Com tantos anos de vida e de poder às costas, Yoweri Museveni pode garantir que as eleições desta semana não sejam um obstáculo sólido à sua 7ª reeleição, nem que seja, como está a acontecer, com uma perseguição feroz à oposição e aos seus candidatos.

Mas a biologia não perdoa e aos 81 anos sabe que a sucessão na liderança do Movimento de Resistência Nacional, ou apenas "O Movimento", como é mais conhecido localmente, está a marcar estas eleições, onde concorre com sete candidatos, de forma ainda mais conturbada que as críticas da oposição.

Oposição que tem em Bobi Wine, da Plataforma de Unidade Nacional, o seu principal candidato na por muitos considerada vã tentativa de destronar Musevini nesta quinta-feira, e que se tem mostrado um férreo adversário com as forças de segurança sempre no seu encalce.

É a segunda tentativa de Wine, de 43 anos, para retirar o Presidente Musevini do Palácio em Kampala, depois de em 2021 ter ficado pelos 35%, contra 58% do incumbente, numas eleições, como as desta semana, marcadas pela violência e pela acusação de fraude generalizada.

E o mesmo vai acontecer desta vez, como se pode perceber pela forma como o regime ugandês se colocou todo ao serviço de Yoweri Museveni, onde desponta como comandante militar o seu filho, general Muhoozi Kainerugaba, nomeado por si Chefe das Forças de Defesa de Uganda.

Esta nomeação foi, na altura, em 2024, vista internamente, mas também no exterior, como o início de um processo de substituição de Musevini, embora o próprio, já na condição de chefe militar, tenha cometido alguns erros, especialmente ameaçando líderes da oposição com violência...

Mas aquele que parece ter sido o seu maior erro foi ameaçar os países vizinho de invasão e ocupação, através das redes sociais onde tem presença assídua e já deixou saber que quer ser Presidente do Uganda, dê por onde der...

Apesar de a reeleição estar assegurada, mesmo no meio das fortes e bem identificadas suspeições de fraude, a sucessão de Musevini é o tema mais saliente desta campanha devido à sua avançada idade e problemas de saúde que o regime tem procurado esconder ao longo dos anos.

Só que tal sucessão dificilmente será por um elemento da oposição no contexto de eleições democráticas e limpas, antes por um elemento do regime que "O Movimento" deverá apontar nos próximos anos, ou mesmo meses, embora o próprio já tenha dito que precisa de mais um mandato de quatro anos para "consolidar os ganhos do desenvolvimento e da paz".

E para isso ser possível, na sua perspectiva, Musevini viu-se "obrigado" a mudar a Constituição por duas vezes de forma a limpá-la dos limites de mandatos e da idade para ser candidato à Presidência ugandesa.

Esta campanha, como, de resto, no passado, tem sido marcada por repetidos episódios de violência e perseguição política, como o demonstra as dezenas de prisioneiros políticos actualmente nas cadeias do país, com destaque para Kizza Besigye, histórico líder da oposição e alvo de anos a fio de vigilância apertada e repressão policial.

E as chamadas de atenção mais sonantes para a ausência de lisura eleitoral têm sido feitas precisamente pela mulher de Kizza Besigye, Winnie Byanyima, que considera estas eleições como uma "mera farsa" dentro de um "Estado militarizado" onde a democracia é uma "película frágil" que desaparece com um sopro presidencial sempre que necessário.

A maioria dos analistas considera que o cansaço popular do longo e férreo poder de Musevini pode levar à erupção de violência no país como nunca foi antes visto, porque os abusos são de tal monta que ninguém os ignora, sendo o exemplo mais repetido a impunidade com que o seu filho usa o cargo de comandante das Forças de Segurança do Uganda.

Apesar das críticas, o Uganda também ostenta algumas imagens de desenvolvimento relevantes, com uma aposta na economia agrária e num turismo de sucesso apoiado na defesa da biodiversidade e da natureza, com destaque para a presença de reservas únicas no mundo para gorilas e chimpanzés.

Mas o café e, mais recentemente, o petróleo, são os factores decisivos para o objectivo de conseguir um crescimento sustentável que o Uganda, apesar dos problemas, tem vindo a conseguir e tem sido usado pelo regime para justificar a necessidade de "continuar o trabalho" dos últimos anos.

Isto, apesar de ter um gigantesco défice de infra-estruturas e uma pobreza que cobre cerca de 17% dos seus 52 milhões de habitantes, onde cerca de 50% enfrenta, segundo a ONU, riscos sérios de cair na pobreza.