Depois de ter estado na capital angolana a 14 de Dezembro, o Presidente da República Democrática do Congo (RDC) voltou a Luanda esta segunda-feira, 05, com o conflito no leste congolês na agenda de trabalho da reunião com o homólogo angolano.

Em cima da mesa estava, como ponto único, embora a RDC e Angola, países vizinhos com uma extensa fronteira de 2.500 kms, tenham muitos temas para "garimpar", o acordo mediado pelos EUA entre Kagame e Tshisekedi.

Tal acordo deixou de ter pés para andar e está hoje sob um campo "minado" pelos guerrilheiros do M23, apoiados por Kigali, que não apenas voltaram a pegar em arnmas, mas nunca as chegaram a depor.~

E isso viu-se com as forças lideradas por Corneille Nangaa a avançar no terreno, especialmente no Kivu Sul, com tomadas de posições sucessivas em áreas de interesse mineiro estratégico, a ponto de chegarem mesmo a ameaçar avançar para o Katanga.

Regressando ás acusações directas ao Ruanda de Paul Kagame, Tshisekedi, que foi assinado em Junho do ano passado, em Washington, mas fora precedido de um encontro surpreendente dos dois, a 18 de Março, no Catar, numa evidente "traição" aos esforços do Presidente angolano durante vários anos.

Nesse mesmo momento, João Lourenço abandonou a liderança do Processo de Luanda, dando sinais de grande desconforto, até porque estava então na liderança da União Africana, esperando para ver como fluía o acordo mediado por Donald Trump, uma das tais oito guerras que disse ter acabado no mundo.

Correu mal. Como se vê. E, agora, para atalhar caminho, ao que tudo indica, porque nem os congoleses nem a parte angolana avançam detalhes do conteúdo destas conversas, Félix Tshisekedi deixou de vez Paul Kagame a falar sozinho e voltou a ter João Lourenço como conselheiro.

Até porque, como avança a Radio Okapi, uma das mais relevantes na RDC, foi a instabilidade regressada ao leste do Congo que esteve em foco nesta nova visita a Luanda do Presidente Tshisekedi. Que afiançou ao angolano que a região "vive uma guerra imposta".

Numa referência ao Ruanda como sendo o país que está a levar a conflitualidade militar ao leste da RDC de novo através do seu instrumento armado que são os guerrilheiros do M23, que furaram por completo a fina película que envolvia o acordo de Washington.

O que o congolês pretende, com alguma, ao que tudo indica, resistência de Lourenço, até porque é difícil antecipar como Donald Trump poderá reagir, é reativar o Processo de Luanda, como avança a Okapi, citando várias "fontes concordantes".

Entretanto, em Luanda, Tshisekedi, citado pelos media estatais, disse, á saída do encontro com João Lourenço, que proveitoso no sentido em que ocorreram avanços no esforço de estabilização da situação no leste da RDC.

E nessas declarações emergem alguns sinais de que o Presidente angolano estará novamente disponível para dar um contributo, embora ainda sem que esteja totalmente claro em que condição.

"O Presidente João Lourenço, como homem de iniciativas, apresentou-me algumas propostas que considero muito interessantes e que espero que nos permitam avançar no plano da paz República Democrática do Congo", enfatizou o Presidente congolês.

E acrescentou que o que o Presidente angolano pensa "não se afasta dos processos já existentes, nomeadamente os acordos de Washington e de Doha, mas visam antes reforçar e complementar os caminhos já abertos para a paz".

Recorde-se que (ver links em baixo) a RDC acusa o M23 de ser uma ferramenta ao serviço do Ruanda, que o financia e arma, para explorar, com a cobertura da instabilidade, os imensos recursos naturais do leste congolês, com destaque para o coltão, o cobalto e terras raras.

E, como se pode revisitar aqui, o mesmo M23 estará a avançar para sul, com alguma e perigosa solidez, na perspectiva angolana, visto que se chegar ao Katanga, antiga região próxima de Angola hoje dividida em duas províncias distintas, pode começar a desestabilizar também esta geografia na fronteira.