Enquanto em Washington, Donald Trump avisava que a seguir à Venezuela, seria a vez de "libertar" a vizinha Colômbia do "horrível Presidente", Gustavo Petro, que "gere o país assente nas fábricas de produção de cocaína", e pode ser "o próximo" sequestrado pela força norte-americana, em Caracas Delcy Rodriguez avisava que a Venezuela "nunca mais será uma colónia nem escrava de nenhum império".

E estas palavras da nova Presidente venezuelana, que jurou defender a Constituição e o regresso de Nicolas Maduro ao poder em Caracas, foram seguidas de uma noite de tiroteio junto ao Palácio de Miraflores, onde é a Presidência do país, naquilo que parecia, e vários media internacionais assim o avançaram, uma segunda vaga dos EUA para "calar" a audácia de Delcy Rodriguez.

Mas não. Pela manhã desta terça-feira, 06, percebeu-se que não se tratou da segunda vaga prometida por Trump se o regime chavista não passasse a obedecer a Washington mas, pelo contrário, uma reacção nervosa e exagerada da guarda presidencial que confundiu drones da secreta venezuelana com o regresso dos "americanos", o que deixa entender que se os EUA voltarem à carga poderão enfrentar mais resistência que na madrugada de sexta-feira, 02, para Sábado, 03.

Enquanto isso, acrescentando estranheza a este "golpe" norte-americano num vizinho do sul, fazendo lembrar as décadas de 1960, 70 e 80, quando os EUA viam a América Latina como o seu "quintal", Donald Trump reiterava, a bordo do Air Force 1, perante a insistência dos jornalistas, na segunda-feira, 05, que a Venezuela era assunto resolvido, afirmando que é ele que está no comando do país, e que a Colômbia, cujo Presidente Gustavo Petro já garantiu que pegará em armas para resistir, Cuba e até o México, estavam na calha para intervenções militares dos Estados Unidos da América.

Mas havia mais. Donald Trump e a sua equipa mais próxima, onde estão Pete Hegseth, o secretário da Guerra, e Marco Rubio, secretário de Estado e conselheiro de Segurança, não perderam tempo a relembrar que no mapa das conquistas anunciadas não estão apenas países da geografia latina onde os EUA durante décadas deram cartas, também a Gronelândia, região autónoma da Dinamarca, e o Canadá, seriam a seguir olhadas com "atenção especial" por "razões de segurança".

Para já, e enquanto não se percebe, porque a confusão está instalada entre os analistas, mesmo os mais informados sobre a realidade política venezuelana, onde sobressaem duas teses, a de que Delcy Rodriguez não cederá a Trump, e a de que o novo poder em Caracas está a teatralizar uma resistência por razões internas mas já cedeu no essencial aos norte-americanos, começa a ser claro o que quer efectivamente Washington.

E o que quer disse-o de imediato Donald Trump quando, no Sábado, 03, anunciou o golpe ao mundo e o sequestro de Maduro, que é colocar as multinacionais do petróleo dos EUA a gerir o sector petrolífero venezuelano, que conta com as maiores reservas do mundo, superiores a 300 mil milhões de barris, relegando a questão da democracia para um plano secundário...

E isso mesmo o demonstra o facto de Donald Trump ter vindo afastar, com enorme surpresa em todo o mundo, a possibilidade de o poder transitar para Edmundo Gonzalez, o candidato da oposição, que EUA e União Europeia reconhecem como Presidente por ter "vencido" as eleições de 2024, e a sua "madrinha", Maria Corina Machado, a Nobel da Paz, que tanto ela como a generalidade dos media ocidentais já viam no poder em Caracas. (ver links em baixo)

Curiosamente, apesar de reconhecer que Corina Machado e Edmundo Gonzales são os legítimos vencedores das Presidenciais de 2024, com 84% dos votos, e acusarem o regime chavista de Maduro e Delcy Rodriguez de terem mantido o poder através da fraude eleitoral generalizada, agora Donald Trump vem dizer que estes "não têm apoio nem respeito popular" para serem conduzidos ao Palácio de Miraflores.

Apanhada de surpresa, quando, antes do golpe norte-americano, defendeu, repetidamente, uma intervenção externa para derrubar o chavismo, Maria Corina Machado, a maior derrotada deste momento histórico em Caracas, vem agora dizer quer não fala com Donald Trump deste Outubro de 2025.

Numa entrevista televisiva, à norte-americana Fox News, citada pelo britânico The Guardian, Maria Corina Machado diz que apenas falou com Trump a 10 de Outubro do ano passado, acrescentando que está a pensar voltar à Venezuela em breve.

"Eu estou a pensar voltar à Venezuela assim que for possível e o mais depressa possível", disse a ainda vista como líder da oposição em Caracas, embora, pelo que se pode, para já, depreender das palavras da nova Presidente, dificilmente Corina Machado voltará tão cedo ao seu país.

Até porque uma das subtilezas deixadas por Delcy Rodriguez no seu discurso de tomada de posse, nesta segunda-feira, em Caracas, foi o recado enviado a Washington, repetindo, afinal, o que Nicolas Maduro já tinha dito, que a Venezuela tem disponibilidade para colaborar com os EUA em todos os domínios, mas "sem subordinação".

"Presidente Trump, o nosso povo, a nossa região merece a paz e o diálogo, não a guerra", disse Rodriguez, acrescentando que essa foi "sempre a mensagem do Presidente Nicolas Maduro e é a mensagem da Venezuela agora também", propondo a Donald Trump um "relacionamento equilibrado e respeituoso" sob os auspícios de "uma agenda para o desenvolvimento e para a cooperação" assente na "soberania e um futuro promissor".

E se até aqui estas poderiam ser lidas como palavras de conforto para evitar uma segunda vaga de ataque dos EUA, o que Delcy Rodriguez disse a seguir demonstra que em Caracas não caiu por terra a honra chavista, quando esta diz que o seu país "nunca mais será escravo ou colónia de nenhum império" fazendo, ao que tudo indica, finca-pé às ameaças de Trump quando diz que se esta não se subjugar à sua vontade "terá um castigo ainda maior" que o de Nicolas Maduro, o que é uma ameaça clara de morte.

Maduro que começou esta Segunda-feira, 06, a ser julgado, com a sua mulher, num tribunal de Nova Iorque, aproveitando a primeira audiência para se considerar "inocente", dizendo ser "um homem decente", não vendo "nenhuma razão" para ali estar, recusando a acusação de ser líder de narcotráfico e prometendo "lutar para vencer" na justiça como sempre fez.

A próxima audiência foi marcada para 17 de Março, mais de dois meses, o que é uma anormalidade no sistema judicial norte-americano, o que mostra que a "acusação" não se sente totalmente confortável, embora a sua condenação, apesar de a sua equipa de defesa ser liderada pelo advogado Barry Pollack, o mesmo que defendeu Julian Assange, da Wikileaks, tendo conseguido, apesar de ter usado diversos truques jurídicos pelo meio, libertar o seu constituinte, com surpresa global.