A analogia correcta é o mundo de 1914, não o período da Guerra Fria (1947-1991) como muitos afirmam. Com o fim do momento unipolar, os EUA já não conseguem ditar as regras do sistema internacional, exemplo disso foi o recuo de Trump relativamente às tarifas colocadas à China e o falhanço das sanções à Rússia a partir de 2022. Os EUA continuam a ser o Estado mais importante no sistema internacional, mas estão hoje muito mais limitados pela ascensão da Ásia como um todo e da China em particular e pelos debacles das guerras contra o terrorismo.
Por isso não podemos olhar para o mundo actual usando as lentes da Guerra Fria e por isso em 2025 apelos aos perigos do Marxismo são em boa medida uma invencionice, o Marxismo como força geopolítica foi enterrada com a queda da União Soviética a 26 de Dezembro de 1991. Poucos países no mundo hoje são Marxistas, enquanto em 1991 um terço (1/3) o lobo estava debaixo da cortina de ferro.

O "perigo Chinês" que muitos no Ocidente anunciam é também um mito, a China está mais interessada em exportar produtos do que exportar o Maoísmo dos anos 70, não é um acaso que Richard Nixon, em parte influenciado por Henry Kissinger coopta a China em 1972 para o bloco Americano, contra União Soviética depois do rompimento do pacto Sino-Soviético a partir de 1962. Os massivos investimentos externos (IDE) feitos na China a partir dessa altura, em especial depois da abertura económica de 1979 levadas a cabo por Deng Xiaoping, foram facilitados pelos EUA e pelas multinacionais Americanas à procura de mão de obra barata, o que conduziu à desindustrialização Americana e o empobrecimento relativo das classes médias, resultados hoje evidentes até pelo sucesso do radicalismo político à direita.

Até 2007 havia de facto uma aliança entre os EUA e a China e o que leva a cisão foi a ascensão económica chinesa, de repente o aliado não quer ser vassalo e imediatamente se desencadeia uma estratégia de contenção da China pelos EUA e a China é identificada como um potencial adversário, com o chamado pivô para a Ásia de Barack Obama e surge a narrativa de "agressão Chinesa", sendo que a China não entra em nenhuma guerra desde 1979 e mesmo essa contra o Vietnam foi um fiasco, os EUA e parte do Ocidente, pelo contrário, estão em quase conflito permanente desde 1945, em vários teatros globais.

Para além disso, não há maior hipocrisia do que o que se está passar em Gaza, os mesmos países que se apressaram a condenar a invasão russa na Ucrânia, e bem, são os mesmos que ficam em silêncio em Gaza ou na Etiópia e o Sudão hoje e fazem apenas gestos simbólicos perante a barbárie, nem falo sequer do teatro feito à volta da invasão do Iraque em 2003.

A chamada "Rules-Based Order" sempre foi uma "hipocrisia organizada" para usar a expressão de Stephen Krasner, porque a reciprocidade é destruída quando se tratam de grandes potências e a regra de ouro é afastada, a ideia que o Direito Internacional não se aplica a certos Estados, mas só aos Estados considerados "inimigos. Por isso muitos afirmam que o que impera agora no actual sistema internacional é a lei do mais forte, porque aquilo que vale para os outros não vale para mim e com isso enterram toda a pretensa de igualdade soberana entre os Estados.

A principal ameaça às Democracias e a protecção de direitos humanos vem dessa hipocrisia no sistema internacional e a tentativa de ressuscitar ideias de supremacia de certos povos e de certos países. E esse fenómeno político no Ocidente está a ocorrer dentro de um certo espectro político, por um lado denunciam ditaduras e regimes repressivos, por outro lado não só lidam como encorajam outros regimes e ditaduras, quando são regimes aliados, basta pensar na forma como fizeram o "rebranding" do novo líder da Síria que tinha com um mandato de captura por terrorismo nos EUA, mas, como é aliado hoje, aparece tanto em Bruxelas como em Washington, como um "herói" que lutou pelo seu povo, quando a realidade é outra.
Nem adianta sequer falar na política Africana que aí a hipocrisia não só é latente, como abertamente cortejam África para aceder a recursos minerais, que hoje precisam de forma urgente por causa da transição energética e só utilizam o discurso das "ditaduras" contra potenciais adversários, porque quando são "ditaduras amigas" o silêncio é ensurdecedor e raia o ridículo.

Os Estados não são consistentes quando tentam aplicar padrões morais em Relações Internacionais e é verdade, dirão os críticos, que as Relações Internacionais baseiam-se em interesses, na Realpolitik, mas que isso seja assumido, que não se invente que os Estados ocidentais, como quaisquer outros, têm uma política externa consistente, moral e democrática, assente em valores. As democracias ocidentais como os países não ocidentais e não democráticos têm uma política externa baseada em interesses nacionais.
Infelizmente a imprensa global perpetua essa narrativa maniqueísta de Democracias vs. Ditaduras, quando muitas democracias no Ocidente abraçam ditaduras desde que sejam vassalas ou forneçam recursos minerais ou petróleo e gás e basta pensar nos Estados do Golfo e foi curioso ver a reabilitação no Ocidente do grupo terrorista na Síria, ao mesmo tempo que denunciam terrorismo na Palestina.

Com a queda do momento unipolar, esta hipocrisia organizada desaparece, e as ambições imperiais de todas as grandes potências são claramente declaradas e, abandona-se a máscara de intervenções humanitárias como na Líbia ou Iraque e passa-se para um imperialismo puro e duro e isso aplica-se para todas as grandes potências.

O caso da Venezuela é elucidativo dessa nova política transaccional, que sempre norteou os interesses americanos e ocidentais, o país com as maiores reservas de petróleo do mundo, 300 biliões de baris de reservas provadas é só vítima da Realpolitik, independentemente do que se pense sobre o regime, todos concordamos que deveria haver uniformidade na aplicação de critérios. Os mesmos que pedem democracia na Venezuela, a ignoram na Arábia Saudita ou na Síria como referi, o critério não é o regime ser democrático, mas é ser amigo da potência hegemónica e abertamente justificam uma guerra para impor democracia, não é um acaso também que o Comité Nobel conferiu o Nobel da Paz a Corina Machado em 2025.

Democracias não devem ser impostas pela bucha de um canhão e pela guerra, o desastre no Iraque, Líbia e Afeganistão revela isso, a emergência de um movimento democrático nacional deve ser algo orgânico e por isso o projecto dos neoconservadores americanos liderado por Paul Wolfowitz, que tentou impor democracias pela força, falhou e revela que era apenas imperialismo disfarçado.
E a objecção ao que aqui foi referido é que os que defendem uma alternativa preferem um mundo dominado pela Rússia e China e isso é falso, uma falácia conveniente. Idealmente o sistema internacional deve reflectir regimes democráticos, respeito pela igualdade soberana dos Estados, protecção da dignidade humana, proibição de guerras de agressão e de conquista e isso requer um mundo diferente onde o resto da humanidade que não defende nenhuma das grandes potências tenha mais voz e participação. E mesmo que se admita que é impossível um sistema internacional sem privilégios para as grandes potências, não podemos aceitar um regresso à barbárie colonial onde em nome da "mission civilisatrice" se aceitou a escravatura, genocídio e guerras de conquista e por isso vemos resistência a este projecto imperial.

Em sumário, num mundo multipolar vai haver um aumento dos conflitos militares por causa da competição geopolítica entre as grandes potências e estas, sejam democráticas ou não, vão tentar criar novas esferas de influência e este mundo vai ser mais perigoso para os estados menos poderosos e isso inclui Estados também ocidentais como a Ucrânia, mas pelo menos já sabemos que os imperadores vão nus, a pretensa de valores em política externa não existe e neste novo mundo infelizmente teremos mais conflitos e caos, a máscara caiu e todos conseguem a Medusa. n

*Docente e Especialista em Petróleo e Gás