Já havia sinais de que a União Europeia e o Reino Unido são os maiores obstáculos à paz na Ucrânia desde que o então primeiro-ministro britânico Boris Johnson provocou o descarrilamento das negociações entre russos e ucranianos em Março de 2022.
A invasão russa tinha sido lançada semanas antes, a 24 de Fevereiro, e, em finais de Março, com o apoio do então Presidente dos EUA, Joe Biden, Boris Johnson foi a Kiev obrigar Volodymyr Zelensky a abandonar o diálogo com os russos em Istambul, Turquia.
De imediato seguiram-se as declarações explosivas da presidente da Comissão Europeia, Ursula Leyn, que queria ver "a Rússia ajoelhada e humilhada no campo de batalha", apoiadas com especial fervor pela Polónia, Alemanha, França e os países Bálticos.
Ao mesmo tempo que em Bruxelas começavam a ser aplicadas a Moscovo em sucessivos pacotes as mais duras sanções económicas algumas vez aplicadas a um país, tendo o 20º sido anunciado na semana passada.
O frémito sancionatório em Bruxelas foi e é de tal ordem que a economia europeia está a colapsar com o fecho das torneiras do gás e do crude baratos que chegavam da Rússia, garantindo a competitividade da sua indústria, especialmente da alemã.
Mas, apesar de começar a haver sinais de ruptura dentro da União Europeia quanto a esta política, com a França e a Alemanha a defender agora, quando a guerra chega ao seu 4º ano, o retomar das relações diplomáticas com Moscovo e com o Presidente Vladimir Putin.
Isto, quando Donald Trump regressou à Casa Branca, em 20 de Janeiro deste ano, e tudo mudou na capacidade dos países da NATO para implodir quaisquer tentativas de encontrar uma solução negociada para a guerra na Ucrânia.
Trump queria acabar com ela em 24 horas, depois em 90 dias, e agora, quando já admite ser o osso mais duro de roer nos seus esforços para mediar conflitos, propõe que o conflito termine antes de Junho deste ano.
Sendo já claro que em Washington se vê como urgente acabar com esta guerra, até porque com as eleições intercalares de Novembro, Donald Trump tem mesmo de se e empenhar na política interna se não quiser que a inflação e o desemprego o façam perder as maiores no Senado e na Câmara dos Representantes, no Congresso.
Além disso, o Presidente norte-americano tem à perna o escândalo dos "Ficheiros Epstein", o maior caso de pedofilia e tráfico sexual de menores do mundo conhecido, como seu nome a ser neles citado milhares de vezes.
Mas se os EUA, pelo menos a Administração Trump, porque há especialistas, como o antigo analista da CIA, Larry Johnson, que defendem que as secretas norte-americanas estão a fazer contravapor, querem acabar com o conflito, entre os seus aliados europeus, essa está longe de ser a realidade.
E agora isso ficou ainda mais claro quando, segundo os media russos, o Kremlin está a apontar o dedo à Polónia como o país que ajudou Kiev a organizar o atentado à vida do vice-director dos serviços secretos russos (FSB) e uma das figuras de proa das negociações de paz que decorrem em Abu Dhabi.
O general Vladimir Alekseyev foi alvejado com três tiros nas costas por um cidadão russo, Lyubomir Korba, no final da semana passada que foi, entretanto, detido no fim-de-semana no Dubai, para onde conseguiu fugir, naquele que foi um dos mais graves atentados contra figuras por operacionais ao serviço de Kiev. Entretanto, foi igualmente detido um seu cúmplice, Viktor Vasin, também de nacionalidade russa.
Vladimir Alekseyev não morreu, nem morreram, como já veio dizer o porta-voz do Kremlin, Dmitri Peskov, as negociações de paz entre Kiev, Moscovo e os EUA, mas a Rússia está a apontar o dedo às secretas polacas como estando por detrás do atentado.
E isso pode mudar tudo... ou quase tudo. Uma das questões que pode mudar de figurino é clarificar quem quer e quem não quer a paz.
Os europeus, afastados e ignorados por russos e norte-americanos, porque nem sequer são convidados para as rondas negociais, não querem, estando empenhados, pelo contrário, em fazer descarrilar o processo mediado por Trump.
Porque até em Kiev parece ser cada vez mais evidente que se está a erguer em torno de Zelensky uma ala poderosa que pugna pela paz, mesmo que ele não a queira por significar que manter o cargo não é compatível com a paz porque a este terá de se suceder as eleições, com um atraso de quase dois anos, e todas as sondagens assim o apontam.
Depois de o seu novo ministro da Defesa e um dos seus mais próximos aliados, terem vindo a público dizer que o país já não tem condições para manter uma guerra com a Rússia, foi agora a vez do seu ministro dos Negócios Estrangeiros, Andrii Sybiha, vir publicamente dizer que não resta alternativa a um tête-à-tête de Zelensky com Putin porque a guerra tem de acabar.
Isto, quando o FSB russo, acusa directamente os serviços secretos polacos de terem ajudado os ucranianos a organizar o atentado, perpetrado por Lyubomir Korba, à vida do general Alekseyev, que, além de ser o seu nº2, é uma das figuras por detrás das negociações de paz de Abu Dhabi, o que tem um simbolismo ainda maior.
Há, no entanto, uma garantia; os russos estão empenhados em não desbaratar o papel de mediador de Donald Trump, garantindo que não dão quaisquer motivos para que este se afaste dessa condições e papel.
E um dos exemplo é que, mesmo quando os líderes europeus mais frenéticos na defesa da continuação da guerra com a Rússia, de onde se destacam, além dos líderes da União Europeia, o primeiro-ministro polaco, Donald Tusk, repetem, insistentemente, que Moscovo se prepara para atacar a NATO, estes repetem, até à exaustão que tal é um disparate.
Vladimir Putin já o disse, dizendo mesmo ser "um grande disparate" alguém achar que a Rússia tem em cima da mesa planos para atacar países da NATO, e, agora, o seu ministro dos Negócios Estrangeiros, Sergei Lavrov, retomou o tema, mas com uma nuance.
Ao que tudo indica, para que a mensagem de que Moscovo não quer nem pensa atacar os países europeus da NATO, Lavrov acrescentou que um tal cenário só teria cabimento "se a Rússia for atacado primeiro".
"Nós não temos intenção nenhuma de atacar a Europa. Não há razão nenhuma para isso actualmente", disse o chefe da diplomacia russa numa entrevista à NTV turca, onde deixou, todavia, um alerta: "Se formos atacados, terão uma resposta militar devastadora", numa clara referência ao arsenal nuclear.
Nesta entrevista, Sergei Lavrov não apenas repetiu os argumentos de Putin, indo mais longe na lógica comum e óbvia: "Se a Europa ameaçar a Rússia e se preparar para uma guerra com a Rússia e iniciar um ataque à Federação Russa, isso levará a uma resposta militar rápida e devastadora do nosso lado, com todas as nossas capacidades militares disponíveis".
Ora, esta declaração de Lavrov diz o que já se sabia, que um ataque à Rússia terá uma resposta militar e que se esse ataque for visto como existencial, Moscovo, como, de resto, já tinha sido anunciado por Vladimir Putin, serão abertas as portas dos paióis atómicos.
Claramente, com estas palavras, Lavrov, que, como se sabe e foi dito por vários analistas, não considera os líderes europeus como sendo bons líderes, sequer inteligentes, pretende dizer o óbvio para que os europeus ocidentais, finalmente, percebam duas coisas.
Que a existir uma guerra entre a Rússia e a Europa Ocidental, isso será uma guerra definitiva e representa um Armagedão nuclear... e que é falta de bom senso dizer-se que Moscovo está a planear um ataque militar a qualquer país da NATO.
Enquanto as negociações de paz não dão resultados concretos, além de trocas de prisioneiros e de corpos de soldados caídos em combate, a guerra continua com Moscovo a apostar na destruição das infra-estruturas energéticas e logísticas para pressionar Kiev a ceder.
Do lado ucraniano, como explicou Volodymyr Zelensky, a prioridade é atacar a indústria petrolífera russa, incluindo oleodutos e gasodutos, navios de transporte de crude, de forma a tirar "as fontes de rendimento que permitem comprar as armas com que atacam a Ucrânia".
Isto, quando começam, esta manhã de segunda-feira, 09, a surgir rumores nos canais de guerra nas redes sociais sobre uma grande contra-ofensiva ucraniana na região de Zaporizhia e Donetsk, com o envolvimento de milhares de soldados e equipamento pesado, aproveitando o momento em que os terminais da Starlink de Elon Musk foram desligados, deixando, alegadamente, os russos sem linha de comando funcional e eficaz activa.
Para já, ninguém parece querer fazer cedências às exigências para baixar as armas.
E essa são as mesmas desde há alguns anos (ver links em baixo). Em síntese, os russos querem os territórios anexados, Kiev fora da NATO e sem tropa ocidental no país, enquanto os ucranianos exigem que a Rússia devolva a geografia ocupada e pague a reconstrução do país.











