Depois de mais de 11.300 mortos e cerca de 30 mil casos de infecção, que geraram paralelamente uma severa crise económica e social na Libéria, Serra Leoa e Guiné-Equatorial, principalmente, só o uso intensivo de uma vacina experimental permitiu derrotar a epidemia.

O investimento na vacina rVSV-ZEBOV foi acelerado e apresentado pela farmacêutica Merck depois de os primeiros casos terem chegado à Europa e aos Estados Unidos, especialmente através de técnicos de saúde que estiveram na região a apoiar os esforços para debelar a doença.

Entretanto, esta vacina da Merck viu concluídos os testes obrigatórios, depois de provar a eficácia na África Ocidental, e já depois surgiu uma da Johnson & Johnson, mas ambas são destinadas a eliminar a estirpe Zaire do Ébola, sendo inúteis para a que está actualmente activa no leste da RDC.

A gravidade da situação, marcada pelo facto de entre 15 de Maio, quando foi detectado oficialmente o primeiro caso, em Bunia, na província de Ituri, leste da RDC, com fronteira com o Uganda, já terem sido registadas mais de 40 mortes, cerca de 230 casos de infecção confirmados e perto de 1300 suspeitos, levou a Organização Mundial de Saúde (OMS) a declarar uma emergência global de saúde pública.

E depois, o seu director-geral Tedros Adhanom Ghebreyesus, foi ao terreno acompanhar o trabalho das equipas médicas locais e internacionais que unem esforços para contra-atacar o vírus daquela que é a mais letal das febres hemorrágicas conhecidas e uma estirpe que não tem nem vacina nem tratamento reactivo.

Além da OMS estão no terreno equipas dos Médicos Sem Fronteiras, do CDC-Africa, da União Africana e ainda de vários organismos congoleses, mas todos eles se debatem, além do vírus, com a frente de combate que são as crenças locais sobre a doença e os rituais e tradições (ver links em baixo) que são uma auto-estrada para a infecção de dispersar entre as populações.

O que os especialistas temem neste momento é que esta epidemia tenha um comportamento semelhante ao da epidemia de 2013, na costa ocidental de África, não apenas devido à ausência de tratamento, mas porque as circunstâncias sociais são igualmente permissivas ao avanço do vírus.

Desde logo a densidade populacional do leste congolês, com dezenas de campos de refugiados que albergam centenas de milhares de pessoas que fugiram das suas terras em mais de três décadas de conflitos armados e com vários grupos de guerrilha ainda activos, especialmente o M23, na fronteira com o Ruanda, e as ADF/daesh, com o Uganda.

Claramente preocupado com o agravamento constante da situação e o mapa da infecção a crescer dia para dia, com casos já relatados no Uganda, pelo menos oito, com duas mortes, também nas províncias do Kivu Norte e Kivu Sul, e ainda no Ruanda, com apenas casos suspeitos.

A par dos problemas sociais resultantes de crenças locais que apontam para o Ébola como uma "invenção dos estrangeiros" e a reacção violenta de populares contra as restrições no acesso aos cadáveres de familiares e amigos, as equipas médicas debatem-se ainda com escassez de fundos, muito devido à retirada dos EUA de várias agências da ONU.

Ainda assim, Tedros Adhanom Ghebreyesus disse em Bunia que "é possível debelar esta epidemia" e asseverou ás populações locais que "todos aqueles que contraem o vírus podem e estão a ser tratados e salvos", numa altura em que a descrença na resposta começa a agigantar-se.

Mas o chefe da OMS chamou ainda a atenção para o facto de que ninguém poder ignorar que este combate "é um combate de todos" porque todos estão na linha da frente, sendo agora a maior urgência convencer as pessoas com os primeiros sintomas a procurarem ajuda oficial e não se dirigirem aos curandeiros é feiticeiros locais.