JOSÉ EDUARDO DOS SANTOS, A HISTÓRIA TE ABSOLVERÁ
Seria impossível não relembrar o Presidente José Eduardo dos Santos na 12.ª retumbante vitória dos nossos heróis da Selecção Nacional de basquetebol durante o AFROBASKET, em vésperas do seu aniversário natalício. Pelas manifestações escritas imediatas de internautas, ou de vídeos dele reeditados nas redes sociais, ficou bem claro que a memória popular já é a justiça da história.
Não nos recordamos apenas do seu contributo para com o desporto, em especial do basquetebol e do futebol, que ele mais amava e sempre praticou. Relembro-o também, como o homem mais paciente que conheci em toda a minha vida, super educado e excelente pai. Como estadista, para além de paciente, era calmo, humilde, resiliente e conciliador, porque sabia perdoar de verdade, coisa que eu nem sempre consegui. Ainda estou a vê-lo jogar futebol com os seus seguranças, o que incentivei, sugerindo a ele e ao meu compadre e seu primeiro Chefe da Segurança Presidencial, o General José Maria. Posteriormente, sugeri-lhe convidar a equipa de futebol do Ministério da Indústria e seguiram-se outras. Essa ideia surgiu-me, porque, como ex-praticante de basquetebol e atletismo no Benfica e de futebol de salão no liceu, pedia-me para jogar com ele aos fins-de-semana. Durante muito tempo, éramos apenas dois sem guarda-redes. Como é óbvio, eu só metia golo quando ele queria. Também jogámos ping-pong e corríamos à beira-mar na praia Amélia, na Corimba, onde morávamos, antes de assumir o cargo de Chefe de Estado.
Recordo-me da primeira vez que o Presidente José Eduardo dos Santos fez a primeira surpresa aos atletas de basquetebol do Clube 1.º de Agosto durante um torneio e jogou. Quando, antes do início da partida, entrou na quadra do pavilhão da Cidadela de fato de treino, inicialmente, os atletas pensaram que seria apenas para os saudar. Na verdade, eu encorajei-o em casa a fazer a surpresa aos atletas e jogar e, se necessário, surpreender a própria segurança pessoal. Já dentro da quadra de jogo, pediu uma camisola e alinhou de imediato com eles, para desespero da guarda presidencial. Não fez feio, pelo contrário. Foi ovacionado de pé e, no final, os olhos dele brilhavam de alegria e de emoção. Tornou a participar outra vez por menos tempo. Depois comunicou-me que a Segurança pessoal o desaconselhou em absoluto, mas continuaram os jogos no Futungo de Belas.
O Presidente José Eduardo dos Santos, queiramos ou não, foi indiscutivelmente um diplomata nato, de trato fino, um humanista, um estratega, o arquitecto da paz efectiva, comprovada pela comunidade internacional. JES, com a sua discrição, aguentou pressões externas e internas no seu Partido, para manter a paz, não apenas para Angola, mas para toda África Austral e Central.
Quer o Conselho de Segurança da ONU, que interrompeu a sua sessão para o homenagear com um minuto de silêncio a data da sua morte, quer a Administração Americana, quer os restantes países do G7 que comandam o mundo e não só, reconheceram-no nas mensagens oficiais de condolências.
Nem as acusações de corrupção encomendadas pelos seus próprios camaradas de Partido, que, enquanto governou, o bajulavam e convidaram membros de sua família para trabalhar, visando obter o seu apoio político, foram provadas. Até à presente data, ninguém provou que JES roubou. Há, sim, a única certeza que os seus então colegas de Bureau Político aprovaram o seu próprio empoderamento, assim como de outros peões escolhidos da sua confiança pessoal e de alguns elementos da oposição . Copiaram o modelo "black empowerment" do governo de Nelson Mandela na África do Sul, e assim nasceu, a denominada Lei do Fomento Empresarial.
Se algum dos seus camaradas de partido, ex-subordinado ou empresário, tiver algo a esconder que prova ser dele, ou tem em seu poder algo que lhe pertencia, então trata-se de gente duplamente ladra e muito mais perigosa do que se pensa.
Recordo-me com clareza de todas as críticas directas que JES sofreu quando o acordo de Bagdolite em 1989 fracassou e ainda por cima foi lá sem dar conhecimento. Na Assembleia Nacional, onde também estavam como convidados vários militares, alguns dos mais jovens insurgiram-se contra ele, falaram em tom de voz alterado e ninguém foi preso por isso. Um deles foi o meu amigo Comandante Gaspar de Almeida. Eu assisti, porque estava lá a acompanhá-lo. Só quem participou da missão sabia ao que ia. O General Ndalu, pensando que eu também sabia do objectivo da missão, descaiu-se e por isso, na noite anterior à partida a hora do jantar, pedi-lhe que não fosse, mas ele foi. Nem lhe dizendo que Savimbi era um psicopata assassino e lembrando-lhe que Mobutu perseguiu os militantes do MPLA, que tiveram que fugir do seu país (os que lá ficaram não eram activos no MPLA, ou eram da FNLA, não obstante apregoem o contrário).
O Presidente Neto foi quem criou o slogan "No Zimbábue, na Namíbia e na África do Sul está a continuação da nossa luta", mas ele só viveu para governar durante escassos 3 anos e 10 meses e permitiu uma chacina no 27 de Maio. Foi o Presidente José Eduardo que aguentou todas as críticas dos seus colegas de partido, por ter enquadrado no Executivo vários presos políticos durante essa intentona. O Presidente José Eduardo dos Santos não "emprenhava pelos ouvidos", mas sabia ouvir e decidir o que achasse justo ou mais conveniente. No que se refere ao enquadramento dos ex-prisioneiros do 27 de Maio, entre os quais a actual Primeira Dama de Angola, ouviu-me. Quando chegou a vez do Inglês, o melhor aluno da classe de 1985 da Faculdade de Direito, JES chegou a casa desalentado e confidenciou, porque não era segredo de Estado:
"Tive que retirar o nome do vosso colega, o Inglês, porque os meus colegas do BP disseram-me que eu já estou a proteger muitos fraccionistas. Um até teve a coragem de me pedir uma audiência e dizer que essa protecção se estendia a ti ".
É preciso não fazer esquecer aos mais jovens e às gerações vindouras que o Presidente José Eduardo dos Santos governou com guerra os restantes 24 anos e durante esse período era impossível haver eleições. Porém, hoje, ingratos há no seu próprio partido que o acusam de ter ficado no poder tantos anos, porque era agarrado ao poder. O Presidente da Região Autónoma da Ilha da Madeira governou exactamente 37 anos e nesse arquipélago europeu nunca houve guerra.
Nada para JES foi fácil, desde que ele disse durante um discurso na Praça da Independência, no dia 1 de Maio de 1980, que os membros do partido que estavam no Governo pelo simples facto de serem militantes do MPLA, mas não tinham os conhecimentos necessários, deveriam ser todos transferidos para o Partido. Defendeu que, para o Governo, deveriam ser nomeados quem tivesse capacidade técnica para tal, fossem ou não militantes do MPLA, assim o fez .
Foi assim que despertou sobre si uma fúria dos seus colegas do Partido e dos ex-colegas da FAPLA . O "Grupo dos Catetes", liderado por Mendes de Carvalho, encomendou um discurso do Comandante Paiva da Silva (herói do 4 de Fevereiro ), que disse que "o Presidente José Eduardo dos Santos não pode tirar nem uma vírgula ao que o Presidente Neto disse: "Um grupo de Comandantes das FAPLA, tendo como porta voz o Comandante Bolingo", depois de uns "copos", pediu-me para eu dar o recado a JES que ele e o Comandante Loy formaram-se, porque vieram de Luanda como meninos de Liceu e foram mandados estudar, mas foi a eles (iliterados ) que AN mandou lutar .
Recordo-me muito bem quando a 23 de Agosto de 1981 estávamos na Coreia, provenientes da ex-URSS, JES recebeu a comunicação de que os sul-africanos tinham irrompido pela nossa fronteira (Operação Proteia), trazendo consigo tropas da UNITA, supostamente para ocupar e administrar a província do Cunene, e destruir as linhas de apoio logístico da SWAPO que estavam nesta região. Eu entrei em pânico e ele, como sempre, mantendo o tom sereno de voz que nunca alterava, disse-me: "Temos de ter coragem e determinação para acabar com essa maldita guerra, mas só com a libertação dos nossos vizinhos e irmãos".
José Eduardo lamentava o facto de alguns dos chefes de Estado dos países da linha da frente e dos PALOP contradizerem-se, por algumas acções práticas. No caso de Moçambique, vendiam parte do combustível que recebiam de Angola ao país vizinho, ainda durante o regime do Apartheid. Cabo Verde abastecia aviões desse país, com o combustível fornecido por Angola. No caso dos Presidentes da Linha da Frente, prefiro limitar-me a referir que JES regressava no mesmo dia quando participasse em reuniões. No dia do acidente de aviação que matou o Presente Samora Machel, ele regressou à casa cedo e antes da horrível notícia, durante o jantar, disse que era muito estanho ver a mesa do PR da Zâmbia servida só com vinhos "Made in South Africa", em período de embargo a esse país, quando essas reuniões eram precisamente para encontrar estratégias para lutar contra a África do Sul.
Estamos todos recordados das críticas de que JES foi alvo (eu incluída), quando tomou a decisão de enviar militares angolanos para a RDC, para salvaguardar a fronteira com Angola dos grupos rebeldes naquele país, que, segundo Kate Hairsine da DW, de 22/02/2024, tem cerca de 14 grupos armados estrangeiros e 250 grupos armados locais, que se dedicam essencialmente ao garimpo).
Hoje, não obstante os órgãos de defesa e segurança sejam privilegiados com uma boa fatia do OGE, em termos práticos, quer os militares, quer os paramilitares que tratam da segurança e ordem pública, andam um pouco à deriva, possivelmente por falta de organização e descentralização de verbas, ou por necessidade de melhores chefias. Temos de ser conscientes e responsáveis e assumir que nem sabemos se as Forças Armadas Angolanas estariam em condições neste preciso momento para combater um exército invasor forte.
O Presidente José Eduardo dos Santos será para todo o sempre, na dimensão internacional, o Arquitecto da Paz. Por isso, a maioria da população deste País nunca o esquecerá como "patriota", como queria ser lembrado. Foi ele que não teve medo de "arregaçar as mangas" e reconstruir um país a partir dos escombros, numa altura em que só a China nos deu a mão, transformando-o num canteiro de obras, que continuam a ser reinauguradas. O Presidente José Eduardo dos Santos, como ser humano e como quem trabalha e toma decisões, também errou e admitiu. Porém, nenhum desses erros lhe retirarão o brilhantismo e o respeito de milhões de angolanos.
*Consultora Internacional