Julho, que passou há muito pouco tempo, foi o mês mais quente dos últimos 174 anos. Uma dissonância de todo o tamanho: calor excessivo, incêndios explosivos, inundações amazónicas.
Os recentes eventos climáticos extremos nos "States" e no vizinho Canadá, os registos mínimos - de forma continuada- de gelo na Antártica, a Grécia dos filósofos a arder, chuvas torrenciais em Espanha e enchentes nunca vividas na Eslovénia. A Coreia do Sul, o Japão, a China, Índia e o Brasil também não escaparam à fúria inclemente da "mãe Natureza", e enfrentaram cheias incontroláveis.
E Cape Town, a New Orleans africana, viu- impotente- a fúria do mar a engolir carros e casas. E Nova Iorque, a cidade do Jazz, com água pelo queixo e a não ver terra, em algumas zonas.
E multidões, multidões em fuga das suas zonas de origem, onde a vida atingiu o grau mais baixo de qualquer escala de dignidade humana.
E o Mediterrâneo, "o maior muro que a Europa ergueu" a encher-se de sangue, de morte, nomeadamente de crianças.
Viriato Soromenho Marques, filósofo, ambientalista, autor e académico, disse quase tudo: "Estamos a destruir o habitat da humanidade, mas também estamos a destruir a autoimagem que tínhamos de nós próprios. Só é responsável quem é livre e quem tem capacidade de se autoconter. Nós não temos" (In: Público, 19 de Agosto de 2023, Pg. 7).
Mas, não foi por falta de avisos. Os resultados dos erros na gestão da Terra estão aí, de forma inequívoca e indesmentível. E as evidências científicas são óbvias: a exploração que o homem está a fazer da natureza é insustentável.
E as consequências atingem todos os países, nada de ilusões.
Relativamente à situação actual, a Ecologia e o Ambiente tornaram-se o tema mais premente e sensível da vida quotidiana à escala universal e, em certa medida, constituem a única linguagem que nos devolve uma consciência verdadeiramente planetária do mundo actual.
Mas, resta-nos hoje, nomeadamente, a esperança, a ciência, o conhecimento, a educação. E a música.
O Jazz e uma visão optimista do futuro
Apesar das notas amargas dos compassos iniciais, e da minha condição de "idoso jovem" mantenho, teimosamente, uma ideia confiante acerca do futuro do Planeta. E continuo a acreditar na capacidade das gerações mais jovens.
"Espero perdurar por via dos que ficam vivos. Por mais dolorosa e triste que seja a morte, a vida tal como a conhecemos na Terra é infinita. As novas gerações sucedem-se ciclicamente e cabe sempre a elas a construção do nosso futuro colectivo", como sublinhou, num texto belíssimo e definitivo, já muito próxima do fim, por Covid-19, a imunologista Maria Sousa (1939- 2020), uma cientista de corpo inteiro.
Os jovens, um pouco por toda a parte, dão sinais de inconformismo face a ordens jurídicas expeditivas e medievais, querem fazer ouvir a sua voz, e vêm revelando que poderão conseguir mudar o mundo para melhor.
Há sempre alguém que resiste
Mas há sempre uma candeia / Dentro da própria desgraça/ Há sempre alguém que semeia /Canções no vento que passa.
Manuel Alegre (poeta, político, 1936 - )
E o Jazz em Angola? É inegável uma enorme irrupção de jovens músicos, instrumentistas e cantores, sintonizados com o Jazz e com as músicas improvisadas. E, tudo indica, que essa tendência irá não apenas manter-se, mas também, muito provavelmente, intensificar-se.
Por outro lado, regista-se um saudável cruzamento de gerações nos palcos e nos estúdios. E um compromisso claro com os princípios e valores do Jazz; música que integra as tendências mais recentes sem a exclusão das mais antigas e agrega às realidades e influências locais o que de melhor vai acontecendo noutras distantes latitudes: a magia das geografias rítmicas e a presença do policentrismo jazzístico.
Esta onda de calor musical, com sonoridades "Jazzy", que vai abater-se sobre Luanda, em Outubro, é benéfica e humana. E, importa sublinhar: Luanda não dorme nem se cala! E o Jazz, exalta a UNESCO: é um símbolo de unidade e paz; reforça o papel que a juventude desempenha na mudança social; o Jazz promove a inovação artística, a improvisação e as novas formas de expressão. E ainda: o Jazz estimula o diálogo intercultural e facilita a integração dos jovens.
Seria gravemente injusto e lacunar não reconhecer o trabalho, o empenhamento e a dedicação do jovem pianista angolano Dimbo Makiesse, criador e mentor da banda "AngoJazz", que nos últimos anos tem sido a "cara angolana" na cena jazzística nacional, recebendo aplausos de toda a parte, designadamente do pianista Herbie Hancock, genial pianista e compositor e Embaixador da Boa Vontade para o Diálogo Intercultural- UNESCO, o "Mr. International Jazz Day", no quadro das suas prestações em Luanda e Benguela nas sucessivas celebrações anuais alusivas ao 30 de Abril, Dia Internacional do Jazz, na TPA, Casa das Artes, no Camões, e no "Lodge" Kapembawé, na província de Benguela.
O pianista /tecladista é não apenas um dos mais categorizados e sensíveis estilistas da sua geração, um permanente e apaixonado estudioso da História do piano-jazz, mas também- e sobretudo- um dedicado organizador de eventos jazzy.
O 2º Festival Internacional AngoJazz, que -novamente- decorrerá sob sua batuta, é um tributo, justíssimo, ao saxofonista angolano Sanguito, que anda na estrada há aproximadamente quatro décadas, sempre swingão e com grande pedalada, mas longe de um justo reconhecimento.
O evento terá lugar no Palácio de Ferro, na baixa luandense, e decorrerá de 6 a 8 de Outubro. Os concertos terão início às 17H00 e no último dia, as portas abrirão mais cedo, às 15H00. E os espectáculos serão de entrada livre!!!
Dimbo conseguiu harmonizar parcerias e reunir apoios e boas-vontades.
São aguardados em Luanda músicos oriundos de França e do Brasil.
A parte angolana inclui várias bandas:
Angojazz, Sul Jazz (Benguela), Sons de Mayombe (Cabinda), CBB Brass Band of Corimba, The Groove Band, Jazzversando, Trio Convergente e Tuapandula Singer.
Dimbo e os seus companheiros vão- seguramente- enriquecer o percurso já trilhado por Sanguito, Mário Garnacho, Nanutu Fendes, Anabela Aya, Gary Sinedima, Do Dó Miranda, Fredy Mwankie, Joel Pedro, Tony Jackson, Terinho Munbanda & Ngola Jazz Trio. E também Irina Vasconcelos e Filipe Mukenga, João Oliveira e Kizua Gourgel, Sónia Cunha, Ndaka Yo Wiñi, Nino Jazz e Mário Gomes, Jack da Costa, Etokeko Jazz Quarteto, Jackson Nsaka, Katiliana & Sound Trip Band, Carlos Praia, Dalú Roger, Aylasa, Diana Cabango e a pioneira Afrikanita, entre outros artistas.
É Angola a inscrever o seu nome no mapa-múndi do Jazz, criando um Jazz de inspiração afro-angolana; incorporando ao corpo central do Jazz "mainstream" elementos de linhagens culturais e musicais angolanas. E é o convívio- essencial- entre músicos de polos diferentes, de percursos distintos, mas unidos no amor ao Jazz e rendidos à sua beleza imensa.
Oxalá o público compareça e empurre a parede do fundo do beco. O Jazz tem de ser para mais. Vamos alargar o círculo dos amigos do Jazz!n
P.S. No próximo "Até Jazz" falar-vos-ei do que viverei em Angra, nos Açores, onde acontecerá a 24ª edição do Festival Internacional de Jazz de Angra do Heroísmo, nos dias 4, 6 e 7 de Outubro. Se eu tivesse o dom da ubiquidade...também estaria em Luanda.
Em Luanda, uma nova onda de Jazz em Outubro
A cidade continuará "debruçada sobre o mar", como magistralmente cantou o artista Eleutério Sanches, enquanto conseguir enfrentar as alterações climáticas, ou talvez melhor, o caos climático, que nos atormentam os dias e noites.

