E talvez o mais impressionante seja isso mesmo: não é uma novidade, não é uma excepção, não é algo improvisado para cumprir calendário. É desporto de alto nível, com história, com exigência, com identidade própria.

Angola está a acolher o Campeonato Africano de Basquetebol em Cadeiras de Rodas. E, apesar de todo o protocolo que envolve um evento desta natureza, há aqui algo que escapa ao formal. Há um significado que não cabe apenas nos discursos de abertura nem nas fotografias oficiais. Há um apelo implícito à consciência colectiva, uma convocatória silenciosa para olharmos de forma diferente para aquilo que durante muito tempo ignorámos ou tratámos com distância.

Durante anos, fomos ensinados, directa ou indirectamente, a associar deficiência à limitação absoluta. Criámos uma narrativa incompleta, muitas vezes injusta, que reduziu pessoas a condições físicas. Este campeonato vem desmontar essa construção. Dentro das quatro linhas, não há espaço para pena, para paternalismo ou para qualquer forma de condescendência. Há intensidade, estratégia, contacto físico, leitura de jogo e uma competitividade que exige respeito. Ali, ninguém pede espaço. Conquista-o.

E isso obriga-nos a um exercício desconfortável, mas necessário: rever o nosso próprio olhar. Porque, na verdade, o problema nunca esteve nos atletas. Esteve sempre na forma como a sociedade escolheu vê-los. Estivemos mais ocupados em destacar aquilo que lhes falta do que em reconhecer aquilo que têm em abundância: talento, disciplina, resiliência e inteligência competitiva.

Angola, enquanto nação, conhece profundamente o significado de reconstrução e superação. A sua história recente é feita de recomeços, de resistência e de capacidade de se reinventar perante as adversidades. Talvez por isso este campeonato tenha um simbolismo ainda mais forte. Não se trata apenas de receber delegações estrangeiras.

Trata-se de acolher histórias de vida que dialogam com a própria história do país.

Este campeonato é, também, um teste à maturidade das nossas instituições e da nossa sociedade. Não basta organizar bem, cumprir horários e garantir logística. É preciso perceber o que fica depois. Que impacto terá este evento nas políticas públicas? Que mudanças irá provocar na forma como o desporto adaptado é encarado em Angola?

Que oportunidades serão criadas para jovens com deficiência que hoje ainda não encontram espaço para praticar desporto?

A verdadeira medida do sucesso não estará no número de equipas participantes nem na qualidade das cerimónias. Estará na capacidade de transformar este momento em ponto de viragem. Estará na decisão de investir de forma consistente no desporto inclusivo, de criar infra-estruturas acessíveis, de formar técnicos especializados e de dar visibilidade contínua a estas modalidades.

Há, também, um impacto invisível, mas talvez o mais importante. Está na mente de quem assiste. Está na criança que vê um jogo e passa a acreditar que o seu corpo não define os seus limites. Está no jovem que encontra ali uma referência. Está no cidadão comum que, pela primeira vez, deixa de ver a limitação física como ausência e passa a vê-la como uma forma diferente de estar e competir.

Os campeonatos passam. As luzes apagam-se, as bancadas esvaziam e a rotina regressa. Isso é inevitável. O que não pode ser inevitável é o esquecimento. Porque há momentos que exigem continuidade. Este é um deles.

Se, depois deste campeonato, tudo voltar ao mesmo, então teremos perdido uma oportunidade rara. Mas se, pelo contrário, este evento servir como catalisador de mudança, então Angola não terá apenas acolhido uma competição. Terá dado um passo firme na construção de uma sociedade mais justa, mais consciente e verdadeiramente inclusiva.

No fim, a questão não é desportiva. Nunca foi. A questão é humana. É sobre dignidade, reconhecimento e igualdade de oportunidades. É sobre a coragem de mudar mentalidades e de aceitar que o valor de uma pessoa não pode ser medido por aquilo que lhe falta, mas por aquilo que é capaz de fazer.

E talvez seja por isso que este campeonato é tão importante. Porque, no meio de passes, lançamentos e disputas intensas, há algo maior a acontecer. Não é apenas a bola que quiça de forma diferente.

Somos nós que temos a oportunidade de mudar a forma como olhamos o mundo - e uns aos outros.

*Jurista e Presidente do Clube Escola Desportiva Formigas do Cazenga