Em entrevista recente à agência de notícias "African Initiative", Irina Olegovna deixa no ar a esperança de que as relações entre os dois países melhorem depois das eleições de 2027 que, em princípio, marcarão o fim dos dois mandatos de João Lourenço. "O País tem um Presidente complexo, mas as eleições estão quase a chegar", disse.

A especialista russa, economista e profunda conhecedora do continente africano, nessa entrevista ao editor-chefe da "African Initiative", Artyom Kureev, aborda a estratégia do seu País para a África e dá a entender que as relações Angola-Rússia podem estar em risco de ruptura.

"Acredito que em hipótese alguma devemos romper relações com Angola", diz, em jeito de recomendação. Isto porque, justifica, Angola continua a ser "um País grande e muito interessante".

Para mostrar que essas relações já foram muito boas, recordou que a Alrosa, multinacional russa afastada pelo Governo de Lourenço da exploração de diamantes nas províncias das Lundas Norte e Sul, onde detinha participações nas sociedades mineiras da Catoca e Luele, trabalhou no País "por um longo período".

Ao classificar João Lourenço de "Presidente complexo", que sociologicamente pode significar indivíduo incoerente com a sua história ou contraditório com o seu passado, a responsável russa traz ao de cima dificuldades que Moscovo sente no relacionamento com o poder angolano.

Apesar disso, manifestou esperança na melhoria das relações entre dois aliados históricos porque, acredita, a "população angolana demonstra grande simpatia pela Rússia".

Estas declarações de Irina Olegovna surgem poucos dias depois de as autoridades angolanas terem acusado a Rússia de envolvimento na preparação de um golpe de Estado com o objectivo de derrubar o Presidente Lourenço e capturar activos estratégicos do País.

Na referida acusação, o Ministério Público angolano alega que a organização Africa Politology, adstrita ao Africa Corps, ligada ao Ministério da Defesa da Rússia, teria desenvolvido em Angola uma estratégia de infiltração política, manipulação da opinião pública, recolha de informações sensíveis e preparação de acções de subversão do regime.

Segundo o MP angolano, os russos Igor Rotchin Mihailovich, de 38 anos, e Lev Matveevich Lakshtanov, de 64 anos, e os angolanos Amor Carlos Tomé, jornalista, de 38 anos, e Oliveira Francisco, dirigente político da UNITA, de 32 anos, detidos a 7 de Agosto passado, cometeram os crimes de espionagem, organização terrorista e financiamento ao terrorismo, de instigação pública ao crime, de terrorismo, de corrupção activa de funcionário e de introdução ilícita de moeda estrangeira no País.

Essas acções, diz a acusação, datada de 26 de Novembro passado, visavam "provocar alternância política, conduzindo a UNITA ao poder" ou forçar a mudança "dentro da liderança do MPLA".

Em troca desse apoio, ainda de acordo com o acusador, os russos pretendiam obter a gestão de ativos estratégicos como o Corredor do Lobito, a Biocom e empresas do sector diamantífero.

A crise nas relações Angola-Rússia, despoletada com a chegada ao poder de João Lourenço, general formado na antiga União Soviética, tomou contornos tais que Moscovo está sem embaixador em Luanda há seis meses, desde a partida de Vladimir Tararov, depois de oito anos em Angola.

Com a nova política externa de aproximação e apoio às posições ocidentais, mais vincada neste segundo mandato de João Lourenço, Angola tem-se afastado de aliados históricos como a Rússia.

Em 2019, pouco depois da sua chegada ao poder, Lourenço, político rancoroso, sentiu-se incomodado com a participação de Isabel dos Santos (filha de José Eduardo dos Santos perseguida pela justiça angolana) na Cimeira Rússia-África, em Sochi, à convite das autoridades russas.

Desde então, o PR angolano não voltou a participar em qualquer encontro na Rússia, enviando sempre em representação do País o ministro das Relações Exteriores, Tete António.

Ao classificar João Lourenço de "Presidente complexo", que sociologicamente pode significar indivíduo incoerente com a sua história ou contraditório com o seu passado, a responsável russa traz ao de cima dificuldades que Moscovo sente no relacionamento com o poder angolano divulgados pela CNE que determinaram a vitória do MPLA com 51% e a consequente continuação de João Lourenço na chefia do País.

Os Estados Unidos "felicitam o presidente eleito João Lourenço pela sua eleição como o próximo Presidente de Angola", escreveu o então secretário de Estado norte-americano Antony Blinken, adiantando que, "esperamos trabalhar com ele para fortalecer as relações vitais entre Angola e os Estados Unidos".

Prometeu igualmente que os "Estados Unidos continuarão a colaborar estreitamente com o Governo e o povo angolanos para promover os nossos objectivos comuns, enquanto trabalhamos para fazer avançar um futuro mais sustentável, seguro, inclusivo e próspero".

Depois desta declaração dos EUA, parceiros europeus da NATO, até aí hesitante em reconhecer os resultados eleitorais da CNE, mudaram de posição. Seguiram, obviamente, a posição da Administração Biden, ignorando denúncias de fraude de organizações da sociedade civil e da UNITA que reclamava vitória.

Consequentemente, Angola também mudou a sua visão sobre a guerra na Ucrânia. Passou da neutralidade, consubstanciada em abstenção nas votações na ONU em relação ao conflito, para voto ao lado dos países ocidentais, nomeadamente EUA e União Europeia, a favor de Kiev e contra Moscovo.

Neste quadro, em Outubro de 2022, na Assembleia Geral da ONU, pela primeira vez, Angola vota contra a Rússia ao lado do Ocidente. Um voto de condenação da anexação de quatro regiões da Ucrânia pela Rússia, diferentemente de outros países africanos aliados tradicionais de Moscovo que se abstiveram.

Assim, a Rússia, herdeira da então União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS), um dos principais aliados do MPLA desde os anos 50 do século XX, passa de parceiro estratégico a actor secundário na política externa angolana.

Luanda passou a ignorar a História, nomeadamente o apoio militar, financeiro e político da URSS ao MPLA, durante a Luta de Libertação Nacional, bem como na construção e reconstrução do País, no pós-Independência, e ainda na luta contra as forças do regime do apartheid e na guerra civil.

Entretanto, à medida que os laços entre os dois países vão-se deteriorando de forma progressiva, Moscovo enceta e torna públicas relações com o principal adversário do MPLA, a UNITA.

Vladimir Tararov, agora embaixador em Maputo, antes do final da sua missão em Luanda, escolheu as comemorações do Dia Nacional da Rússia para elogiar, publicamente, o desempenho político do partido do Galo Negro.

Disse que "a UNITA se transformou muito", e é hoje uma organização "com outra visão que se chama de oposição construtiva".

Existe no País, adiantou, "sinal de uma verdadeira reconciliação nacional". Por isso, questionou: "se Angola pensa que esse movimento, ou esse partido da oposição pode contribuir para o desenvolvimento num quadro de reconciliação nacional, porque temos de rejeitar isso?

Nessa espécie de inversão de papéis, a UNITA, na voz do seu presidente, Adalberto Costa Júnior, considera que "seria uma ilusão" ignorar que "a Rússia em Angola tem um papel histórico.

As declarações de Irina Olegovna trazem à memória a resposta de Nelson Mandela dada num jantar oferecido por Bill Clinton na Casa Branca, em 1998. Ao reagir às pressões norte-americanas contra as relações estratégicas Pretória-Moscovo, o líder histórico do ANC disse: "a nossa moralidade não nos permite abandonar os nossos amigos".

"Não esqueça o que é ser um marinheiro apenas porque é um capitão", provérbio africano.