O primeiro tratado entre russos e norte-americanos, denominado START (Tratado de Redução de Armas Estratégicas) remonta a 1991, uma forma de garantir que ao colapso da então União Soviética, em 1990, não se seguia uma corrida desenfreada às armas nucleares, como se chegou a temer.

Este mecanismo de controlo que unia as duas grandes potências nucleares, e era tacitamente respeitado pelas restantes potências nucleares, como a China, a Índia, o Paquistão, a França ou o Reino Unido, foi sendo renovado e, em 2011, melhorado, obtendo uma nova designação.

Com as suas regras, nem sempre cumpridas, fossem as que obrigavam directamente russos e americanos, ou tacitamente, os restantes países com armas nucleares, ou os novos membros do "clube atómico", como a Coreia do Norte, o mundo podia, apesar de tudo, manter algum controlo sobre este tipo de ogivas.

E a questão nem é tanto haver ou não ogivas nucleares activas em número suficiente para garantir a destruição da Humanidade, porque só russos e americanos possuem mais de 10 mil entre si, além das mais de 600 da China, a garantia de prevenção do Armagedão nuclear resulta dos mecanismos de vigilância mútua que o "START" permitia até agora.

Desde há alguns anos que Washington e Moscovo têm renovado automaticamente o documento, mas este ano, mesmo com a Rússia a chamar a atenção repetidamente, para o risco de não o fazer agora, em Washington Donald Trump optou ignorar o fim do prazo para renovar o "Novo Tratado START".

Os especialistas neste domínio, de onde pode a qualquer momento ser gerado o "fim do mundo" tal como o conhecemos, admitem que os EUA, com a percepção de que nas outras áreas militares, foram ficando para trás - basta ver o exemplo da capacidade balística hipersónica, que os russos e chineses dominam -, querem garantir que isso não sucede no nuclear e, para isso, precisam de manter os olhos dos observadores russos à distância.

Porém, para os EUA, o maior imbróglio com esta opção nem são os russos, mas sim a China que, embora não fosse parte do "START", mantinha os seus sistemas de armas nucleares sob controlo semelhante ao deste tratado e, com a sua caducidade, deverão agora iniciar uma robusta recuperação do seu atraso face aos EUA.

E isso é fundamental para Pequim porque, em Washington, vários líderes políticos e militares têm insistido que uma guerra com a China é inevitável nos próximos três a cinco anos devido ao acelerado desenvolvimento económico e militar chineses que ameaçam claramente a hegemonia global dos EUA e dos seus aliados ocidentais.

Hegemonia essa permitida pela Ordem Mundial baseada nas regras impostas pelos EUA após a II Guerra Mundial, que lhes permitiu dominar o Planeta, através de pilares como o FMI, o Banco Mundial ou até a ONU, e que agora, Pequim e Moscovo, como nunca a ex-URSS conseguiu, estão a desafiar, com o apoio do restante Sul Global.

Para perceber esta recusa de Trump em prolongar o Novo Tratado STRAT é preciso ter em conta que em Washington, a actual Administração, como as anteriores, estão claramente inquietas com a ascensão chinesa devido ao risco que representa globalmente mas para o grande mecanismo de controle mundial que é a sua moeda, o USD.

Isto, embora o ex-Presidente Joe Biden tenha admitido pela primeira vez que a Ordem Mundial que servia os Estados Unidos já não existe mas tendo o cuidado de apontar como estratégico impedir que a seguinte, que o eixo Pequim-Moscovo já disse que deve ser baseada em parcerias entre iguais para favorecer o desenvolvimento harmonioso de todos os países, não seja contrária aos interesses norte-americanos.

E é neste contexto de férrea disputa planetária que emerge este problema com a não renovação do START, porque se nas próximas semanas não for encontrada uma solução que possa ser aceitada por russos e chineses, é mesmo uma nova corrida ao armamento atómico que se segue.

Todavia, algum alívio parece estar a emergir do caos, com Donald Trump, depois de deixar passar a data de renovação do tratado, veio esta sexta-feira, 06, admitir que o tratado que estava em vigor não foram bem negociado pelos seus antecessores e quer, admite, um novo.

E propõe que os especialistas norte-americanos dêem início a trabalho de desenhar um novo tratado de redução de armas nucleares, embora sem apontar datas ou detalhes sobre o que os EUA pretendem.

E as primeiras conversas, que estão a tranquilizar o Secretário-Geral da ONU, António Guterres, que já se mostrou "profundamente preocupado" com esta situação, estão, segundo os media norte-americanos e russos, a decorrer já à margem das negociações sobre a guerra na Ucrânia que estão a ter lugar em Abu Dhabi, Emiratos Árabes Unidos.

"Em vez de estar a prolongar um mau `Novo START', os nossos especialistas vão trabalhar num tratado melhorado, modernizado que possa prolongar-se indefinidamente no futuro", apontou Trump na sua rede social Truth Social, num claro recuo face à teimosia em não aceitar a proposta de Vladimir Putin.

O Presidente russo insistia que, embora concordando com a necessidade de avançar para um novo documento, o actual deveria ser renovado por pelo menos mais um ano de forma a impedir o surgimento de anomalias ou imprevistos, enquanto o novo documento seria desenhado, provavelmente com a integração da China, como Washington exige.

O START é o derradeiro mecanismo de controlo bilateral que emana da "Guerra Fria", porque outros, como, entre outros, o Tratado de Forças Nucleares de Alcance Intermediário (INF), que proibia mísseis de alcance curto e médio (500 a 5.500 km) do qual os EUA se retiraram em 2019.

Ou ainda o Tratado de Não Proliferação de Armas Nucleares (TNP), de 1968, multilateral para limitar a disseminação de armas que se diluiu com o tempo.

Sem qualquer mecanismo activo de controlo pela primeira vez n os últimos 50 anos, como recordou António Guterres, o mundo entrou esta semana numa fase nova e perigosa de escalada desenfreada de procura de novas e ainda mais poderosas armas nucleares.

O chefe da ONU disse mesmo que nem na Guerra Fria o mundo estava sob este tipo de pressão e ameaça, porque nunca antes existiu um período sem que as duas superpotências atómicas - até em 1946 houve algum tipo, mesmo que insipido, de acordo entre Washington e Moscovo - estivessem obrigadas a um mínimo refreamento nuclear.

"A dissolução de décadas de compreensão e sucessos no controlo deste tipo de armas não podia chegar em pior altura para a Humanidade", assumiu Guterres, porque nunca como hoje o mundo se deparou com um risco semelhante de uso de uma arma nuclear que desencadearia um Armagedão vertiginoso até num contexto de "mau cálculo dos riscos".

E não é para menos porque o que António Guterres está a exprimir é que da guerra na Ucrânia à ameaça de Pequim sobre Taiwan, passando pelo frenesim permanente na fronteira entre a Índia e o Paquistão, o risco de uma faísca poder disseminar o "veneno atómico" do fim do mundo só não é visível para quem se recusar a ver o óbvio.

E a acrescentar perigosidade a este momento está o facto de que também outros actores regionais, como no Médio Oriente, Irão, Arábia Saudita - Israel é o único país com armas nucleares que não assume -, ou mesmo em África, com a fractura permanente entre potências como o Egipto e a Etiópia, agora sob esteróides devido à barragem erguida pelos etíopes no Nilo, podem aproveitar para avançar para a produção da sua própria arma estratégica.

Mas há um elemento novo que permite aliviar a tensão, que é o facto de Pentagono norte-americano (Comando Militar) ter anunciado já esta quinta-feira, provavelmente para almofadar a decisão de não renovar o "START", que a Rússia e os EUA reestabeleceram os contactos de alto nível militar que estavam "mortos" há alguns anos, no contexto do esfriamento das relações bilaterais induzido pela guerra na Ucrânia.