separadas pela deportação forçada, pela detenção ilegal e pelo cativeiro. Por detrás de cada uma destas histórias está uma pessoa que deseja regressar a casa e uma família que não perde a esperança de voltar a encontrar os seus entes queridos.

Uma das consequências mais dolorosas da agressão russa tem sido a deportação forçada e a transferência ilegal de crianças ucranianas. Milhares de crianças foram levadas pela Rússia dos territórios ucranianos temporariamente ocupados, sendo separadas das suas famílias e do ambiente em que cresceram. Muitas delas estão a ser privadas da possibilidade de manter os laços com a sua língua materna, a sua cultura e a sua identidade ucraniana. O regresso de cada criança exige um trabalho complexo e persistente, nomeadamente a identificação do seu paradeiro, a localização dos seus representantes legais, a garantia de um regresso seguro e a prestação de apoio psicológico e social após o seu retorno.

Igualmente preocupante continua a ser a situação dos civis ucranianos que a Rússia mantém ilegalmente detidos. Entre eles encontram-se pessoas detidas nos territórios temporariamente ocupados devido às suas posições cívicas, à sua actividade profissional ou à recusa em colaborar com as autoridades de ocupação. Durante meses e, por vezes, anos, as suas famílias não conseguem obter informações sobre o paradeiro dos seus familiares, o seu estado de saúde ou as condições em que se encontram detidos.

O regresso dos prisioneiros de guerra ucranianos merece igualmente uma atenção especial. Os testemunhos dos militares ucranianos libertados, bem como os relatórios de organizações internacionais de defesa dos direitos humanos, documentam numerosos casos de tortura, maus-tratos, violência sexual e outras graves violações do direito internacional humanitário durante o cativeiro na Rússia.

As crianças, os civis e os prisioneiros de guerra têm estatutos jurídicos distintos, e o seu regresso é regulado pelas respectivas normas do direito internacional. Contudo, para os seus familiares, existe uma pergunta que permanece diariamente sem resposta: quando poderão finalmente regressar a casa?

A resposta a esta pergunta não pode depender exclusivamente dos esforços da Ucrânia. É necessária uma acção contínua e coordenada da comunidade internacional, envolvendo Estados, organizações internacionais, instituições humanitárias e mecanismos de protecção dos direitos humanos, capazes de contribuir para a localização destas pessoas, garantir o acesso às mesmas e facilitar a sua libertação e o seu regresso em segurança.

Um passo importante na consolidação destes esforços internacionais foi a Segunda Conferência Internacional «Caminhos para a Paz: Regresso das Crianças Ucranianas, dos Civis Detidos e dos Prisioneiros de Guerra» (Pathways to Peace), realizada nos dias 28 e 29 de Setembro de 2026, em Toronto, numa organização conjunta da Ucrânia, do Canadá e da Noruega. Na sequência da conferência, 54 Estados e organizações internacionais apoiaram os Compromissos de Toronto (Toronto Pledge), destinados a promover o regresso das crianças ucranianas deportadas, a libertação dos civis ilegalmente detidos e dos prisioneiros de guerra, bem como a assegurar a sua reabilitação e reintegração. Neste trabalho, a Coligação Internacional para o Regresso das Crianças Ucranianas (International Coalition for the Return of Ukrainian Children) desempenha um papel fundamental, reunindo os esforços diplomáticos, humanitários e práticos dos países parceiros para permitir a reunificação das famílias separadas pela guerra. A conferência demonstrou que o regresso das pessoas às suas casas exige não apenas solidariedade internacional, mas também acções concretas e coordenadas de toda a comunidade internacional.

A Ucrânia valoriza profundamente o apoio dos seus parceiros internacionais e está convicta de que o regresso das crianças ilegalmente transferidas, dos civis detidos e dos prisioneiros de guerra deve continuar a ser uma das prioridades dos esforços internacionais destinados a alcançar uma paz justa e duradoura.

Esta questão assume um significado especial nas nossas relações com Angola, cujo povo conhece, pela sua própria experiência, as graves consequências de uma guerra prolongada. A sociedade angolana percorreu um caminho difícil, desde o conflito armado até à paz, à reconstrução do país e ao regresso das pessoas a uma vida normal. A experiência de Angola demonstra claramente que o fim das hostilidades constitui apenas o início de um longo processo de reconstrução da sociedade, de reunificação das famílias e de superação das tragédias humanas provocadas pela guerra.

É precisamente por esta razão que a Ucrânia procura aprofundar o diálogo com Angola e com outros países africanos sobre as consequências humanitárias da agressão russa. Estamos convictos de que os países africanos que viveram conflitos armados e processos complexos de reconciliação nacional podem dar um contributo significativo aos esforços internacionais de protecção das vítimas da guerra e de regresso das pessoas às suas famílias.

Para a Ucrânia, é extremamente importante que o debate internacional sobre a paz não se limite às questões relacionadas com o fim das hostilidades, a segurança ou os acordos políticos. No centro deste debate deve estar sempre o ser humano. Uma criança que espera reencontrar os seus pais. Uma mãe que há anos não recebe notícias do seu filho. Um prisioneiro de guerra que deseja regressar à sua família.

A verdadeira paz não pode ser medida apenas pela data em que cessam as hostilidades. Deve significar não só o restabelecimento da segurança e do respeito pelo direito internacional, mas também o regresso das crianças às suas famílias, a libertação dos civis ilegalmente detidos, o regresso dos prisioneiros de guerra e a assistência àqueles que sobreviveram ao cativeiro, à violência e à transferência forçada.

Cada criança que volta a abraçar os seus pais, cada prisioneiro libertado e cada família que finalmente se reencontra após uma longa separação demonstram que, mesmo depois das provações mais difíceis, é possível restabelecer a justiça, a dignidade humana e a confiança.

Porque a paz não começa apenas quando as armas se calam. A PAZ começa quando as pessoas regressam a casa.

*Embaixador Extraordinário e Plenipotenciário da Ucrânia na República de Angola