Com o fecho parcial do Estreito de Ormuz, a passagem marítima entre o Golfo Pérsico e o Oceano Índico, por onde passa 20% do crude consumido em todo o mundo, cerca de 20 milhões de barris por dia, a generalidade dos analistas apontavam para este cenário de escalada nos preços da matéria-prima.
E assim foi. Perto das 07.45, hora de Luanda, o barril de Brent, a referência principal para as exportações angolanas, estava a valer 78,70 USD, mais 8% que no fecho de sexta-feira, nos 72,2 USD, quando já se sentiam os primeiros sinais de que a guerra estava por horas no médio Oriente, mas chegou a bater nos 82 USD, uma subida de 13%, nos primeiros minutos de negócio.
Apesar de ser um preço que só surge nos gráficos de longo prazo em Janeiro de 2025, o limite pode estar ainda muito longe, como notam vários analistas ouvidos pelas agências e sites especializados, de ter sido atingido, porque se está ainda a medir o pulso ao que é efectivamente a intenção do Irão.
É que o anúncio do encerramento do Estreito de Ormuz feito pela Guarda revolucionária do Irão, ainda no Sábado, através de uma mensagem de rádio para todos os navios a caminho do Golfo Pérsico ou já dentro do braço de mar que banha a Arábia Saudita, Kuwait, Iraque, Catar, Emiratos Árabes Unidos e, naturalmente, o Irão, não afastou todos os petroleiros desta rota.
Mas não era um bluff, porque o Irão sabia, como os analistas notaram posteriormente, que não era necessário impedir fisicamente a passagem pela via navegável de 2,5 kms da passagem de 33 kms que é o Estreito de Ormuz, entre o Irão e Omã...
Bastava que o risco para as grandes seguradoras, como a Lloyd's, de Londres, a maior do mundo, fosse insustentável e estas retirariam as garantias, o que levou as companhias, como as transportadoras MARSK, CMA CGM ou a Hapag-Lloyd, mudaram de rumo imediatamente.
E de um momento para o outro, mesmo que o Estreito de Ormuz não esteja efectivamente encerrado, até porque o irão está a permitir a passagem de petroleiros e porta-contentores chineses e russos, o efeito na economia mundial está a ser gigantesco, como o mostra os gráficos dos mercados internacionais, seja o Brent, em londres, como o WTI, em Nova Iorque.
E é precisamente devido ao efeito deste arriscado movimento por parte do Irão que pode estar a resultar na abertura de uma nesga para a paz passar, porque em Washington, para o Presidente Donald Trump, uma nova crise económica com a dimensão de 2008, que é o que espera o mundo se a guerra continuar, é insustentável para as suas ambições políticas.
É que, com eleições intercalares em Novembro próximo, onde corre o risco de perder as maiorias no Senado e na Câmara dos Representantes, no Congresso, é grande, com a crise crescente na economia norte-americana, onde já vinga uma inflação abrasiva, esse desfecho é garantido.
E com o maior escândalo de pedofilia de sempre à perna (ver links em baixo), o "Caso Epstein", onde o seu nome aparece citado milhares de vezes nos mais de 3 milhões de ficheiros do processo, Donald Trump sabe, porque o próprio já o admitiu, teria de imediato um processo de destituição (impeachement) que o deixaria à mercê da justiça e arruinaria a sua vida política e social.
Para já, as perspectivas no terreno são de continuação do conflito, com os misseis iranianos a caírem sobre Israel e os países do Giolfo, onde os EUA possuem bases militares, bem como os ataques sobre Teerão pela coligação israelo-americana parecem estar em crescendo.
Além disso, uma nova frente de guerra parece estar a ser aberto no norte de Israel, através do Hezbollah, o aliado regional do Irão no Líbano, o que permite especular que se trata de um conflito que não está para acabar em breve.
Isto, apesar de Donald Trump ter surpreendido o mundo no Domingo ao dizer, numa curiosa entrevista a The Atlantic, que está disponível para conversar com o Irão, sem que em Teerão se tenha ouvido qualquer pedido de conversações no meio dos ataques.
Pode ser, como alguns analistas, admitem, o efeito Estreito de Ormuz (ver links em baixo), que está a inquietar Trump e a sua equipa de conselheiros eleitorais, mas para os iranianos, é uma oportunidade que não está a ser ignorada, como já veio dizer Abbas Araghchi, o ministro dos Negócios Estrangeiros.
O governante iraniano disse aos media que o Irão "é um país que sempre preferiu as negociações para resolver problemas" e que se essa oportunidade surgir, assim fará de novo, como estava a fazer antes deste ataque, com negociações com os EUA a correr...
Mas há entendimentos que não escapam aos radares dos analistas mais atentos. Nem o Irão está a atacar as infra-estruturas energéticas dos países do Golfo, petróleo e gás, nem a coligação isarelo-americana, até ao momento, atacou a indústria petrolífera iraniana.
Se se trata de um acordo prévio ou tácito, saber-se-a em breve, caso o Estreito de Ormuz se mantenha encerrado, pelo menos parcialmente...
Todavia, ainda com uma dependência tão vincada das exportações de crude, mesmo que a diminuir ano após ano, em Angola, como, de resto, noutras dezenas de países com as mesmas características em todo o mundo, este momento...
... é mais uma razão para não se perder os mercados de vista
O actual cenário internacional tende a manter os preços bastante acima do valor estimado para o OGE 2026, que contempla um ajustamento em baixa deste valor, 61 USD, em relação aos 70 USD de 2025, valor conservador mas aconselhável, atendendo aos altos e baixos e às incertezas globais...
Ainda assim, Angola é um dos países mais atentos a estas oscilações devido à sua conhecida dependência das receitas petrolíferas, e a importância que estas têm para lidar com a grave crise económica que atravessa, especialmente nas dimensões inflacionista e cambial.
Isto, porque o crude ainda responde por cerca de 90% das exportações angolanas, 35% do PIB nacional e 60% das receitas fiscais do país, o que faz deste sector não apenas importante mas estratégico para o Executivo.
O Governo deposita esperança, no curto e médio prazo, de conseguir o objectivo de aumentar a produção nacional, uma das razões por que abandonou a OPEP em 2023, actualmente abaixo de 1 mbpd, gerando mais receita no sector de forma a, como, por exemplo, está a ser feito há anos em países como a Arábia Saudita ou os EAU, usar o dinheiro do petróleo para libertar a economia nacional da dependência do... petróleo.
O aumento da produção nacional, cujo potencial cresceu significativamente já este ano com o anúncio da TotalEnergies de uma grande descoberta com potencial de 500 mb, não está a ser travada por falta de potencial, porque as reservas estimadas são de nove mil milhões de barris e já foi superior a 1,8 mbpd há pouco mais de uma década, o problema é claramente o desinvestimento das majors a operar no país.
Aliás, o Governo de João Lourenço tem ainda como motivo de preocupação uma continuada e prevista redução da produção de petróleo, que se estima que seja na ordem dos 20% na próxima década, estando actualmente â beira de 1 milhão de barris por dia (mbpd), muito longe do seu máximo histórico de 1,8 mbpd em 2008.
Por detrás desta quebra, entre outros factores, o desinvestimento em toda a extensão do sector, deste a pesquisa à manutenção, quando se sabe que o offshore nacional, com os campos a funcionar, está em declínio há vários anos devido ao seu envelhecimento, ou seja, devido à sua perda de crude para extrair e as multinacionais não estão a demonstrar o interesse das últimas décadas em apostar no país.
A questão da urgente transição energética, devido às alterações climáticas, com os combustíveis fosseis a serem os maus da fita, é outro factor que está a esfumar a importância do sector petrolífero em Angola.











