Amanhã, terça-feira, 24 de Fevereiro de 2026, passam exactamente quatro anos do início da invasão russa da Ucrânia que deu estatuto de guerra aberta a um conflito de baixa intensidade que se vivia no leste ucraniano desde 2014, depois da auto-proclamada independência das duas regiões do Donbass, Donetsk e Lugansk.
Num contexto geográfico em que todo o leste da Ucrânia, antiga república da União Soviética, que colapsou em 1990, é russófono e russófilo, de língua e cultura russas enraizadas historicamente, a independência do Donbass surge em 2014 "naturalmente".
É que nesse ano, em Kiev, acontece o golpe de Estado apoiado e organizado a partir dos EUA e da União Europeia, como diversos registos demonstram de forma inequívoca, desde logo a intervenção da então sub-secretária de Estado Victoria Nuland, é deposto o Presidente pró-russo Vikto9r Yanukovich.
Este contexto de mudança de regime em Kiev de um Governo inclinado para Leste para um virado para Ocidente, com a eleição do Presidente Petro Poroshenko, que em 2019 perde as eleições para o actual, Volodymyr Zelensky, que passou a ter como missão constitucional a entrada da Ucrânia na NATO e na União Europeia, no leste russófono ucraniano, gerou-se o movimento oposto, em direcção a Moscovo.
E é neste caldo de disputa geoestratégica, onde o Ocidente, liderado por Washington, vê na Ucrânia uma plataforma de contenção da Rússia, alargando a NATO, a Aliança Atlântica, para as fronteiras da Federação Russa, que ficam a menos de 500 kms da capital russa, e, logo, dos misseis americanos do seu "coração" que é Moscovo.
O avanço que devia ter sido um recuo
Este ponto é fundamental para o cenário que marca hoje o leste europeu, porque a Rússia viu neste avanço da NATO sobre as suas fronteiras mais um passo, este decisivo, iniciado com o desmantelamento da então URSS, em 1990, uma "ameaça existencial" para a qual o Presidente Vladimir Putin já tinha avisado, em 2008, na Conferência de Segurança de Munique, na Alemanha, que teria uma resposta de Moscovo clara e musculada.
Essa a razão pela qual, logo em Fevereiro de 2022, quando ordenou o avanço dos seus blindados sobre a Ucrânia, Vladimir Putin colocou a iminente adesão da Ucrânia à NATO como a razão maior para a sua denominada "operação militar especial", de forma a evitar chamar-lhe uma guerra, porque isso envolveria constitucionalmente a necessidade de mobilizar toda a Federação Russa para o esforço militar na frente ucraniana.
Há muito que a questão do avanço da NATO, a organização militar criada em 1949 pelos EUA de forma a conter o avanço da então União Soviética e o seu Pacto de Varsóvia, o equivalente à Aliança Atlântica, para leste, é o mais flamejante ponto de discórdia entre Moscovo e os países ocidentais, como Putin não se cansa de lembrar.
E a razão é simples: aquando da queda da URSS, logo no início da década de 1990, era Boris Ieltsin Presidente da Rússia, que, apesar do seu permanente estado de embriaguez, como ficou conhecido à época, exigiu dos líderes norte-americano, George H. Bush, e europeus, o alemão Helmut Kohl, e o francês, François Miterrand, que a NATO, no rasto do desmoronamento do império soviético não se aproveitaria para avançar sobre as fronteiras russas através dos países do leste europeu até aí satélites de Moscovo.
Isso foi prometido a Boris Ieltsin nesse ano de 1991, como o Kremlin já demonstrou em documentação existente nos arquivos russos, era então o actual Presidente Vladimir Putin um jovem aspirante a político em São Petersburgo, após abandonar a carreira de "espião" no KGB, onde abandonava a "farda" de ambicioso tenente-coronel, o que lhe permitiu manter essa promessa bem viva na memória.
Falham as promessas, avança a guerra
Promessa que foi imediatamente enterrada com os primeiros avanços da NATO para leste, porque países como a Polónia, República Checa e Hungria, logo nesse ano abriram processos de adesão à Aliança Atlântica, acabando por aderir formalmente em 1999, que era tudo o que Moscovo mais temia... mas que iria ainda piorar, porque na década seguinte, todos os países do bloco do Leste europeu, com excepção da Ucrânia, entraram na NATO e na União Europeia.
A olhar para todos estes desenvolvimentos, em Moscovo, estava, desde 1996, um jovem que se mantinha ambicioso como sempre, mas já com a farda de político civil, desta feita integrado na equipa de Boris Ieltsin, que, em 1999, o nomeia primeiro-ministro, numa caminhada rumo ao topo que culminaria com a sua nomeação pelo Parlamento para Presidente interino da Federação Russa em 2000, depois da renúncia de Ieltsin, por razões de "saúde", sendo formalmente eleito em 2004.
Desde então, Putin está à frente dos destinos da Federação, como Presidente ou como primeiro-ministro, fazendo eleger intercaladamente para chefe do Kremlin o seu mais famoso "compagnon de route", Dmitri Medvedev, que nunca deixou de seguir as suas orientações, o que fazia dele o Presidente de facto, mesmo que não de jure, da Rússia.
E foi logo após a sua eleição formal para Presidente que verbalizou, provavelmente, a sua mais famosa frase, considerando, em 2025, a queda da União Soviética (URSS) como a "maior catástrofe geopolítica do século XX", uma "tragédia histórica" que levou à "desintegração da Rússia histórica", na formulação registada pela memória russa recente.
Enquanto isso, na Ucrânia, para onde o mundo começara a virar os olhos no fim da longa e turbulenta década inicial de independência, em 2004, com a denominada "Revolução Laranja", uma das primeiras "primaveras coloridas" de sempre, que voi gerada de forma para contestar a vitória do Presidente pró-russo Yanukovich, levando à anulação das eleições.
O veneno "laranja" adormecido acordou em Kiev
O mesmo Viktor Yanukovich que em 2010, com esmagador apoio do leste ucraniano, especialmente da agora famosa Novorossya, constituída pelas regiões fronteiriças com a Rússia, foi eleito Presidente, em eleições reconhecidas como legítimas pela OSCE (Organização para a Cooperação e Segurança da Europa) e que, em 2014, no "golpe de Maidan" foi novamente afastado no meio de abrasivos e letais tumultos nas ruas de Kiev orquestrados em Washington e Bruxelas, como quase todas as "revoluções coloridas" que no Médio Oriente e no Norte de África ficaram famosas como "primaveras árabes".
Se com Petro Poroshenko, em 2015, Kiev virou as costas a Moscovo, com Volodymyr Zelensky, a partir de 2019, a Ucrânia avançou firme e decidida para Ocidente, dando início aos processos de adesão à União Europeia, que Moscovo tolera, e à NATO, sobre o qual o Kremlin mostroiu o que pensa sobre isso lançando os seus "tanques" sobre a fronteira ucraniana, sob a justificação de estar a defender a população russófona do Donbass.
De facto, esse elemento existia então no terreno, visto que as regiões de Donetsk e Lugansk, que tinham auto-proclamado a independência de Kiev em 2014, após o golpe que afastou o Presidente Yanukovich, estavam a ser alvo de uma guerra de baixa intensidade por parte das forças leais a Kiev, como o reconheceu repetidamente a OSCE, com mais de 14 mil mortos registados entre esse ano e 2022.
Hoje, 23 de Fevereiro de 2026, véspera do 4º "aniversário" daquela que já é a mais longa e mortífera guerra no continente europeu desde o fim da II Guerra Mundial, em 1945, uma saída negociada e pacífica para a contenda esta longe de emergir, apesar dos esforços em curso sob mediação norte-americana, permanentemente torpedeada pelos aliados europeus de Kiev e dos... EUA.
A guerra que ninguém parece estar a ganhar
Os objectivos dos russos estão por conseguir, mesmo que a adesão da Ucrânia à NATO já esteja fora da agenda de Kiev, como Zelensky chegou a admitir, embora volta e meia insista que o futuro da Ucrânia "só pode ser decidido pelos ucranianos", mas mantêm-se quase inalterados desde 2022, sendo mesmo bem conhecidos, no essencial, que são a neutralidade de Kiev (fora da Aliança Atlântica), o desenho de uma nova arquitectura de segurança para a Europa (processo em negociação com os EUA) e a Ucrânia sem quaisquer que sejam forças ocidentais no seu território.
A Ucrânia mantém, mesmo que aqui e ali aligeirando as exigências, incluindo as territoriais, mas que os analistas consideram ser isso apenas o "testar das águas" em Moscovo, que são exigir a saída de todas as tropas russas das suas fronteiras históricas, sem esquecer a Crimeia, aderir à União Europeia, exigir a Moscovo o pagamento da reconstrução e obter dos EUA garantias de segurança com a presença de forças militares da NATO no país para estancar eventuais novas "aventuras" de Moscovo.
Ora, se em Março de 2022, semanas depois da invasão russa, o intrépido primeiro-ministro britânico, Boris Johnson, aterrou em Kiev com a força do respaldo de Washington, então sob comando do Presidente Joe Biden, para obrigar Zelensky a abandonar as negociações em curso com os russos - já havia, inclusive, um documento assinado - e eliminar ali a possibilidade de paz negociada, agora, é o mesmo incendiário que está a pugnar para uma escalada militar envolvendo mesmo a NATO num confronto directo com os russos.
É que, numa entrevista à BBC, a televisão estatal do Reino Unido, Boris Johnson, na véspera do 4º "aniversário" da entrada da Rússia na Ucrânia, defendeu que Londres deve enviar já e de imediato forças militares para o terreno, mesmo sabendo que em Moscovo Vladimir Putin já avisou que a presença de formas de países da NATO na Ucrânia seriam "alvos legítimos imediatos" para as unidades militares russas.
O que se sabe, e Boris Johnson, apesar de manter um estratégico visual "descomprometido" devido ao seu famoso cabelo no ar, também sabe, é que qualquer confronto entre militares da NATO, como são os britânicos, e tropa russa, seria, literalmente, o tiro de partida para a III Guerra Mundial.
Boris, o perigo atómico
Isso mesmo ficou registado por Joe Biden e Vladimir Putin que, em simultâneo, o que não pode ter sido por acaso, em 2022, semanas depois do conflito ter início, admitiram que no dia em que for disparado um tiro certeiro entre a NATO e a Federação Russa, uma escalada até ao recurso ao arsenal nuclear de um e do outro lado, os maiores do mundo, por sinal, seria "inevitável".
Muito mudou, entretanto, com a chegada de Donald Trump, à Casa Branca, em Janeiro de 2025, desde logo com o fade out do fornecimento ilimitado de dinheiro e armas por Washington a Kiev, deixando o Presidente dos EUA logo que assumiu o cargo uma frase que não tem outra hermenêutica que não seja o início do desligamento da ficha: "Esta é uma guerra de Biden, não minha!".
É certo que não desligou a ficha totalmente ainda, mas o fluxo de armas e de dinheiro para Kiev oriundas dos EUA tem vindo a diminuir, exigindo Trump que os países europeus substituam o fluxo do apoio norte-americano, dando corpo ao que os seus líderes, especialmente a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, e a sua chefe da diplomacia, Kaja Kallas, dizem ser o objectivo de Bruxelas: "vergar a Rússia sobre os seus joelhos no campo de batalha".
O problema de Bruxelas é que, segundo admitiu o chanceler alemão, Friedrich Merz, depois de terem sido entregues a Kiev todos os sistemas de armas disponíveis, esvaziando os arsenais europeus, de nada serviu, porque a Rússia não foi nem aparenta estar prestes a ser "vergada sobre os seus joelhos" no campo de batalha.
É a economia, Kremlin!
O que não quer dizer que o Kremlin não enfrente problemas sérios, desde logo económicos, com os 20 pacotes de sanções que os europeus dispararam contra Moscovo nestes 4 anos, as sanções norte-americanas... umas e outras incidindo sem clemência sobre a indústria petrolífera russa, que é, sem sombras de dúvidas, a mais relevante fonte de receitas para alimentar o esforço de guerra na Ucrânia.
Além disso, sem se poder aceder a informação minimamente sólida, tanto Kiev como Moscovo têm sofrido baixas, entre feridos e mortos, na ordem das centenas de milhares, e, ao fim de quatro anos, esse pode ser um factor decisivo para um desfecho negociado para esta guerra...
O que, a verificar-se, afectaria mais o lado ucraniano porque conta com um universo de recrutamento de soldados muito inferior ao lado russo e, além disso, sabe-se que nestes quatro anos a população ucraniana residente no país baixou de mais de 40 milhões para menos de 30 actualmente depois da debandada registada para fugir aos efeitos devastadores da guerra, sendo que tal é igualmente verificado entre as fileiras do Exército, com centenas de milhares de deserções oficiais, um problema reconhecido pelo próprio Ministério da Defesa em Kiev.
Mais três anos de... poder!
E quando se poderia pensar que, neste contexto, de evidentes dificuldades nos dois lados das trincheiras, se estaria numa fase mais propícia para que a mesa das negociações mediadas pelos EUA tivesse como resultado o fade out para as hostilidades, eis que o Presidente Volodymyr Zelensky veio, na semana passada, "decretar" a preparação do país para pelo menos mais três anos de guerra, que é o mesmo que mais três anos de poder para si.
É que as eleições Presidenciais a que se terá de submeter mais cedo ou mais tarde, esão a ser adiadas desde Maio de 2024, devido à Lei Marcial em vigo no país, e das quais Zelensky procura fugir como pode, não apenas porque o país não tem condições para realizar eleições, muito porque a sua popularidade está nos níveis mais baixos de sempre...
A resposta russa foi um dos mais intensos e violentos ataques com laregas dezenas de misseis, incluindo projecteis hipersónicos, e centenas de drones, sobre as infra-estruturas energéticas ucranianas, unidades fabris militares, nós ferroviários e rodoviários, que alguns analistas defendem que visam agora separar o oeste do leste da Ucrânia...
Já ninguém acredita numa saída pacífica para breve, mas enquanto o Kremlin repete que vai conseguir os seus objectivos sejam pela via negociada, seja pela via militar, Kiev aposta tudo no envolvimento da NATO no conflito, com a ajuda de Boris Johnson... a não ser que Steve Witkoff, o enviado de Donald Trump para as conversações entre ucranianos e russos esteja certo na sua "adivinhação" quando diz, em entrevista recente à Fox News, que nas próximas semanas pode acontecer um encontro a três - Trump, Putin e Zelensky - que seria o encerramento desde capítulo nefasto da História da Humanidade.












