Naquele tempo, o desporto transcendia a simples competição. Era instrumento de saúde pública, disciplina social, educação cívica e unidade nacional. Num país jovem, marcado por enormes desafios, o desporto funcionava como linguagem comum, capaz de unir comunidades, criar referências positivas e projectar esperança. Durante cerca de quinze anos, o Estado assumiu papel determinante na dinamização do sistema desportivo, intervindo directamente através de empresas públicas, instituições administrativas e estruturas locais. Da Educação em Benguela ao Comércio Interno no Huambo, clubes e equipas eram sustentados como verdadeiras extensões do projecto nacional, formando atletas e cidadãos.
Mas a história não é estática. Com as mudanças estruturais introduzidas pelo Programa de Saneamento Económico e Financeiro (SEF) e com o impacto global da Perestroika no espaço socialista, Angola entrou, por volta de 1991, numa nova fase política e económica. A revisão constitucional que consagrou o multipartidarismo e a economia de mercado trouxe igualmente uma profunda reorganização do sistema desportivo. Os clubes deixaram de ser departamentos de entidades estatais para se afirmarem como associações privadas de cidadãos, baseadas na iniciativa social. Nas federações, a nomeação cedeu lugar à eleição, reforçando a legitimidade e o princípio democrático. Era o desporto a adaptar-se a um novo tempo, sem perder a sua essência formadora.
Décadas depois, sinais daquele espírito fundador voltam a emergir. A recente realização de um festival de minibásquete, promovido pela Federação Angolana de Basquetebol em parceria com o Ministério da Juventude e Desportos e a Fundação BAI, reuniu cerca de duas mil crianças entre os cinco e os doze anos. Mais do que um evento pontual, tratou-se de um gesto simbólico, quase uma evocação histórica, que nos remete para a génese do "Desporto para Todos". Um reencontro com a ideia de base: começar pelas crianças, formar pela raiz, construir pelo essencial.
Porque é precisamente aí que reside a verdadeira estratégia.
Investir na criança através do desporto é investir no futuro da nação. O desporto praticado desde cedo molda não apenas o corpo, mas também o carácter. Ensina disciplina, cooperação, resiliência, respeito pelas regras e sentido colectivo. Afasta a juventude dos caminhos de risco, aproxima-a de valores positivos, fortalece a saúde física e mental e contribui para a construção de cidadãos conscientes e socialmente integrados. Não se trata apenas de descobrir campeões, mas de formar homens e mulheres equilibrados, capazes de servir a sociedade.
Experiências internacionais demonstram que as nações que consolidam uma base desportiva infantil forte colhem benefícios duradouros, não só no alto rendimento, mas também na coesão social, na prevenção da delinquência juvenil e na promoção da saúde pública. O desporto, quando integrado nas políticas sociais, torna-se um verdadeiro factor de desenvolvimento humano.
É por isso que iniciativas como este festival de minibásquete devem ser vistas como investimentos estruturantes e não como simples eventos recreativos. São sementes lançadas em terra fértil. E a história ensina-nos que, quando o desporto cresce com a juventude, a nação cresce com ele, mais forte, mais saudável, mais unida.
Incentivar, multiplicar e institucionalizar este tipo de acções é, portanto, uma escolha estratégica. Não apenas para o presente, mas para o Angola que estamos a construir.
Porque, no fim, toda grande árvore começou por ser uma semente.
*Jurista e Presidente do Clube Escola Desportiva Formigas do Cazenga
Lei em campo: Lançando sementes em terra fértil
Nos primeiros anos da nossa Independência, quando Angola ainda dava os seus passos inaugurais como nação soberana, o desporto foi convocado como ferramenta de construção nacional. Num contexto de forte mobilização patriótica e de afirmação identitária, a então Secretaria de Estado da Educação Física e Desportos, dirigida pelo saudoso Dr. Rui Mingas, lançou o emblemático programa "Desporto para Todos", uma visão estratégica que procurava transformar entusiasmo colectivo em movimento social organizado.

