Nas universidades, formamos jovens com sólida base teórica, pensamento crítico, domínio de novas linguagens digitais e consciência ética. Nas redacções, temos profissionais seniores com memória histórica, faro jornalístico, intuição editorial e experiência de vida. O problema não é a existência destes dois mundos. O problema é o muro invisível que construímos entre eles.
Durante anos, o jornalismo foi aprendido fazendo. Muitos dos nossos melhores profissionais não passaram por faculdades, mas passaram pela rua, pela escuta atenta, pelo erro corrigido a tempo e pela ética construída na prática. Esse saber não está nos manuais. Está nas pessoas.
Mas o que vemos hoje? Seniores que guardam o conhecimento como se fosse propriedade privada. Jovens que chegam às redações e são tratados como ameaça ou incómodo. Estagiários usados como mão de obra barata, não como investimento humano. Isto não é rigor profissional. É medo disfarçado de autoridade.
Criámos um jogo perigoso. De um lado, desvaloriza-se quem não tem diploma. Do outro, desconfia-se de quem chega com diploma a mais. Uns acham que a academia é inútil. Outros acham que a prática envelheceu. Ambos estão errados e ambos estão a empobrecer o jornalismo.
Como professora universitária, sei que a academia não forma jornalistas prontos. Forma jornalistas em construção. Como jornalista, sei que a redacção sem método, sem reflexão e sem actualização também falha. E como investigadora em literacia digital, afirmo: num ecossistema mediático atravessado por algoritmos, desinformação e inteligência artificial, ninguém sobrevive sozinho.
O jornalismo do presente e do futuro exige redações-aprendizagem. Espaços onde o sénior ensina o que não se ensina em PowerPoint e o jovem traz o que não se aprende nos corredores antigos. Exige mentoria real, não discursos vazios. Exige humildade institucional para reconhecer que o conhecimento circula ou morre.
O jornalismo angolano não pode continuar refém de guerras silenciosas entre gerações. Quem não passa o testemunho sabota o futuro. Quem recusa aprender sabota o presente.
Falta-nos dizer isto com clareza: o jornalismo não se herda por antiguidade nem se legitima apenas por currículo. Legitima-se pela capacidade de servir o público, de interpretar o tempo presente e de preparar o tempo que vem a seguir. Redacções que silenciam os jovens perdem frescura. Redacções que dispensam os mais velhos perdem memória. E quando memória e futuro deixam de conversar, o resultado não é neutralidade - é mediocridade institucionalizada
E falo com a autoridade de quem atravessou várias idades do jornalismo angolano, sem nunca se permitir ficar confortável em nenhuma delas. Recuso a lógica da cadeira cativa, do saber trancado, do "sempre foi assim". Aprendi com mestres que me deram espaço, erro e palavra - e foi isso que me fez ficar. Por isso escrevo: não para agradar, mas para acordar. Porque o jornalismo que não passa o testemunho não envelhece com dignidade: fossiliza. E eu não aceitei atravessar redacções, salas de aula e páginas académicas para assistir, em silêncio, à sabotagem do futuro que ajudámos a construir.
*Directora convidada

