Em entrevista a um canal norte-americano, Steve Witkoff, mostrou-se igualmente surpreendido com a surpresa mostrada por Donald Trump, porque a pergunta formulada pelo Presidente norte-americano encerra uma mudança radical de perspectiva sobre a iminência de uma guerra no Golfo Pérsico.

Afinal, se a interpretação das palavras de Trump for aquela que sucede ser a mais clara e evidente, então o Presidente dos EUA não quer uma guerra com o Irão, quer que o Irão fique com medo de uma guerra com os Estados Unidos e se "renda" sem que seja preciso disparar um único míssil.

Na perspectiva de Donald Trump, depois de enviar a sua "maravilhosa armada" para o Mar de Omã, liderada pelo porta-aviões USS Abraham Lincoln, que foi reforçada com o envio do USS Gerald R. Ford, o maior porta-aviões do mundo, acabado de entrar no Mar Mediterrâneo, isso deveria bastar para Teerão se render e aceitar todas as condições de Washington.

É que, além dos dois porta-aviões, que são acompanhados por dezenas de navios de guerra, tanto de superfície como submarinos nucleares, os EUA deslocaram para as suas bases no leste europeu e Médio Oriente centenas de aviões de guerra, aviões-espiões, reabastecedores, dezenas de sistemas de defesa antiaérea e milhares de militares...

Nem assim, para espanto de Donald Trump, o Irão mostra sinais de se querer render, como Steve Witkoff fez saber que o Presidente queria em primeira instância ao enviar para o Médio Oriente a maior força militar das últimas décadas, como, de resto, os líderes iranianos não se cansam de sublinhar.

Mais que isso. Ao invés de mostrarem qualquer indício de que o Irão possa vir a aceitar incondicionalmente as condições dos EUA para travar o ataque que quase todos os analistas viam como iminente antes da frase de Witkoff ao canal Fox News, o Presidente do Irão, Massoud Pezeshkian, reiterou que qualquer ataque norte-americano ou israelita será o tiro de partida para uma guerra total.

Isto, porque já é dado como certo que os EUA têm em curso uma gigantesca operação de mudança de regime em Teerão, de onde querem desalojar o poder dos aiatolas, que vigora desde a "revolução islâmica" de 1979, e que esse plano tem várias camadas, sendo a última um ataque de grande escala contra o Irão envolvendo todos os meios norte-americanos e israelitas no Médio Oriente.

Mas a primeira dessas camadas é a tentativa de levar o Irão a aceitar as três condições que, se acontecer, deixam o país à mercê das forças de Israel, que, sem grandes dificuldades, destronariam o aiatola Ali Khamenei do poder em Teerão.

Essas condições são o Irão desistir do seu programa nuclear, devido á remota hipótese de poder gerar uma bomba atómica, a redução para mínimos do seu programa de desenvolvimento de mísseis balísticos de médio e longo alcance, e o fim das ligações de Teerão aos seus aliados na região, desde o Hezbollah, no Líbano, aos Houthis, no Iémen, passando pela gigantescas milícias xiitas do Iraque e da Síria...

Se tal viesse a suceder, os EUA não precisariam, como apontou recentemente o major-general Agostinho Costa, de disparar um único tiro para derrubar o regime dos aiatolas no Irão porque Israel, sem a ameaça dos misseis e dos seus "proxys" regionais, faria esse trabalho sem grandes dificuldades.

Só que, na Pérsia, uma civilização com quase três mil anos de existência contínua, nada é assim tão simples, porque, nota ainda Agostinho Costa, há mais de 30 anos que Teerão se prepara para uma guerra com os EUA, não com Israel...

Desde logo armazenando uma quantidade de misseis, muitos deles hipersónicos, cujo número ninguém conhece, com os quais destruiria, em caso de conflito aberto, as bases norte-americanas na região, a indústria energética dos aliados de Washington na região - Arábia Saudita, EAU, Kuwait, Catar, Bahrein... - e Israel teria pela frente um problema muito superior ao que teve em Junho de 2025, durante a "guerra dos 12 dias".

Nessa "guerra dos 12 dias", iniciada por Israel, o Irão disparou largas centenas de misseis sobre as cidades e bases militares israelitas demonstrando, para surpresa generalizada entre os analistas, que a famosa "cúpula de ferro", o mais sofisticado sistema de defesa antimíssil do mundo, é, afinal, impotente contra os projecteis hipersónicos disparados a partir do Irão, a mais de 2 mil kms.

Além disso, o que seria um gigantesco imbróglio para Donald Trump, e como os iranianos já advertiram que sucederia de imediato, o Estreito de Ormuz, por onde passa mais de 25% do petróleo consumido diariamente em todo o mundo e sensivelmente a mesma quantidade de gás natural, seria fechado de imediato, fazendo os preços do barril bater recordes nunca vistos...

É que esse bloqueio é de uma facilidade tremenda se o Irão assim o quiser fazer, não precisando sequer de minar as águas daquele afunilado corredor marítimo entre o Golfo Pérsico e o Oceano Índico, bastaria afundar, como nota Mohammad Marandi, analista iraniano e professor da Universidade de Teerão, dois navios de médio porte no local...

Isto, porque, apesar de ter 33 kms de largura, o Estreito de Ormuz apenas conta com pouco mais de 2,5 kms onde é possível navegar para os modernos petroleiros de grande calado, o que deixaria milhares deles parados no mar por largas semanas, mesmo depois de o conflito estar terminado...

E com o barril acima dos 100 USD, sendo que alguns analistas dos mercados, como os da JP Morgan e da Goldman Sachs, admitem que um cenário de mais de 200 USD por barril seria perfeitamente normal, Donald Trump, que já tem em mãos uma severa crise económica devido ao desemprego e à inflação, veria totalmente comprometidos os seus objectivos para as eleições intercalares de Novembro...

Além disso, como o próprio já o admitiu em público, perdendo as maiorias no Senado e na Câmara dos Representantes, no Congresso, a oposição democrata, no momento em que os EUA, e o mundo, estão assoberbados pelo maior escândalo de pedofilia de sempre, encerrado nos "Ficheiros Epstein", onde o nome de Trump aparece citado milhares de vezes, além de aparecer em dezenas de vídeos comprometedores, não iria perder a oportunidade de abrir um processo de destituição (impeachment) contra si.

Portanto, até que ponto, questionam alguns analistas, como Jacques Baud, antigo coronel da intelligentsia suíço e da NATO, com volumosa obra sobre conflitos no Médio Oriente, Donald Trump iria arriscar um cenário destes, mesmo que esteja sobre forte pressão de Israel e do seu lobby nos EUA, com um ataque ao Irão?

A resposta não é evidente, mas parece que o Presidente norte-americano, estará a tirar o dedo do gatilho quando, ainda na semana passada disse que o Irão tinha 10 dias para aceitar um acordo e agora já veio falar em meses, retirando ardor à ferida, o que levou mesmo os mercados petrolíferos a reduzir o risco nos preços do barril de crude.

A não ser, como também admitem analistas como Jeffrey Sachs ou John Mearsheimer, professores e reconhecidos especialistas em política internacional e geoestratégia, das Universidades de Columbia e Chicago, Trump esteja a jogar o "perigoso jogo" do teatro negocial para, de novo, como sucedeu em Junho de 2025, distrair os iranianos antes de lhes desferir um ataque decapitante do regime em Teerão.

É que, em Junho do ano passado, o ataque norte-americano, com os bombardeiros furtivos B-2, sobre a infra-estruturas nuclear iraniana, aconteceu precisamente 24 horas de uma nova ronda negocial precisamente sobre o programa nuclear iraniano...

E os EUA agendaram para a próxima quinta-feira, mais uma ronda negocial com o Irão, envolvendo o seu programa nuclear, quando se sabe que o cerne da questão para Washington e Telavive é obrigar Teerão a desfazer-se da sua capacidade de dissuasão militar que consiste no seu sofisticado e moderno programa de misseis de longo alcance.

Trump tem ainda sobre o tampo da sua mesa de trabalho um outro nó para desatar (ver links em baixo) que é o comprometido apoio da China e da Rússia ao Irão, com um vai e vem de cargueiros aéreos que nas últimas semanas é incessante nso aeroportos iranianos.