Há muito que sauditas e emiratos, que agora retiram as bases norte-americanas nos seus territórios, do mapa de guerra de Donald Trump, deixaram de ser os "yes man" dos Estados Unidos no Médio Oriente, optando nos últimos anos por um relacionamento mais dialogado e questionador, sem deixarem de ser dois dos seu principais aliados na região.
Só o Catar, onde se situa a base Al Udeid, a maior dos EUA na região e na qual está localizado o comando regional norte-americano, pode ser considerado um aliado mais próximo de Washington, e, até o Governo de Doha parece estar a querer evitar problemas com Teerão.
E a razão não é menor, porque todos os analistas, sendo mesmo essa a razão para os sucessivos recuos nas várias ocasiões de ataque iminente desde a guerra dos 12 dias entre Israel e o Irão, em Junho de 2025, coincidem na ideia de que Teerão está mais forte.
E que a resposta (ver links em baixo), como o aiatola Ali Khamenei, o líder supremo do Irão, já garantiu, será sob a forma de "guerra total" nas qual todos os alvos que podem constituir risco para o Irão, o que inclui Israel e as bases dos EUA na região, serão destruídos.
Normalmente, as hipérboles são recorrentes na retórica marcial iraniana, porque à ameaça de destruir os EUA, considerados localmente "o grande Satã", não corresponde capacidade para o fazer, mas o mesmo não se aplica nem a Israel nem às bases regionais.
O Irão tem o seu sofisticado sistema de misseis, que inclui os hipersónicos Fattah I e Fattah II, praticamente imparáveis ao voarem acima de Mach 10, mais de 12 mil kms/h, conta com os supersónicos Khalij Fars e Abu Mahdi, com aptidão anti-navio.
E tem agora um arsenal complementado pelos sistemas anti-missil russo, o S-400, e o chines HQ-9, ambos SAM, terra-ar, de longo alcance e já eficazmente testados e comprovados em combate, seja na Ucrânia, seja, no caso do projéctil chinês, na guerra Índia-Paquistão do ano passado, com os quais Islamabad levou a melhor sobre Nova Deli nesse aspecto, pelo menos.
E, perante as ameaças repetidas de Donald Trump sobre o Iraque, colocando exigências impossíveis de preencher pelo Irão, como sejam acabar com o seu programa nuclear civil, ou reduzir a zero o seu programa de misseis balísticos, que é a sua salvaguarda de fundo, Teerão só não sabe quando, mas está consciente de que um ataque está a ser preparado.
"Tenho uma maravilhosa armada a navegar maravilhosamente para a região", disse Trump, ao anunciar a iminência de novo ataque contra o Irão, o que corresponde à verdade, mesmo com excesso de brilho nos adjectivos.
Isto, porque os EUA já tinham perto de 10 navios de guerra na região e acabou de chegar o grupo de combate liderado pelo porta-aviões USS Abraham Lincoln, com vários navios e submarinos na escolta, e quando se sabe que a caminho do Médio Oriente estão pelo menos mais dois grupos, o do USS Gerald R. Ford e o do USS Theodore Roosevelt, embora existam dúvidas sobre a presente localização destes super porta-aviões.
Além disso, para as bases na região foram enviados centenas de caças, incluindo os modernos F-35, e o comando regional, uma extensão do CentCom nos EUA, foi reforçado com equipas especializadas de comando em contexto de guerra, como já avançaram vários canais militares nas redes sociais.
Face a este contexto, mesmo depois de o príncipe herdeiro saudita, Mohammed bin Salman, ter telefonado ao Presidente iraniano, Masoud Pezeshkian, e de o presidente dos Emiratos ter feito saber que também não aceita o uso dos meios no seu território para um ataque ao Irão, em Teerão o aiatola Ali Khamenei reforçou a ideia de que o seu país já está na fase de prontidão máxima.
E com prontidão máxima, explicou Ali Khamenei, quer dizer que o Irão não apenas se vai defender dos ataques, como vai ripostar com todo o seu potencial contra os interesses dos EUA na região, o que inclui, além das suas bases e navios no mar, o Estado de Israel, em nome do qual, se crê cada vez mais entre analistas, os EUA estão a agir.
Entretanto, também o Presidente iraniano, citado pela Al Jazeera, logo após o telefonema do príncipe herdeiro saudita, fez saber que os EUA estão a investir no que qualifica como uma nova tentativa desestabilizar o Médio Oriente e criar disrupções na segurança regional mas garante que "não vão conseguir nama mais que instabilidade".
Masoud Pezeshkian, que tem a responsabilidade do poder Executivo, enquanto o aiatola Khamenei tem em mãos as questões de política internacional e Defesa, disse ainda que as tentativas de Washington desmantelar o poder em Teerão falharam, sejam elas militares ou económicas.
E, tal como Khamenei, Masoud Pezeshkian reiterou a determinação inabalável do Irão se defender e garantir uma resposta devastadora a um eventual ataque.
Recorde-se que os EUA anunciaram esta quarta-feira o início de um gigantesco exercício militar aeronaval em todo o Médio Oriente, com recurso a centenas de aviões de guerra e navios da "maravilhosa armada" de Donald Trump, além das suas bases terrestres aindas disponíveis.
Nem todos acreditam numa guerra inevitável
No entanto, nem todos estão convencidos que um ataque é já inevitável, porque, como nota Alastair Crooke, antigo chefe da diplomacia do Reino Unido e dirigente da secreta britânica, MI6, apesar da retórica agressiva de Trump, os EUA não têm ainda meios suficientes na região para um ataque decisivo ao Irão.
Mas esta analista, dos mais experientes e reconhecidos especialistas sobre o Médio Oriente, garante que quando suceder, se suceder, não será uma guerra relâmpago, vai ter consequências desastrosas e demorará muito para que a poeira assente.
E Alastair Crooke recorda, num podcast do ex-militar norte-americano, coronel Daniel Davies, que o Irão é um país gigante, com o tamanho da Europa Ocidental, com quase 100 milhões de habitantes, e, neste momento, os EUA não têm mais de 400 misseis Tomahwak nos vários navios de guerra que possuem na região, o que é "muito pouco".
"Podem causar danos volumosos, mas não suficientes para que o Irão deixe de ser uma séria ameaça aos interesses dos EUA e de Israel no Médio Oriente", disse, acrescentando que a questão mais relevante nem é essa, "é perguntar qual a razão para este iminente ataque" e se se olhar com atenção, "não há nenhuma".
O que alguns analistas notam igualmente é que Donald Trump e a sua Administração podem estar a usar esta retórica de guerra iminente para distrair as atenções dos gravez problemas internos, sejam eles económicos, ou políticos, como a questão da acção desastrada da sua força especial de fronteiras (ICE) ou ainda dos problemáticos ficheiros Epstein, um pedófilo condenado, onde o nome do Presidente dos EUA surge fortemente envolvido.
As condições de Washington
E o que é que o Irão tem de fazer para evitar um ataque dos EUA? Entre as exigências norte-americanas, está o fim do enriquecimento de urânio para o seu programa nuclear civil, dar por findo o seu programa de desenvolvimento dos sistemas de misseis e ainda acabar com o apoio às organizações regionais que lhe são próximas, como o Hezbollah, no Líbano, ou os Houthis, no Iémen.
A todas estas exigências, que são conhecidas há muito, Teerão já disse por diversas vezes, que não aceitará nada disso reafirmando a sua decisão soberana alegando que nada do que faz fere a Lei Internacional enquanto Nação soberana e independente.








