Quando este cenário, hipotético ainda, se transformar em realidade, a economia mundial enfrentará o mais duro golpe em décadas, podendo mesmo superar a crise de 1929, que começou nas bolsas dos EUA, até hoje vista como a mais severa dos últimos 100 anos em todo o mundo.
O aviso está a ser feito por alguns dos economistas e analistas de política global mais respeitados em todo o mundo, como Jeffrey Sachs, professor da Universidade de Columbia, que já fez notar que, provavelmente, em Washington não se está a perceber a dimensão da catástrofe que está a ser alinhavada.
Os mercados petrolíferos, que nas últimas duas semanas desligaram os sensores do sensacionalismo das declarações do Presidente norte-americano, voltaram hoje a ligá-los no máximo depois do discurso "infernal" de Donald Trump na segunda-feira ao final da tarde e o barril de crude em Nova Iorque já está nos 115 USD, um valor apenas atingido em 2022, no contexto da invasão russa da Ucrânia.
Por detrás desta escalada no preço da energia, verificando-se o mesmo no Brent, em Londres, e nos mercados do gás (LNG) globais, com preços a baterem recordes de vários anos, está a ameaça reiterada de Donald Trump em destruir todas as pontes e centrais de produção de electricidade do Irão em 4 horas a partir da meia-noite de hoje, 17:00 em Luanda.
Um cheirinho do que pode estar para vir se o bom senso não se impuser nas horas que restam para o "Armagedão" que Trump tem pronto a disparar sobre o Irão, já está em curso, com o ataque ao maior campo de gás natural do mundo, South Pars, no Golfo Pérsico, explorado em conjunto pelo Irão e pelo Catar, e a resposta iraniana sobre Jubal, um dos maiores complexos petroquímicos do mundo, na Arábia Saudita, a norte de Riade.
Fogo v fogo
Como tem sido evidente nestas cinco semanas de guerra, se hã uma coisa que ficou evidente é que nem a coligação israelo-iraniana nem o Irão têm dificuldades de maior em atingir alvos do adversário a um ritmo diário, incluindo em Israel, onde a fama da sua "cúpula de ferro" está a ser desmantelada a cada míssil balístico hipersónico iraniano que a atravessa diariamente.
Nem em Israel nem nos países do Golfo Pérsico, como a Arábia Saudita, o Kuwait, Emiratos ou o Bahrein, onde os EUA possuem dezenas de bases militares, protegidas pelos sofisticados sistemas Patriot e, ainda assim, todas elas já destruídas ou parcialmente destruídas, tal como uma boa parte da infra-estrutura petrolífera destes países, que tem sido poupada pelo Irão, tal como, até aqui, a do Irão tem sido pelos ataques israelo-americanos.
Mas todo esse cuidado está a escassas horas de terminar se Trump cumprir a ameaça, porque, como disse à Al Jazeera nas últimas horas Seyed Marandi, professor da Universidade de Teerão e visto como um dos "porta-vozes" não oficiais do país, depois de ter sido um dos conselheiros do Irão no âmbito das negociações sobre o seu programa nuclear com a Agência Internacional de Energia Atómica (AIEA), "nem sequer vale a pena pensar no Estreito de Ormuz porque não haverá nem crude nem gás para sair do Golfo Pérsico".
Isto, no quadro da resposta iraniana às ameaças de Trump que, neste momento, assentam na ideia de "ou abrem o Estreito ou o inferno descerá sobre o Irão", o que Marandi usa para ironizar, lembrando que Ormuz era uma passagem livre antes desta guerra começar.
Já a contar com o pior cenário, que será uma avalanche de fogo a cair sobre as pontes e centrais eléctricas do Irão, o que será, como já avisou a ONU, através de Stéphane Dujarric, porta-voz do Secretário-Geral, António Guterres, uma "flagrante violação da Lei Internacional" e sem dúvida, devido ao impacto nas populações civis, um crime de guerra, com Trump a dizer em resposta que essr tipo de acusações não lhe tiram o sono, como não o inquietou a morte de 170 meninas em Minab, uma escola no sul do Irão, per dois misseis Tomahawk logo no começo deste conflito, tentando mesmo dizer que eram Tomahawk iranianos após as investigações da CNN e da Reuters.
O registo histórico...
Embora as negociações estejam a decorrer, através de intermediários, nomeadamente o Paquistão, e o registo histórico mostre que Trump tem recuado uma e outra vez na prossecução deste tipo de ameaças catastróficas, a verdade é que desta feita se teme, entre a comunidade de analistas menos alinhados cegamente com os EUA e Israel, que Washington despeje mesmo "o inferno sobre o Irão".
E, perante esse contexto de tragédia global iminente, o ministro dos Desportos e da Cultura do Irão lançou um repto à juventude iraniano, mas em especial ao universo das artes e dos desportos no país, para se deslocarem em massa para junto dos alvos nomeados por Donald Trump, as suas centrais eléctricas e pontes das principais vias de ligação entre as grandes cidades iranianas, quando Israel surge a dizer que também os caminhos-de-ferro serão alvos dos seus misseis.
De acordo com a Al Jazeera, este movimento está em marcha e prevê-se que milhares de pessoas se concentrem em torno destas infra-estruturas antes que comece a cair a chuva de misseis e bombas sobre o Irão, prometida pelo "meteorologista do inferno" da Casa Branca.
Esta "deadline" de Trump foi um tiro de partida para um bizarro jogo de ping-pong, onde Washington e Telavive produzem efeitos na bola que Teerão apanha e devolve com declarações como a de Mahdi Mohammadi, conselheiro sénior do presidente do Parlamento Mohammad Bagher Ghalibaf, curiosamente o homem que o Presidente norte-americano, segundo o Axios, dizia estar a conversar com os EUA sobre um acordo de paz.
Mahdi Mohammadi respondeu ao ultimato de Trump dizendo, citado pela Al Jazeera, que "são os EUA que têm horas para aceitar as condições do Irão para acabar com esta guerra, ou ver os seus aliados no Golfo Pérsico e no Médio Oriente, a regressarem para a idade da pedra, onde dizem querer ver o Irão, Nós não cederemos nunca!".
Teerão é alérgico a ultimatos
Todas as ameaças, ultimatos e deadlines de Donald Trump foram até aqui rechaçadas por Teerão e esta não está a ser diferente, depois de receberem uma propostab dos EUA nesse sentido via mediadores do Paquistão, ripostando com uma lista de 10 condições onde sobressai a de acabar com a guerra em definitivo e criar mecanismos para garantir que o país não volta a ser atacado por israelitas e norte-americanos.
Consta ainda desta lista o levantamento das sanções a que o Irão está sujeito há décadas, ficar, conjuntamente com Omã, a gerir uma "portagem" na passagem pelo Estreito de Ormuz, como sucede noutras regiões do mundo, incluindo entre os EUA e o Canadá, e indemnizar Teerão pelos custos da reconstrução do país.
A par desta ameaça, os EUA mantém em cima da mesa uma proposta de cessar-fogo de 30 a 45 dias, dependendo das fontes, alegando que isso permitirá às partes repensar e reflectir melhor para alinhavar as condições de paz na região, o que Teerão, uma e outra vez, recusou, exigindo garantias de que não voltará a ser atacado como sucedeu este 28 de Fevereiro e já tinha sucedido em Junho de 2025.
Os governantes iranianos, quase em uníssono, notam que Teerão não confia nem pode confiar na palavra de Donald Trump porque em Junho do ano passado foram atacados quando estavam empenhados em negociações com Washington e estava marcada para as 24 horas seguintes mais uma ronda negocial.
E desta vez, em finais de Fevereiro, estava mesmo prevista uma reunião entre as delegações dos EUA e do Irão, em Viena, na sede da Agência Internacional de Energia Atómica, que os mediadores de Omã viam como "muito positiva e promissora" com vista a um acordo sólido para evitar novas confrontações.
Além disso, o Irão vê com desconfiança a crescente dimensão da força militar que os EUA estão a deslocar para a região, com já dezenas de milhares de soldados, na maior parte de unidades de elite, que tudo indica, como defendeu ao Novo Jornal o major-general Agostinho Costa, "tem como objectivo uma invasão terrestre" do Irão.
E um cheirinho dessa incursão em chão iraniano pode já ter sido sentido (ver links em baixo) quando dezenas de aviões e helicópteros avançaram sobre território iraniano, com centenas de militares das forças especiais, Delta e Seals, a bordo, sob a justificação de que estavam numa operação de resgate de um piloto de um F15 abatido no fim-de-semana, que terá servido de camuflagem para a abertura de uma "testa de ponte" no país.
Solução Mearsheimer
Mas Trump pode mesmo estar numa situação muito complexa e sem uma saída óbvia para esta guerra mesmo que queira dela sair de imediato, porque, como nota John Mearsheimer, um dos maiores especialistas mundiais em diplomacia e política internacional, "sem admitir a derrota, os EUA não têm como sair de cena".
Este professor da Universidade de Chicago, e autor de várias obras sobre conflitos e diplomacia globais, defende que a ausência de soluções resulta da falta de bom senso de Donald Trump ao longo deste processo ao deixar-se deslizar para um beco sem saída empurrado por Israel.
Porém, uma possibilidade seria Washington afastar-se de Telavive e apostar num processo negocial sólido em torno do Estreito de Ormuz, permitindo a Teerão manter um papel central na sua gestão, libertando o país das sanções e normalizando as relações bilaterais sem armadilhas nem deceções.











