O anúncio da assinatura deste pacto trilateral, na qual China, Rússia e Irão se comprometem a colaborar em quase todas as áreas de interesse partilgado, surgiu num cenário de iminente ataque dos EUA contra Teerão, como o Presidente norte-americano tem feito questão de dizer, repetidamente, na última semana.
E agora, com renovado tom de ameaça, é o secretário da Guerra, Pete Hegseth, que mudou o nome do seu "ministério" da Defesa por entender que os EUA não defendem, atacam quando têm de atacar, a reforçar o tom da ameaça ao Irão, deixando assim de forma qualquer possibilidade de recuo por parte dos Estados Unidos.
Pete Hegseth, no fim de um encontro com as chefias militares norte-americanas, na quinta-feira, 29, quando já se sabia do pacto estratégico russo-sino-iraniano, reafirmou que os EUA têm "tudo pronto" para desferir sobre Teerão um ataque como nunca foi visto.
A condição imposta ao Irão para que tal tempestade de fogo não se abata sobre o país é que abandone totalmente o programa civil de enriquecimento nuclear, trave a fundo no desenvolvimento dos seus sistemas de mísseis balísticos e acabe com o apoio às organizações regionais, como o Hezbollah, no Líbano, ou os Houthis, no Iémen.
O que é o mesmo que dizer que se for essa a única vala de escape para a tensão que se está a acumular na região, para onde os EUA já enviaram uma gigantesca frota de navios de guerra (ver links em baixo), então o mundo terá de se preparar para a guerra no Médio Oriente.
E isso é garantido pelo facto de tanto o líder supremo aiatola Ali Khamenei, como o Presidente Masoud Pezeshkian, já terem dito, e repetido, no passado recente, que o Irão não abdicará da sua soberania plena pela ponta das armas, embora admita discutir todos os assuntos, como sempre fez, com a comunidade internacional.
O que para os EUA não basta, Washington quer mesmo a rendição total do Irão nestes três temas, o que os analistas, como Jeffrey Sachs, um dos mais experientes especialistas em política internacional em todo o mundo, e professor da Universidade de Colombia, entendem como uma declaração de guerra sem válvula de despressurização.
E, nestas circunstâncias, quando a ameaça de guerra chega sem condições de mínima razoabilidade, o ameaçado, como aponta Jacques Baud, antigo coronel da intelligentsia suíça e NATO, autor de alguns dos mais relevantes livros sobre a fogueira de interesses que é o Médio Oriente, tende, naturalmente, a preparar a resposta mais flamejante possível.
E é isso que o Irão tem feito nestes dias, ao fazer chegar às plataformas digitais ocidentais, incluindo as redes sociais, centenas de vídeos com demonstrações de força através dos seus sofisticados sistemas de misseis, incluindo anti-navio, e deixando perceber que desta feita aceitou a ajuda de Pequim e Moscovo, que enviaram para Teerão aviões de guerra, como o SU-35 e o J-10, ou ainda os seus sistemas de defesa anti-missil S-400 e o HQ-9, de longo alcance.
Mas, paralelamente, Teerão procura movimentar as suas peças no xadrez regional ao enviar para Ancara, Turquia, o seu ministro dos Negócios Estrangeiros, Abbas Araghchi, que tem esta sexta-feira, 30, encontro com o seu homólogo, Hakan Fidan, e com o Presidente Recepp Erdogan.
Isto, depois de a Turquia, o segundo maior Exército da NATO, e um dos mais poderosos arsenais militares do mundo, destacando-se claramente no Médio Oriente e EurÁsia, ter dado sinais muito luminosos de que está contra a opção norte-americana de avançar para a guerra com o Irão, que levaria o caos por longo período de tempo à região.
Mas há outra razão, como aponta John Mearsheimer, especialista norte-americano em política internacional, autor de várias obras sobre o tema e professor da Universidade de Chicago, que é o receio turco de que se por acaso Israel, através dos EUA, conseguir derrotar o Irão e mudar o regime em Teerão, a Turquia surge como o "alvo seguinte" dos israelitas, que precisam de um inimigo permanente para manter o cordão umbilical a Washington sob o pretexto de ameaça existencial à sobrevivência do Estado de Israel.
Será a diplomacia turca capaz de diluir as tensões e fazer Donald Trump tirar o dedo do gatilho? Os EUA vão repensar a aposta num ataque ao Irão depois do pacto alargado de colaboração estratégica entre Teerão, Pequim e Moscovo? As demonstrações de força iranianas, e as armas fornecidas pelos aliados russos e chineses, podem alterar as regras do jogo?
Provavelmente, não, porque Donald Trump já apostou demasiado músculo no envio de forças militares para a região, incluindo centenas de aviões de guerra para as bases que ali tem, além da força naval "maravilhosa" que "navega maravilhosamente" para o Médio Oriente; porque o pacto assinado agora por russos, chineses e iranianos não contém uma cláusula de protecção obrigatória em caso de ataque a um deles; e porque existe uma percepção, como se pode perceber nos media norte-americanos, que o poder balístico de Teerão está muito sobrevalorizado.
É, todavia, claro que o arco temporal para um ataque poder ser conduzido vai-se fechando à medida que os dias passam, porque se Pequim e Moscovo não estão obrigados a entrar na guerra, estão geoestrategicamente compelidos a ajudar até ao limite das suas possibilidades o seu aliado porque é assim que defendem os seus interesses vitais.
E se é verdade que China e Rússia estão, como nunca, a armar Teerão, isso é porque perceberam ser isso fundamental no contexto global da disputa com os EUA por uma nova ordem mundial (ver links em baixo) e porque o Irão tem uma localização geográfica essencial para o gigantesco programa chinês da Nova Rota da Seda e porque os russos ficariam extremamente fragilizados na sua "barriga" do Caucaso e da Ásia Central sem o Irão como tampão seguro e de confiança.
Há, porém, um elemento que pouco aparece nas análises sobre o desfecho desta tensão no Médio Oriente: É que qualquer beliscão no Irão gerá pânico nos mercados energéticos e com o barril de petróleo a disparar como está, para Trump isso é um problema sério.
E isso devido às implicações na actualmente frágil economia norte-americana, com a inflação descontrolada e com o desemprego a ameaçar os resultados eleitorais das eleições de meio termo marcadas para Novembro, onde pode perder as maiorias republicanas no Senado e na Câmara dos Representantes.
Em breve, dias, se saberá assim se a panela de pressão rebenta no Médio Oriente ou se a válvula libertará o excesso de "vapores" de Donald Trump, porque entre fazer a vontade ao seu "amigo" e primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyhau, e olhar para os seus interesses políticos internos, Trump tem, garantido, algumas noites sem dormir pela frente.










