Antes da criação da Unita em março 1966, Jonas Savimbi tinha-se aproximado em 1960-61 do MPLA, nomeadamente a traves do seu representante na Alemanha, Luis de Almeida. Na sua abundante correspondência desde a Suiça onde se encontra, Savimbi revela à Almeida muitos aspectos do seu carácter e opiniões, incluindo a sua "pouca simpatia" pelas igrejas em geral, e as protestantes em particular, cujos subsídios - de que beneficiava - julga "inadequados" ... Também critica em particular o fanatismo de Holden Roberto para a Igreja Baptista! Bem que admitido em 1961 no seio da juventude do MPLA com primeira missão a participação à uma conferencia sobre Africa na universidade de Makerere (Uganda), Savimbi é ali convencido por figuras influentes do governo do Kenya presentes, a juntar-se ao "pro-ocidental" movimento de Holden Roberto. Savimbi volta de Makerere com o cartão de adesão à UPA sem sequer alertar o MPLA. Com a criação em 1962 do GRAE - Governo revolucionário angolano em exilio -, Savimbi é nomeado ministro de negócios estrangeiros. Função que deixará com fracasso em julho 1964 durante a cimeira da OUA no Cairo, levando consigo alguns quadros da UPA-GRAE, que se juntaram a ele na criação da Unita um ano e meio depois, nomeadamente N"zau Puna, Tony Fernandes e António Dembo, todos originários do Norte (e de Cabinda) com funções de primeiro plano.

E" durante a aplicação dos acordos de Alvor e a liberdade de movimento de todos os signatários, que a Unita se fez conhecer na zona do planalto. As entrevistas realizadas na altura no Huambo e redores, confirmam o desconhecimento geral deste movimento pela população, que acolheu, porém, com simpatia a afirmação de forças que se exprimiam com convicção, e em Umbundu, e valorizavam a sua contribuição as riquezas do pais... Um discurso que alimentava ao mesmo tempo o rancor pelo seu tratamento no tempo colonial e a "discriminação" exercida por outros grupos nacionais, tais como os Bakongos nas zonas do café...

A Unita elimina os seus rivais no Huambo

Os dois principais quadros do MPLA que aí se encontravam são feitos prisioneiros pouco depois e mortos em janeiro de 1976: Joaquim Kapango (membro do Bureau Político que integrara a delegação do MPLA na assinatura do cessar-fogo com Portugal) e Albano Machado, ambos originários do planalto.

Em 1976, a Unita retira-se no rasto do exército sul-africano, cuja progressão em direção a Luanda fora travada em dezembro de 1975, a cerca de 250 km a sul de Luanda, graças à intervenção do exército cubano, na célebre operação Carlota, improvisada à pressa por Havana, e cujos primeiros contingentes desembarcam em Angola seis dias antes da independência.

O controlo de Huambo pela Unita nunca foi um longo rio tranquilo. Partes da sociedade tem resistido. Ocorrerão também execuções seletivas em 1993, após a rejeição, pela Unita, dos resultados da primeira eleição livre e a nova tomada de Huambo. Angolanos brancos antifascistas, professores universitários e médicos da cidade são então as primeiras vítimas.

Mais surpreendente, num livro destinado a tornar-se uma referência sobre Angola, como o conjunto da obra do autor, é a menção distraída da invasão de Angola pela África do Sul - ou seja, pela primeira potência militar da África subsaariana -, apresentada como um elemento entre outros dos desafios geopolíticos da época.

A retirada sul-africana é mais evocada como consequência da "tibieza americana face à situação delicada" criada pela intromissão militar do país do apartheid (que ali enviara 3500 homens) do que como resultado da amarga derrota causada pela entrada inesperada em guerra dos cubanos.

Estes ter-se-iam sobretudo empenhado junto do MPLA para perseguir os "aliados angolanos dos americanos", indica Péclard. Essas considerações teriam merecido, pelo menos, uma nota sobre a identidade desses "aliados", então antes incarnados pela FNLA, já que a Unita ainda não alcançara tal estatuto; e isso não por falta de tentativa, nem em Washington nem em Pretória - cuja invasão de Angola visava explicitamente no início colocar no poder o movimento de Holden Roberto.

A "contextualização" tão doutamente procurada no estudo histórico - que ocupa o essencial da obra - parece deixar de ser necessária quando se trata de incluir, entre os elementos a ponderar, as poderosas interferências internacionais.

Pretória-Savimbi, uma relação íntima

Contudo, a perícia militar adquirida pela Unita ao longo dos anos é indissociável da decisão de Pretória de treinar a Unita nas suas bases a norte da Namíbia.

Os livros, largamente ignorados em França, de generais sul-africanos sobre este período não escondem essa relação íntima e a coordenação estratégica - ou mesmo a submissão da Unita - aos desígnios expansionistas de Pretória.

Quanto à adesão do "povo umbundu" à Unita, ela é certamente ainda hoje mensurável pelos seus resultados eleitorais honrosos (ainda que em queda) no planalto, que revelam mais afinidades culturais e confiança no pessoal político da região do que uma desconfiança "regionalista" do poder central.

Vinte-quatro anos após o fim do conflito interno (e após o retiro definitivo da África do Sul e de Cuba, doze anos antes), o balanço da reconciliação nacional no plano militar é positivo, apesar de versões céticas que circulam fora do pais.

A hierarquia militar da Unita foi integrada nas Forças Armadas Angolanas com os mesmos postos, assim como algumas dezenas de milhares de combatentes. Durante quase uma década, o chefe do Estado-Maior não foi um general oriundo da Unita?

Coloca-se hoje uma questão Umbundu, no que respeita à formação da nação angolana? Não mais do que entre os Bakongo, apesar de muito ciosos das suas tradições ou influencia cultural. As reivindicações da oposição, quaisquer que sejam as origens regionais, incidem sobre questões políticas transversais associadas a críticas à governação, como em qualquer democracia.

Especificidade francesa

Nos anos 80, a França distinguiu-se, na Europa, pela profusão de livros enaltecendo a leadership de Savimbi ("O de Gaulle africano") e a legitimidade da sua guerra - como das suas alianças internacionais. O mundo universitário não participou a esta interpretação da atormentada história de Angola, mas a partir dos anos 90, a necessária critica a corrupção abriu um espaço de revalorização da Unita desde a sua criação, que omite seja a colaboração activa com o poder colonial, que a submissão aos interesses do agressor racista sul-africano - como também, no registo dos direitos humanos, as práticas medievais de gestão interna do poder. Na multiplicação de conferencias sobre a história a nível universitário internacional, haveria espaço para debater estas contradições?