Réne foi confundido com um sem-abrigo e nisto acabou "assassinado" pela indiferença. Caricato foi o facto de o alerta às autoridades ter sido feito por um sem-abrigo, por alguém habituado a ser tratado com indiferença, mas que aqui fez toda a diferença. Pena não ter sido mais cedo e evitar-se a morte do fotógrafo!
Muitos sem-abrigos pelo mundo morrem diariamente perante a indiferença de todos. E este caso causou comoção porque Réne Robert era um fotógrafo conhecido mundialmente. Se não fosse uma figura conhecida, acredito que estaríamos todos indiferentes. A sua morte revela-nos, uma vez mais, que o mal real está, muitas vezes, na indiferença como que tratamos os reais problemas, está na nossa indiferença perante o sofrimento e dificuldades dos outros. O mal está ainda na indiferença com que as pessoas se tratam umas às outras. Não nos movemos para além do nosso umbigo. Blindamo-nos e criamos barreiras.
A fome, a dor e o sofrimento dos outros não faz qualquer diferença. Deixamos de acreditar que a realidade pode ser diferente e a melhor forma de marcamos a diferença é encarar tudo isso com certa indiferença .Sempre podemos fazer a diferença, deixando de lado a indiferença. Mas, muitas vezes, achamos que estamos a ser imparciais ou que algo não nos diz respeito e acabamos por ser indiferentes. A indiferença é um elemento pernicioso e tóxico nas relações humanas. Acreditem que a indiferença é tão letal como o ódio.
A indiferença dos políticos aos problemas sociais, os apelos, expectativas e anseios dos cidadãos. A indiferença no modelo de relação que é estabelecida, na sua participação/ contribuição no modelo de sociedade a construir. A indiferença é ela própria uma verdadeira pandemia. Nesta edição do Novo Jornal, trazemos no Especial Informação os apelos dos bispos da CEAST ao Presidente da República, João Lourenço, e ao líder da UNITA, Adalberto Costa Júnior, para o estabelecimento de diálogo, como forma de superar desinteligências, acabar com o clima de tensão política e criar-se um ambiente de harmonia e concórdia no País. Um apelo também é feito à comunicação social para que desempenhe a sua actividade de forma responsável, isenta, objectiva e imparcial. Esses são apelos que não devem ser recebidos com indiferença, mas, sim, com seriedade e responsabilidade.
Temos de estar atentos aos sinais de descontentamento, críticas e reclamações dos cidadãos. Temos de olhar com preocupação para o discurso de ódio, de extremos e o radicalismo que vão tomando conta de muitas abordagens do mundo real e do mundo virtual. Não podemos ficar indiferentes a estes fenómenos e processos. Por outro lado, é preciso envolver e comprometer os cidadãos para os grandes desafios do País. É preciso que os cidadãos sintam que fazem parte dos processos de decisão e que são parte da governação da Nação. É preciso que não se sintam excluídos e, com isso, impelidos a olhar para o País, os seus governantes e para o seu futuro com indiferença. É como disse o político português Bagão Félix: "A indiferença tudo banaliza, até a própria indiferença". Este é um ano exigente e estimulante. É um ano em que podemos marcar a diferença, evitando certo primado da indiferença. Temos de respeitar as diferenças de opinião, visão e estratégia. Quem pensa diferente, quem tem condição social diferente, quem tem opção política divergente não deve ser tratado com indiferença.
