Tentando aliviar o calor e afugentar, com fúria escancarada, as moscas que lhe perseguem o rosto sem trégua, Jacinto Manuel Bizerra amarrota, em tão poucos minutos, os papéis que tem na mão. Os documentos guardam a história de um longo vai-e-vem entre o Governo Provincial de Luanda (GPL), a Administração Municipal de Viana e a Administração Distrital do Zango, tendo como saldo destas viagens: frustrações. Não é para menos: senhor Bizerra viu, num ápice, tudo quanto tinha construído, em mais de 30 anos, no mítico bairro do Sambizanga, desmoronar-se, por conta de um programa de reabilitação da estrada 12 de Julho, faz cinco anos.

"No Sambizanga, tinha um estabelecimento e alguns anexos. Eu era dono do famoso Bar Kizombo, que existe desde o tempo colonial. Aquela casa foi comprada em 1979. Perdi quase tudo ao ser forçado a vir viver aqui. Fomos enganados por quem tem o dever de nos proteger", descreve.

Bizerra e outras dezenas de vizinhos viram a linha do traçado para a colocação do tapete asfáltico passar sobre as suas residências. É esta sentença que ditou o início de um período de infortúnio no bairro do Kitondo II, interior do Zango III, onde a sua casa, um apertado T3, chama atenção por estar no limiar de uma ravina que já lhe consumiu parte do muro do quintal.

A cedência da parte principal da casa está por um triz. Basta uma chuva forte para os destroços irem abaixo e seguirem o caminho para a bacia de retenção, localizada a escassos metros da zona residencial. Aliás, esta bacia de retenção é apontada por Bizerra e vizinhos como a origem dos deslizamentos de terra iniciados em 2018, um ano após terem chegado ao bairro, sem margens para contrapor um processo de desalojamento que teve a acção repressiva de efectivos da Polícia Nacional, denunciam.

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