Para esta quarta-feira, 18, está agendado o segundo dia de negociações, onde, os analistas menos alinhados com russos e ucranianos, destacam que pouco se pode esperar e que o melhor que pode acontecer é que as delegações idas de Moscovo e de Kiev para a capital mundial da diplomacia, Genebra, consigam, pelo menos, acertar no alinhamento dos pontos a discutir.
Para já, olhando para os resumos das agências de notícias que enviaram dezenas de jornalistas para aquela cidade suíça, onde, ao mesmo tempo, curiosamente, decorrem as negociações entre norte-americanos e iranianos em busca de uma saída para a tensão no Médio Oriente, as partes nem sequer conseguiram alinhavar os temas para discutir, porque os russos apostam tudo na questão dos territórios e os ucranianos preferem o cessar-fogo como tema de começo de conversa.
E sim, qualquer saída efectiva para esta guerra, que comemora quatro anos na próxima terça-feira, 24, só acontecerá com a cedência ucraniana, como os americanos sabem há muito e se depreende das declarações de Donald Trump, que, quando questionado sobre as suas expectativas para as conversas de Genebra sobre o conflito no leste europeu, disse esperar que Zelensky "decida rapidamente sentar-se à mesa" em vez de andar a criar subterfúgios para impedir resultados concretos.
E isso acontece porque a Rússia está, efectivamente, como já foi admitido internamente, incluindo no círculo mais apertado em torno do Presidente Volodymyr Zelensky (ver links em baixo), em grande superioridade militar no terreno, embora, para chegar a estas negociações com algo para "disparar" para cima da mesa, os ucranianos tenham conseguido recuperar algum território com uma grande contra-ofensiva nos últimos dias.
Além do inclinado terreno de batalha para o lado russo, com mais de mil kms de linha de frente, Zelensky procura baralhar as cartas no contexto de Genebra de forma a recuperar as simpatias americanas, acusando Donald Trump de estar a exercer uma pressão "injusta" sobre os ucranianos, com The Guardian a citá-lo afirmando que espera que se trate "apenas de táctica negocial e não o resultado de uma decisão já tomada".
Isto, porque Zelensky está consciente que sem os norte-americanos a manter o fluxo de armas, dinheiro e intelligentsia, não pode manter o atrito com as forças russas, porque os seus aliados europeus, furiosos por não terem lugar à mesa onde tudo se decide, e, por isso, apostam quase tudo em manter a guerra acesa, não têm capacidade para lhe garantir, nem de longe nem de perto, o que os EUA podem garantir.
E se as palavras de Trump, que no ano passado, quando recebeu Zelensky na Casa Branca, lhe disse, em tom de poucos amigos, que tinha de ceder a Moscovo por não ter "as cartas" para jogar, e agora lhe diz que tem de se sentar à mesa - querendo com isso dizer que Kiev não está a negociar de forma séria e efectiva -, traduzirem uma decisão no sentido de vergar o lado ucraniano, então Zelensky pode estar à beira de perder a sua derradeira batalha... política.
E não é para menos, porque, como avança ainda o jornal britânico, o Presidente ucraniano tem repetido que, no âmbito das negociações, o norte-americano tem "exercido uma pressão imprópria e injustificada" com vista a conseguir resultados concretos à custa de cedências do lado ucraniano, embora Zelensky tenha introduzido, provavelmente devido a essa pressão de Trump, uma alteração discursiva de grande alcance.
No meio das palavras rudes que dirigiu a Donald Trump, acusando-o de estar a exercer uma "pressão imprópria" entre aliados e amigos, Volodymyr Zelensky disse também, citado pelas agências, numa claríssima mudança de tom, que "qualquer plano de paz que contenha cedências de territórios ucranianos que os russos ainda não tenham conquistado, é inviável e inaceitável".
Ora, com isto, Zelensky está a aceitar tacitamente, e pela primeira vez, pelo menos com esta clareza, que os territórios que os russos já dominam por ocupação militar desde 2014 (Crimeia) e desde 24 de Fevereiro de 2022, que são a região de Lugansk (98%), Donetsk (85%), Zaporizhia e Kherson (cerca de 80% em ambos os casos) podem fazer parte do pacote de cedências a Moscovo.
Embora a Rússia tenha, formalmente, anexado as cinco regiões, através de referendos que nem Kiev nem a comunidade internacional reconheceu, sendo, por isso, ilegais aos olhos da Lei Internacional, também já colocou como possibilidade que as partes das "suas" regiões ainda na posse dos ucranianos, sejam trocadas por territórios que os russos entretanto também ocuparam em Kharkiv, DniproPetrovsk e Summy.
O que, como alguns analistas notam, sendo um deles o major-general Agostinho Costa, permite abrir uma brecha nas muralhas diplomáticas russa e ucraniana de forma a conseguir um entendimento mínimo que leve a uma solução negociada para este conflito, que é não apenas o mais longo desde 1945, como também o mais mortífero e destrutivo desde o fim da II Guerra Mundial.
Se a "inapropriada e injusta" pressão de Trump sobre Zelensky dará ou não resultados, nesta manhã de quarta-feira, 18, é cedo para se saber, e, provavelmente, nem com o fecho desta ronda negocial de Genebra, mas os próximos dias serão decisivos, como vários analistas admitem, incluindo John Mearsheimer, reconhecido especialista em política internacional e geoestratégia e professor da Universidade de Chicago, que defende que a Ucrânia já deixou de ter uma resistência viável ao domínio russo, sendo agora uma questão política e não militar que serve de entrave à paz.
As declarações de Trump, que provocaram a ira de Zelensky, não fogem do contexto geral em que a Rússia tem afirmado repetidamente que vai conseguir os seus objectivos agora, pela via negocial, ou mais tarde, através das acções militares, e que, numa "fórmula" que ainda permanece no segredo dos deuses do Alasca, se mantém na senda do que foi conversado e acordado entre Donald Trump e Vladimir Putin no seu encontro de 15 de Agosto de 2025, na cidade de Anchorage.
E um dos problemas que Zelensky pode não estar a conseguir resolver é resultado da natureza do seu regime, onde a componente nacionalista, que tem como assento a referência a Stepen Bandera, herói nacional oficial e um aliado nazi durante a II Guerra Mundial e a invasão alemã da então URSS, que não aceitam quaisquer cedências territoriais a Moscovo.
Até porque é bem conhecida a ameaça directa à sua vida feita por Dmytro Yarosh, o líder histórico da famosa "Ala Direita", uma organização paramilitar de ideologia fascista radical, a quem se deve grande parte do sucesso do golpe de Estado de 2014, em Kiev. que permitiu afastar o então regime pró-russo de Viktor Yanukovich.
Dmytro Yarosh disse, repetidamente, inclusive no Parlamento ucraniano (Rada) que no dia em que Zelensky aceitar entregar parte da Ucrânia aos russos, está condenado a ser morto pelo seu próprio povo.
Esta a razão pela qual alguns analistas admitem que, para conseguir a paz na Ucrânia, Trump tem de, antes, ajudar Zelensky a limpar o seu regime destas forças neo-fascistas militarizadas e, para isso, pode usar as "ferramentas" que possui no terreno, como sejam as equipas da CIA há muito "embedded" na estrutura dirigente do país, e ainda as agências anti-corrupção criadas com o apoio da União Europeia que, ainda recentemente, levaram à queda de vários ministros e empresários amigos de Zelensky, como o ex-ministro da Energia, German Galushchenko, que foi esta semana detido quando tentava fugir do país.











