Num comunicado que assina na qualidade de Presidente de Angola e da União Africana em exercício, o Presidente angolano diz que observa com "inquietude a deterioração da situação de segurança e humanitária que se regista actualmente no Leste da RDC".
No mesmo documento, produzido no final do encontro com o seu homólogo congolês em Luanda, no final do dia de quinta-feira, 08, o Chefe de Estado angolano diz ainda que constata, "com a mais viva preocupação", as consequências e as ameaças que decorrem da instabilidade emergente no leste congolês mas parece ter recusado com firmeza o pedido de Tshisekedi de reavivar Luanda como palco negocial para a paz nos Grandes Lagos.
Pelo contrário, neste documento diz igualmente que a crescente retoma da instabilidade "põe em causa os esforços incansáveis e significativos" que foram conseguidos no contexto do Conselho de Segurança das Nações Unidas ou no decurso das negociações que tiveram como palco o Catar ou o acordo de paz assinado em Washington, que teve o Presidente Donald Trump como mediador.
E acrescenta, "sem reserva", que tais esforços são "a única via capaz de levar à redução da tensão que persiste entre a RDC e o Ruanda, e ao entendimento entre ambos os países".
Esta frase no comunicado mostra claramente que João Lourenço não tem disponibilidade para retomar o seu protagonismo no âmbito do Processo de Luanda como, ao que tudo indica, Tshisekedi pretendia depois do falhanço do acordo assinado na capital dos EUA em Junho de 2025.
O texto assinado por Lourenço lança um apelo ao cessar-fogo imediato e incondicional entre as partes em conflito e à cessação de todas as hostilidades, ao mesmo tempo que exorta os governos da RDC, do Ruanda e o M23 a "respeitarem e cumprirem os acordos assinados entre si"
Isso, porque entende que essa é a única via para encontrar "uma solução pacífica do conflito e a salvaguarda dos direitos e interesses das populações, em conformidade com os processos de Washington e de Doha".
Por fim, o Presidente da República de Angola e Presidente em Exercício da União Africana, apela a todos os actores da comunidade internacional a unirem-se em torno dos esforços que estão a ser desenvolvidos com o objectivo de ser restaurada a paz e a estabilidade na República Democrática do Congo.
Ainda em Luanda, e numa resposta devidamente preparada com antecedência, Félix Tshisekedi libertou um comunicado onde garante que, no que toca ao seu governo, está "aberto e pronto a alinhar com o cessar-fogo" defendido pelo Presidente João Lourenço.
Falando aos jornalistas, de acordo com uma nota da Presidência angolana, Félix Tshisekedi aproveitou para agradecer os esforços do Presidente da República da Angola e Presidente da União Africana, pelo seu "engajamento incessante para a paz" na RDC.
Tshisekedi lembrou que o seu homólogo angolano "não tem poupado forças para se chegar à paz" na RDC.
Processo de Luanda enterrado para sempre?
Provavelmente, com este comunicado, João Lourenço enterra para sempre o Processo de Luanda, no qual, ao longo dos últimos anos, se concentrou uma boa parte das energias para conseguir pacificar o leste da República Democrática do Congo, embora "para sempre" possa ser uma terminologia excessiva considerando que existe uma nítida imrevisibilidade da situação no continente africano e no mundo nos dias que correm.
É que João Lourenço, poucos meses após assumir a Presidência da União Africana, sem que nunca o tenha referido publicamente, não gostou de ver que Tshisekedi e o ruandês Paul Kagame se encontraram nas suas costas em Doha, no Catar, em Março de 2025, para dar inicio a uma nova frente negocial mediada pelo Emir do país, o Xeque Tamim Al-Thani, e pelo norte-americano Donald Trump.
Esse encontro levou a um acordo, que viria a ser assinado em Junho, em Washington, no que seria uma das mais citadas das "oito guerras" que o Presidente dos EUA se gaba de ter extinguido mas que, agora, se percebe que está totalmente morto, devido ao regresso ás conquistas territoriais do M23, os guerrilheiros apoiados por Kigali.
Tal acordo deixou de ter pés para andar e está hoje sob um campo "minado" pelos guerrilheiros do M23, apoiados por Kigali, que não apenas voltaram a pegar em armas, mas nunca as chegaram a depor.
E isso viu-se com as forças lideradas por Corneille Nangaa a avançar no terreno, especialmente no Kivu Sul, com tomadas de posições sucessivas em áreas de interesse mineiro estratégico, a ponto de chegarem mesmo a ameaçar avançar para o Katanga.
Na altura do acordo de Washington João Lourenço abandonou a liderança do Processo de Luanda, dando sinais de grande desconforto, até porque detinha a liderança da União Africana, esperando para ver como fluía o acordo mediado por Donald Trump.
Correu mal. Como se vê. E, agora, para atalhar caminho, ao que tudo indica, porque nem os congoleses nem a parte angolana avançam detalhes do conteúdo destas conversas, Félix Tshisekedi deixou de vez Paul Kagame a falar sozinho e voltou a ter João Lourenço como conselheiro e visa o seu regresso à condição de mediador...
O que o congolês pretendia, pelo menos até esta quinta-feira, 08, era reactivar o Processo de Luanda, uma tentativa que pode ser considerada desesperada depois das fortes expectativas de que o empenho pessoal de Donald Trump poderia dar a consistência que faltava à palavra dos protagonistas tanto da instabilidade como do acordo de paz assinado em Washington.
Recorde-se que (ver links em baixo) a RDC acusa o M23 de ser uma ferramenta ao serviço do Ruanda, que o financia e arma, para explorar, com a cobertura da instabilidade, os imensos recursos naturais do leste congolês, com destaque para o coltão, o cobalto e terras raras.
E o mesmo M23 está actualmente a avançar para sul, com alguma e perigosa solidez, na perspectiva angolana, visto que se chegar ao Katanga, antiga região próxima de Angola hoje dividida em duas províncias distintas, pode começar a desestabilizar também esta geografia na fronteira com a Lunda Norte, região igualmente rica em recursos naturais...












