Após uma consulta de fisioterapia, um indivíduo apoiado nas suas muletas que, diga se, não são propriamente um acessório de luxo, mas fazem um belo conjunto com o andar de pinguim cansado, foi às compras. Depois das compras, encostou-se ao carro para recuperar o fôlego enquanto o motorista e a sua filha arrumavam as sacolas. Um momento banal. Quase poético. Até que a poesia foi interrompida por um segurança com ar de missão divina.
Aproximou-se com a solenidade de quem vai anunciar o fim do mundo e disse, muito seguro de si, que tinha recebido instruções para o retirar dali e aguardar a polícia. A polícia. Porquê? Porque ele era um mendigo que estava a importunar clientes dentro da loja incluindo estes que arrumavam as compras no porta-bagagem do carro.
A sua filha ficou tão atónita que quase deixou cair as compras. O motorista, coitado, olhava para o indivíduo e para o segurança como quem assiste a um episódio de uma novela mexicana sem legendas ou como quem tenta decifrar um intérprete de linguagem gestual. O indivíduo, apoiado nas suas muletas, só poderia estar a pensar que se isto é ser mendigo, estava a falhar miseravelmente na carreira. Nem uma moeda tinha recebido.
Perguntou ao segurança se tinha a certeza de que era ele o alvo da denúncia. Ele confirmou com a convicção de um profeta. Poderia ter havido um engano. Ele insistiu que não. Aparentemente, muletas mais roupa confortável é igual a ameaça pública.
A factura das compras foi mostrada, como quem apresenta um passaporte diplomático. O segurança olhou, murmurou qualquer coisa entre o embaraço e a teimosia, e retirou-se. Sem desculpa, sem sorriso, sem nada. Apenas foi. Talvez ainda esteja a explicar na secção de segurança como quase prendeu um cliente por este se estar a amparar nas suas muletas.
Quantas pessoas são tratadas assim todos os dias? Quantas são julgadas pela roupa, pela postura, pela condição física, pelo sotaque, pelo estilo do penteado? Quantas são confundidas com aquilo que não são, simplesmente porque alguém decidiu que parecem?